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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A direção do tratamento do psicótico




Seminário
A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI



Capítulo III
A direção do tratamento do psicótico


            Os princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que regem o tratamento da neurose. O breve levantamento que será feito tomará como bússola a psicanálise de orientação lacaniana.

            A experiência tem demonstrado que existem casos que caminham bem com o tratamento psicanalítico, existem casos que caminham melhor com outros tratamentos, existem casos que requerem tratamentos combinados e existem aqueles que desafiam todos os tratamentos.


            1. O matema do tratamento do psicótico

            A linguagem é a matriz de todos os casos: quanto a isso, não há diferença entre neurose, perversão e psicose. O lugar do Outro está lá, antes mesmo do sujeito nascer. O sujeito, na definição lacaniana, é um efeito do significante. Antes que ele fale, ele é falado por esse Outro pré-histórico.

Dois aspectos são fundamentais: o sujeito como ser falante é uma criação significante (1) que surge de seu estatuto primeiro de objeto (2). Na psicose, por não se introduzir a função da castração, temos um sujeito que resiste à falta-de-ser, que resiste à barra, um sujeito-objeto, a-sujeitado ao Outro.

Pode-se dizer que o paranoico fica detido no estádio do “isso fala dele”, e fala de modo desagradável, enquanto que para o esquizofrênico prevalece o “isso não fala dele”, alusão ao filho no ventre da mãe como um pedaço-de-real [1].

Miller discorre sobre o tratamento do psicótico a partir do seguinte matema:

                           a   ↓        
                                                                       
                                                       $

            O tratamento partiria da posição do psicótico como objeto e conduziria aos confins da produção do sujeito [2].


            2. A posição de escuta

            Um primeiro aspecto a ser destacado é a posição de escuta do analista em relação ao psicótico. Há em jogo vários aspectos importantes a serem examinados.

            Pelo simples fato de falar, o psicótico se põe como sujeito; e o analista, polo de endereçamento, se põe como Outro. Enquadramento simbólico que reverte a tendência da psiquiatria a tratar o psicótico como objeto.

            A fala não só dá ao psicótico a condição de sujeito como representa certo acesso ao simbólico, num duplo trajeto: aquele que fala também se escuta. E aquele que fala, de algum modo denota e metaforiza.

            Não se trata de uma escuta qualquer: os psiquiatras clássicos também escutavam seus loucos, mas como objetos de seu esforço descritivo e classificatório. 

            Trata-se de uma escuta analítica, que procura apreender a fala do psicótico não para atribuir-lhe sentido ou compreensão, mas para “tomar ao pé da letra o que ele nos conta”, acolhendo-a como algo específico e próprio daquele sujeito. Lacan propôs o analista em posição de testemunho, como secretário do alienado [3].


            3. A interpelação do sujeito

            Há uma tendência do psicótico a se por ao lado do objeto a e em posição de quem sabe, de quem pode enunciar um saber desconhecido sobre o Outro. O analista, por sua vez, como simulacro de objeto, sob suposição de saber, procura dividir o sujeito. Ou seja, a posição do psicótico guarda certa correspondência com a posição do analista. Como contornar o obstáculo?

            Outra possibilidade a ser considerada é a tendência do psicótico, frequente nos relatos por ele trazidos, a se colocar como objeto de gozo do Outro. O paradigma é Schreber. 

            Tanto num caso como no outro uma intervenção pode ser a interpelação do psicótico como sujeito, que deve, no entanto, obedecer ao cálculo da clínica.

            Trata-se de algo que está próximo ao que Laurent propôs com a fórmula “tocar o sujeito no doente”[4].

Uma das estratégias para tratar o psicótico que se apresenta em condição de objeto consiste, portanto, em interpelá-lo como sujeito.

            O simples convite à fala já constitui um movimento nesse sentido, pois aquele que fala está no lugar do sujeito que se dirige ao Outro da escuta. 

            Como toda intervenção, a interpelação deve ser feita sob transferência, e inclui todas as modalidades de convocação, implicação ou responsabilização do psicótico como sujeito, visando balançar seu assujeitamento ao Outro. 

Vinheta. Um paranóico apresenta delírio erotomaníaco recorrente. Cada vez que se propõe a trabalhar, seja num estágio ou mesmo numa oportunidade de emprego, aparece uma moça que dá indicações de querer seduzi-lo ou assediá-lo, ou de querer “ficar” com ele, ainda que não exista, de sua parte, nenhum interesse nisso, nenhuma atração sexual pela moça em questão. É algo tão forte que faz com perca noites de sono, ou que pense seriamente em abandonar o local de trabalho. Houve, aqui, uma intervenção fundamental:
 —Você não deve ficar com quem você não quer. 
Intervenção que surtiu efeito: há mais de seis anos ele trabalha num emprego público conseguido mediante concurso.


            4. O tratamento (retificação) do Outro

            Lacan diz que “o estado do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que se desenrola no Outro A” [5]. Na psicose, o que se tem? Um Outro sem lei, um Outro intrusivo, um Outro gozador. Na paranoia, por exemplo, o Outro se apresenta subjetivado — perseguidor ou erotomaníaco — e o psicótico como objeto desse gozo. 

Uma solução adotada é o delírio, construção simbólica e imaginária que reorganiza o mundo do psicótico. Na verdade, não só do psicótico; existem inúmeras construções filosóficas, religiosas e políticas que constituem delírios coletivos, com função organizadora dos grupos que as comungam. 

            Na maioria das vezes, porém, os delírios infligem pesado sofrimento ao psicótico, principalmente no caso de delírios alucinatórios.

            O tratamento do Outro visa flexibilizar o poder absoluto, ou a omnisciência, ou a perfeição atribuída ao Outro. O que se busca é “uma outra Alteridade que seja alternativa ao Outro primordial do sujeito” [6].

            Não se trata de refutar, mas de afrouxar seu sistema de crenças, ou de balançar a onipotência do Outro, que é, na psicose, estruturalmente tirânico, torturador, mortífero. Um dos objetivos do tratamento poderia assim ser definido: contribuir para criar um outro Outro (não confundir com Outro do Outro). 

            A própria manobra da transferência poderia ser citada como uma estratégia que concorre para isso. Mas existem intervenções que tem efeitos quando se procura uma retificação do Outro.

Vinheta. Colette Soler cita o caso de uma psicótica em análise que, em pânico frente aos propósitos de seu perseguidor, entra em crise com pensamentos suicidas, fazendo crer que não haveria alternativa a não ser uma hospitalização. Uma intervenção da analista, porém tem efeito apaziguador:
—Ele não tem esse direito.
Palavras portadoras de um limite a respeito das pretensões do Outro sobre sua vida[7].


5. O benefício da dúvida      
                      
            O neurótico acredita no Outro, mas vacila, porque na neurose o Outro é barrado. Pode-se dizer que a neurose é da ordem da dúvida.

            A psicose, por seu turno, é da ordem da certeza. O Outro não é barrado; o psicótico não acredita, ele tem certeza da existência do Outro.

            Na psicose, o vigor da certeza está presente tanto em relação ao Outro do delírio como em relação ao real da alucinação.

            É claro que, quando se trata de perseguição atroz, de erotomania mortífera ou de alucinações com vozes de comando assassinas, isso traz sofrimento lancinante para o psicótico.

            É nesse contexto que se torna oportuno o ditame ético de Lacan: onde houver certeza, introduzir o benefício da dúvida.

A certeza psicótica aparece, como foi visto, em duas situações principais: diante do Outro do delírio e diante do real da alucinação. Em ambos os casos pode estar associada a angústia dilacerante ou a passagens ao ato. O analista, sob transferência, pode contribuir para atenuar o quadro, introduzindo o benefício da dúvida.

Vinheta. Uma analista sob supervisão atende a um esquizofrênico internado numa unidade psiquiátrica devido a sérias agressões cometidas contra sua mãe. Na unidade de internação, novas agressões acontecem contra outro paciente e contra uma atendente. Ao falar sobre elas, ele se queixa de vozes de comando com autoridade inexorável, que lhe ordenam agredir ou até mesmo matar certas pessoas que cruzam o seu caminho. A analista intervém:
 —Por que motivo você acha que tem que obedecer a essas vozes?
Intervenção que foi feita várias vezes em diferentes situações e com diferentes termos.


            6. A extração do objeto a

            A angústia na neurose é angústia de castração, angústia relacionada à falta.

            Na psicose, por outro lado, a angústia surge quando a falta vem a faltar, ou seja, quando há objeto, quando há objeto demais [8].

            Em outros termos, na psicose não há extração do objeto a. O psicótico não se separou de seu objeto a, guarda-o no bolso, conforme diz Lacan.
           
Para Lacan, ainda, “o campo da realidade se sustenta apenas pela extração do objeto a” [9]. Ou seja, é a extração do objeto a que fornece o enquadramento, ou a janela na qual a realidade toma sua significação para nós. A extração do objeto a, além disso, está correlacionada à própria produção do sujeito.

Miller afirma: “A morte do sujeito na psicose é o que se produz quando o objeto a não é extraido do campo” [10].

Mais adiante, ao conjecturar sobre preliminares ao tratamento da psicose, Miller indaga: “Extrair o objeto a é a fórmula para isso?” [11] É preciso observar que tal proposta não anula o matema do tratamento do psicótico, pois a extração do objeto é correlativa da produção do sujeito. Miller termina concluindo que a extração do objeto a é apenas um outro nome da castração.
 
A angústia na psicose, portanto, tem a ver com a falta da falta, com o objeto demasiadamente presente. Para sair dela, existem diferentes caminhos, como a extração do objeto pela via do significante. É possível, ainda, num curto-circuito, realizar uma passagem ao ato, tal como uma agressão, uma automutilação ou uma tentativa de suicídio.

Vinhetas.Existem várias vias para a extração do objeto a.
1) Pela via da passagem ao ato. Pode-se citar, aqui, o caso de Van Gogh, que num momento de crise cortou a própria orelha, e o caso Aimée, que com uma navalha agrediu a uma atriz, como exemplos ocorridos fora do tratamento. Dentro do tratamento, pode-se evocar uma psiquiatra que atendia um psicótico num CERSAM de Belo Horizonte, e que teve seu carro riscado pelo paciente. Em todos esses casos, após a passagem ao ato sobreveio certa estabilização.
2) Pela via da alucinação. É o célebre exemplo do Homem dos Lobos.“Quando eu tinha cinco anos, estava brincando no jardim, perto da babá, fazendo cortes com meu canivete na casca de uma das nogueiras que aparecem em meu sonho também. De repente, para meu inexprimível terror, notei ter cortado fora o dedo mínimo da mão (direita ou esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, preso apenas pela pele. Não senti dor, mas um grande medo. Não me atrevi a dizer nada à babá, que se encontrava a apenas alguns passos de distância, mas me deixei cair sobre o assento mais próximo e lá fiquei sentado, incapaz de dirigir outro olhar ao meu dedo. Por fim me acalmei, olhei para ele e vi que estava inteiramente ileso” [12].
3) Pela via da palavra. Os dois casos da Convenção de Antibes, que serão apresentados em 7.6. (neotransferência), “O doutor está um caco” ou “Pareces uma lebre”, são bons exemplos.


            7. O tratamento sob transferência

            O tratamento psicanalítico do psicótico, assim como o do neurótico, é feito sob transferência. Mas há diferenças cruciais.

            Na neurose, o vetor da transferência (amor, ódio) vai do sujeito ao Outro, ou do neurótico ao analista. E o saber está do lado do analista (sujeito suposto saber). Ao emprestar semblante para a suposição de saber o analista favorece a entrada em análise e o prosseguimento da experiência analítica.

A diferença começa aí. E Miller, a este respeito, é bem claro: “O paranoico só conhece o saber. Sua relação com o saber constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia pelo mundo, um saber que se faz mundo? [13]” Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber, ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.

A primeira conclusão propõe que, nesse tratamento, o saber não deve ficar do lado do analista e sim do lado do psicótico.

Segunda conclusão: quando o saber fica do lado do analista, a tendência é o surgimento de transferência persecutória ou erotomaníaca. Na psicose, por conseguinte, o vetor da transferência vai do analista ao psicótico.

Quando o saber fica do lado do analista, portanto, podem manifestar-se modalidades de transferência que inviabilizam o tratamento do psicótico. Existem estratégias para evitá-lo, o que será visto da próxima vez.

Cabe a pergunta: que transferência seria adequada nesse caso?

Uma resposta sumária: a melhor possibilidade é quando o psicótico situa, do lado do analista, o objeto ou o ideal. É o que foi nomeado neotransferência.

Existem várias estratégias que contribuem para lidar com a transferência do psicótico.


            7.1. Manobra da transferência

A transferência psicótica (persecutória ou erotomaníaca) é um obstáculo intransponível para o trabalho analítico que deve ser evitado a todo custo. 

            Lacan referiu-se à manobra da transferência uma única vez, na “Questão Preliminar”; mesmo assim, sem se deter sobre o tema. É preciso reunir indicações para formalizar algo a respeito[14]. A manobra da transferência seria um modo do analista lidar com a transferência psicótica que consiste em sair do lugar persecutório ou erotomaníaco em que o psicótico o coloca, buscando um lugar vazio de gozo. Implica, portanto, não emprestar semblante às atribuições do psicótico.

Vinheta: uma residente de psiquiatria sob supervisão dá continuidade ao tratamento de um paciente paranoico recebendo-o para mais uma sessão. Ouve então da parte dele o seguinte comentário.
—Você me atende com frequência muito maior do que outros médicos atendem seus pacientes e sempre fecha a porta... será que estaria interessada em mim como mulher?...
Já orientada quanto a essa possibilidade, a residente responde prontamente:
 —Estou interessada em você, sim, mas meu interesse é unicamente profissional. A frequência maior é para poder ouvi-lo e a porta fechada é para não sermos interrompidos.
 De forma ativa, portanto, a atribuição erotomaníaca foi refutada.

A transferência erotomaníaca ou persecutória, quando muito intensa, pode dar origem a passagens ao ato que dificultam ou inviabilizam a continuação do tratamento. A agressão visaria à barração do Outro ameaçador ou então à ruptura com ele.


7.2. Inversão da suposição de saber

Enquanto que na direção do tratamento do neurótico o analista faz semblante de suposição de saber, no caso do tratamento do psicótico a melhor estratégia é a posição de sujeito suposto não saber. 

Isso se deve, em primeiro lugar, à razão mencionada anteriormente: quando o saber do inconsciente se coloca do lado do analista, há favorecimento da transferência persecutória ou erotomaníaca.

Quando o psicótico atribui saber ao analista, por conseguinte, o mais prudente é proceder à inversão da suposição de saber, que deve estar do lado do psicótico.

Há uma segunda razão para a estratégia, que está em consonância com o último ensino de Lacan. Situar o saber do lado do psicótico é admitir, entre outros aspectos, que ele sabe o seu caminho, ou que ele é capaz de construi-lo. A tarefa do analista não é trazer a solução, mas entrevê-la no que lhe é apresentado.

Vinheta. Um psicótico aparentemente dócil foi internado várias vezes pelo mesmo motivo: agressões físicas a seu pai, homem autoritário e de convicções rígidas. A família procurou-me após outra internação, dessa vez por agressão física ao avô paterno. Ele pouco falava sobre os motivos de suas agressões. Durante as férias do pai, ele fica hospedado na casa de um tio paterno, que se torna a nova vítima de sua agressão física. Seu pai, profundamente irado, pergunta-me sobre uma solução, uma internação de longa permanência, ou algo assim. Comento com o paciente que todas suas agressões dirigiram-se ao seu pai ou a familiares dele. E pergunto-lhe:
—Você gostaria de viver na sua própria casa? 
A resposta foi prontamente positiva. Pondero com o pai que um pequeno apartamento é menos oneroso do que uma longa internação... E trabalho com a idéia de uma distância mais flexível entre eles. As agressões físicas cessaram.


7.3. Dispersão da suposição de saber

            Trata-se de algo que fica bem evidenciado na prática feita por muitos (pratique à plusieurs) realizada numa instituição[15]. Tal proposta tem alguns pilares. 1) Uma posição de aprendizagem em relação à clínica, o que, como foi visto, inclui uma suposição de saber do lado do psicótico. 2) Uma des-hierarquização do saber prévio, no que se refere ao coletivo institucional. 3) Uma divisão de responsabilidades. 

            Fica implícita uma dispersão da suposição de saber, ou uma diluição que se comporta como estratégia frente à transferência psicótica. 

            Algo dessa natureza pode ser constatado nos serviços da rede de saúde mental, inclusive como um recurso a mais quando o tratamento da psicose conta com uma estrutura coletiva de resposta.


            7.4. Vinculo frouxo

            A foraclusão localizada que caracteriza a psicose produz um achatamento do eixo simbólico e pode produzir um alongamento do eixo imaginário. O que quer dizer que o psicótico tende a compensar o desfalque simbólico com uma hipertrofia do imaginário.

            Na prática clínica há evidências nítidas do que foi dito, como, por exemplo, tendência a funcionar numa relação simétrica, de igual para igual. Tal especularidade pode ter consequências complicadoras, como o desenvolvimento de dualidade imaginária, que, no extremo, pode se converter em rivalidade delirante e mortífera.

            O vínculo frouxo surge, então, como estratégia para enfrentar tal situação. Reduzir a especularidade e dar preferência a encontros breves e não muito próximos uns dos outros. Existem casos em que a estabilização alcançada permite um espaçamento gradativo das sessões, sem que o tratamento perca sua efetividade.

Vinheta. Para ressaltar a importância do vínculo frouxo, Beneti contrapõe a manutenção do tratamento num “vínculo tenso”, representado por sessões longas, frequentes e com um analista pródigo em interpretações: o que, inevitavelmente, leva a passagens ao ato. E cita o exemplo trágico e ruidoso de um analista da IPA de São Paulo, que atendia a uma paranoica recorrendo à “maternagem” (técnica de inspiração kleiniana que procura estabelecer entre o terapeuta e o paciente relação análoga à que existiria entre uma “boa mãe” e o filho). A paciente experimenta alucinações em que seu analista a abraça, a toca, etc., e sente orgasmos ao caminhar pelas ruas. Gozo insuportável, erotomaníaco, mortífero, que tem como saída o assassinato do analista. A paciente vai até o consultório e o mata a tiros de revólver, quando este a recebe ao abrir a porta[16].


            7.5. Trivialização da transferência

            Estratégia que Miller mencionou em Angra dos Reis, numa reunião dos Institutos, em 1999, e que consiste simplesmente em não endossar a tendência de certos psicóticos de fixar-se em seus pontos deliriogênicos, perpetuando-se na sua narrativa delirante. O que se pretende é valorizar aqueles momentos de seu relato em que ele toca na realidade trivial, no dia a dia, na tentativa de trazê-lo para tais temas.

            Sem bem considerada, a trivialização da transferência é algo semelhante ao que propunham os psiquiatras clássicos: evitar o delírio e trazer o alienado à “realidade”.


            7.6. Neotransferência

            A neotransferência é a transferência que se espera no tratamento do psicótico. É a melhor resposta que se tem no momento para a cogitação de Freud sobre um novo plano mais adequado para esses casos, mencionada no início do capítulo anterior.

            Como caracterizar a neotransferência?

            Um primeiro aspecto já ficou marcado: o saber está do lado do psicótico.

            E do lado do analista, o que se espera? 

            Quanto a isso, duas respostas. Embora haja tendência do psicótico a situar-se como objeto, ele pode, em certas situações, tratar o analista como objeto a. Outra possibilidade é o analista como ideal, ou como S1, que põe o psicótico a trabalho, visando a uma produção que tem valor de suplência.

            Finalmente, a neotransferência pode assim ser definida: como a criação e o uso de lalíngua da transferência no tratamento da psicose [17].

A neotransferência é um tear onde se procura tecer o laço social, a matriz de um discurso. Além disso, a clínica tem demonstrado que, frequentemente, o estabelecimento de um vínculo (neo)transferencial possui, por si só, certa função estabilizadora. É uma constatação [18].

Vinhetas. 1) Na Convenção de Antibes alguns casos clínicos evidenciam a passagem de sujeito a objeto. Num dos exemplos, um caso de mutismo, ela se dá quando, a certa altura, o psicótico comenta ironicamente sobre o analista: “El doctor está cachuso” (O doutor está um caco). Noutro exemplo, a passagem se dá quando a menina psicótica insulta o analista: “Pareces uma lebre! Não gosto de vir aqui para te ver! Com teu corte de cabelo pareces uma lebre!” Este nome de animal produzia um equívoco na lalíngua com o nome do terapeuta: “Lelièvre”. Desse modo, o caco ou a lebre indicam o analista na posição de objeto (a)[19].
2) Um paranoico, que faz tratamento psicanalítico há anos, dirige perguntas ao analista nos seguintes termos: —Que dia vai acabar a crise econômica do Brasil? Em qual concurso público eu tenho mais chances? Que dia será descoberta a cura de problema como o meu? Perguntas que são cuidadosamente devolvidas pelo analista. Um dia, ele faltou à sessão (o que é raríssimo) e no dia seguinte sua mãe telefona: —Ele disse que está cansado de tratar-se e que não quer saber mais nem de entrevistas nem de remédios. —Cansado de tratar-se ou cansado do analista?—De jeito nenhum: é Deus no céu e o senhor na terra; é questão de momento e em breve ele voltará. De fato, não demorou muito e o tratamento foi retomado. O episódio evidenciou forte laço transferencial com o analista no lugar de ideal.  
3) Um psicótico em tratamento num CERSAM (CAPS) de Belo Horizonte demonstra, inicialmente, desconfiança e hostilidade em relação à sua analista, que se mantém, não obstante, sua firme decisão de acolhê-lo. Certo dia, o inesperado: diz que a analista parece uma “olanzapina”, medicação antipsicótica que ele faz uso há anos, por ser distante e calada como um remédio silencioso. A partir daí, a análise avança.


8. As bengalas imaginárias

Uma clínica das suplências procura respostas para duas perguntas: (1) Como um sujeito que apresenta uma estrutura psicótica evita o desencadeamento? (2) Uma vez desencadeada uma psicose, de que modo é possível algum tipo de estabilização?

As suplências operam por caminhos que passam pelos três registros: imaginário, simbólico e real.

Na falta de acesso verdadeiro ao simbólico, um dos recursos do psicótico é utilizar o imaginário para a mediação com o real. Em importância, a identificação está para o psicótico assim como a metáfora para o neurótico. As identificações funcionam como bengalas imaginárias, fazendo o sujeito equilibrar-se como um banquinho de três pés [20]

Lacan menciona o mecanismo como se, que Helen Deutsch destacou na sintomatologia de esquizofrênicos, e atribui-lhe valor de compensação imaginária do Édipo ausente; não da imagem paterna, mas do próprio significante do Nome-do-Pai [21].


9. A construção delirante

Quando se considera a suplência pela via do simbólico, é importante assinalar, de início, que na psicose a interpretação está do lado do psicótico, e não deve estar do lado do analista.

Na psicose não há recalque e, como diz Lacan, o inconsciente está a céu aberto. Razão pela qual a interpretação é desnecessária. E como o inconsciente é intérprete, a interpretação fica do lado do psicótico.

Mais do que desnecessária, a interpretação aqui é prejudicial: ao mobilizar aspectos pulsionais, pode desencadear uma psicose até então ordinária ou desestabilizar uma psicose desencadeada.

Em vez de interpretação, construção. 

Freud as diferencia de forma eloquente.  Faz comparação com o arqueólogo, que em suas escavações encontra objetos destruídos, dos quais partes importantes se perderam.  A interpretação se dirigiria ao que emerge do soterramento; a construção procuraria reconstituir o que foi perdido para sempre [22]. Em outras palavras, a interpretação seria uma decifração, visaria o simbólico subjacente à barra do recalque.  Já a construção teria diante de si o indecifrável. Um trecho de Freud torna-se oportuno nesse instante.    

            “Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um tratamento analítico —tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade que estas, sob as condições de uma psicose, não podem mais do que substituir o fragmento de realidade que está sendo rejeitado no presente por outro fragmento que já foi rejeitado no passado... Tal como nossa construção só é eficaz porque recupera um fragmento de experiência perdida, assim também o delírio deve seu poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da realidade rejeitada” [23].  

Vale lembrar novamente que toda solução psicótica pode acontecer sem o concurso de qualquer tratamento, e o que se faz é tentar, com o tratamento, favorecer as saídas que os próprios psicóticos ensinaram à psicanálise.

Assim ocorre também com a construção. O exemplo paradigmático é o de Schreber, que, com sua construção delirante, alcançou relativa estabilização, reconstruindo seu mundo por meio da metáfora delirante “Mulher-de-Deus”.

Não é o analista que escolhe o caminho, mas o psicótico. Não obstante, quando a construção tem lugar, a escuta analítica e algumas pontuações ou comentários podem facilitá-la, contribuindo para amenizar a angústia e moderar o gozo.

A relutância do psicótico em aceitar o tratamento analítico frequentemente é apenas um dado inicial. O que se verifica na maioria das vezes é a dedicada e assídua participação nas sessões, em tratamentos que podem se prolongar e que constituem, por si só, fator de estabilização.


            10. O tratamento do real pelo real

            Há algo comum em todos os casos paradigmáticos de psicose estudados pela psicanálise. Suas soluções são autoconstruidas.

            O primeiro paradigma é Schreber, cuja estabilização foi conseguida pela construção de uma metáfora delirante. 

Serão consideradas, a partir de agora, as suplências que se verificam por meio do tratamento do real pelo real. 

A primeira possibilidade a ser mencionada são casos de passagens ao ato. Para a psiquiatria, delírio, passagem ao ato e sintoma fazem parte da doença. Para a psicanálise, não é necessariamente assim. 

 No caso de Aimée, por exemplo, após uma passagem ao ato ocorreu sua estabilização, que prevaleceu até o fim de sua vida. Aimée foi governanta do pai de Lacan e mãe de Didieu Anzieu, psicanalista analisado por Lacan, que não o reconheceu como filho de sua ex-paciente [24]

Outra maneira de tratar o real pelo real é a obra: dar à luz, ex-nihilo, a partir do nada, a um objeto novo, sem precedentes, objeto que se impõe como real, como produto de uma operação sobre o real do gozo não aprisionado nas redes de linguagem [25]. Entre os numerosos exemplos estão obras pictóricas (Van Gogh), filosóficas (Rousseau), literárias (Hölderlin). No Brasil, o nome mais importante é Artur Bispo do Rosário.

Um caso excepcional é o de Joyce: embora a literatura esteja no registro do simbólico, ele assassina o sentido, passa ao real. Sua obra, quanto a isso, é única. 

Para Lacan, no caso de Joyce, o desencadeamento teria sido evitado pela construção de um sintoma, o que o elevou à dignidade de um paradigma. O sintoma joyceano, enquanto nome de gozo, é mais uma solução autoconstruida, mais uma forma de tratamento do real pelo real. 

Se no primeiro Lacan temos aplicação da psicanálise à psicose, o último Lacan aprendeu tanto com Joyce que se pode falar em aplicação da psicose à psicanálise. E enquanto o primeiro Lacan pergunta: como alguém se torna louco?, o último Lacan indaga: como alguém pode não se tornar louco?

            Para a psiquiatria, a solução está do lado do psiquiatra, do saber da ciência. Para a psicanálise, a solução está do lado do psicótico. Ela aposta no saber do psicótico. O que poderia ser formulado assim: o psicótico sabe o seu caminho.

            O tratamento psicanalítico da psicose inclui, assim, a construção de um sintoma a partir do trabalho com o que ele traz, sintoma capaz de organizar minimamente seu mundo e regular minimamente seu gozo.

Na Conversação de Arcachon Miller afirma que a segunda clínica de Lacan tem uma equação fundamental: NP ≡ Σ. Ou seja, o sinthoma é equivalente ao Nome-do-Pai[26].

Em que consiste o sinthoma joyceano? 

Em primeiro lugar, é um nome. Alusão ao renome que Joyce tanto buscou, escrevendo para “ocupar os críticos durante trezentos anos”, “único meio de assegurar a imortalidade” [27]. Com efeito, Lacan identificou em Joyce uma demissão paterna, uma Verwerfung de fato, e o renome almejado fez a compensação da carência paterna. O nome, ou o sinthoma, constituiu suplência do Nome-do-Pai ausente.

Em segundo lugar, o sinthoma é uma forma de gozar do corpo e do inconsciente. Não há como interpretar, não há como analisar os escritos de Joyce: só se pode captar o gozo de quem o escreveu. Joyce encarna o sinthoma, ele é o sinthoma, nessa pulverização gozosa da língua que marca o corpo e em que o sentido se esfuma [28].

Vinheta. Um psicótico é acolhido num serviço de saúde mental de nossa rede para um tratamento psicanalítico que durou vários anos (citado no item 1.6.3). Em seu curso houve uma mudança crucial que aqui será resumida. Movido pelo empuxo à mulher, o psicótico adotou identificação feminina, inclusive nome feminino. Ao mesmo tempo, com seu novo nome passou a produzir sua obra, obra escrita, escrita na sua lalíngua. Com isso, alcançou estabilização expressiva e mais do que isso: com seu nome de gozo obteve reconhecimento em sua comunidade e construiu interessante laço social. 



Bibliografia sugerida
Leitura resumida:
Miller, J.A. (1996) Produzir o sujeito? In: Matemas I. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 131-160. Belo Horizonte: Itatiaia.
Barreto, F. P. (2010) Transferência e psicose. In: Ensaios de psicanálise e saúde mental, p. 297-304. Belo Horizonte: Scriptum.

Leitura avançada:
Soler, C. (1992) Estudios sobre las psicosis. Buenos Aires: Manantial.
Laurent, E. (1989)  Estabilizaciones en las psicosis. Buenos Aires: Manantial.

NOTAS


[1] Miller, J.-A. (1996) Produzir o sujeito? In: Matemas I, p.156-157. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[2] Miller, J.-A. (1996) Idem, p. 160.

[3] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses (1955-1956), p. 235. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[4] Laurent, E. (1989) Entrevista sobre a apresentação de pacientes. In: Clínica Lacaniana nº 3. São Paulo: UNICOPI, p. 151.

[5] Lacan, J. (1998) De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose (1955-1956). In: Escritos, p. 555. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[6]Zenoni, A. (1995) Tratamento Del Outro. In: Lazos. Hacia uma clínica de lassuplencias, p. 123. Córdoba: Editorial Fundacion Ross.

[7] Soler, C. (1992) ?Que lugar para el analista? In: Estudios sobre laspsicosis, p. 11. Buenos Aires: Manantial.

[8]Miller, J.-A. (2005) Introdução à leitura do Seminário da angústia de Jacques Lacan. In: Opção Lacaniana nº 43, p. 56-57.  São Paulo: Eólia, 7-91, maio de 2005.

[9] Miller, J.-A. (1996)  Mostrado em Prémontré. In:Matemas I, p. 151. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[10]Idem, p. 152.

[11]Idem, p. 154.

[12] Freud, S. (1976) História de uma Neurose Infantil (1914). In: ESB, Vol. XVII. Rio de Janeiro: Imago, p. 166.

[13] Miller, J.-A. (1998) Lições sobre apresentação de doentes (p. 202). In: Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. A conversação de Arcachon. São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.

[14] Barreto, F. P. (2010) Transferência e psicose. In: Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental, p. 301-302. Belo Horizonte: Scriptum.

[15]Zenoni, A. Qual Instituição para o Sujeito Psicótico? In:Abrecampos, Ano 1, Nº 0.  Belo Horizonte: Instituto Raul Soares, 2000, pp. 19-20.

[16] Beneti, A. Sobre o tratamento psicanalítico da psicose. In: Artigos, Vol II, 1996, p. 25-26. Belo Horizonte: Centro de Estudos Galba Velloso.

[17]Miller, J.-A. y otros.(2003) Neotransferencia: Lalengua de latransferenciaenlaspsicosis. In: La psicosis ordinária, p. 132. Buenos Aires: Paidós.

[18] Barreto, F. P. (2010) Op. Cit., p.

[19] Miller, J.-A. y otros. (2003) Op. cit., p. 131-158.

[20] Barreto, F. P. (1999) O tratamento psicanalítico do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 149-150. Belo Horizonte: Itatiaia.

[21] Lacan, J. (1985) O Seminário. Livo 3. As psicoses (1955-1956), p. 220. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

[22] Freud, S. (1975) Construções em Análise (1937).  ESB, Vol. XXIII, p. 295.Rio de Janeiro: Imago.

[23] Freud, S. (1975)  Idem,p. 303.

[24]Roudinesco, E. (1988) História da Psicanálise na França, Volume 2, p. 138-139.  Rio de Janeiro: Jorge ZaharEditor.

[25] Soler, C. (1992) El trabajo de lapsicosis. In: Estudios sobre laspsicosis, p. 18. Buenos Aires: Manantial.
[26]La Conversation d’Arcachon, 1997,  p. 156. Paris: Agalma- Seuil.

[27]Lysy, A. (2005) Joyce e o Nome-do-Pai. In: Scilicet dos Nomes do Pai, p. 87. Rio de Janeiro, Escola Brasileira de Psicanálise, Gráfica Edil.

[28]Idem, p.89.