50 anos que mudaram o mundo

Em meados do século XIX, quando Marx e Engels escrevem o Manifesto do Partido Comunista, o colonialismo europeu está no auge, e a truculência do capitalismo é evidente, tanto no plano nacional (exploração da classe operária) como internacional (espoliação de outros povos). O proletariado é conclamado a ir à luta, como classe revolucionária, para a derrubada do capitalismo.

O que Marx não prevê é que o capitalismo será salvo pela democracia. Com efeito, ela sabe aplacar a índole bravia, com conquistas substanciais para a classe operária, culminando no chamado Estado de Bem-Estar Social —cujo exemplo mais eloquente são os países escandinavos, com seu capitalismo keynesiano. Ali, é onde a humanidade chega mais perto da quimera de uma sociedade sem classes, por meios em nada marxistas.

Em fins do século XX, a situação é tão confortável, que capitalismo e democracia burguesa são considerados coroamento ou “fim da História”.

Enquanto isso, algo acontece na China. Mao Tsé-Tung é o timoneiro de dois grandes desastres: o Grande Salto Adiante, que causa dezenas de milhões de mortes por fome ou execução de proprietários de terras, e a Revolução Cultural, que supervaloriza a cultura chinesa e fecha as portas para toda e qualquer influência ocidental.

Após a morte de Mao, assume Deng Xiaoping, em 1978, que leva adiante a “segunda revolução” chinesa: Reforma e Abertura. Abre as portas para a cultura ocidental e, mais do que isso: abertura para a economia de mercado. Empresas estrangeiras podem se instalar, desde que tenham parceria com empresas chinesas. É o que foi chamado por Deng Xiaoping de “economia de mercado socialista”.

Na época, vigora uma economia globalizada. E já se sabe que o capitalismo é draconiano. Então, é só armar o jogo. No Ocidente, o custo operacional de uma empresa é muito mais alto do que na China, sem contar que lá não existe pressão de sindicatos ou da Justiça. É possível então, transferir a empresa para lá e importar os produtos: mais baratos e com lucro maior. Fórmula que pode ser multiplicada ad infinitum. E assim, milhões de produtos americanos e europeus tornam-se Made in China.

Tudo isso constitui importante fator para vários acontecimentos. Na Europa, o Estado de Bem-Estar Social começa a ruir. No Brasil, verifica-se o maior processo de desindustrialização que o mundo conhece. E, agora, o mais relevante: o pêndulo da hegemonia gira para o Oriente, com o Império Americano em declínio.

Do outro lado do mundo, as consequências são ainda maiores. Em pouco mais de quarenta anos, a China passa de país miserável à maior economia do planeta. E hoje, o operário chinês é bem remunerado, seu salário não mais é causa do preço competitivo do produto chinês. Ironicamente, suas conquistas comprometem o bem-estar do proletariado ocidental.

Outra parte notável da história: indústrias chinesas assimilam tecnologias ocidentais, desenvolvem e aperfeiçoam seus procedimentos, tornam-se autossuficientes. Quando se considera ainda que a China não respeita as patentes que aqui vigoram, pode-se conceber a liberdade que isso gera. Quem acha que produto chinês é barato e de má qualidade, acorde: a China já compete com folga com produtos de melhor qualidade no mercado.

E se a China já não é a maior potência, é questão de tempo.

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