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	<title>Psicanálise: Clínica | Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
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		<title>O casamento da histérica com o obsessivo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 13:45:38 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[O casamento da histérica com o obsessivo[1]   As estruturas clínicas A clínica lacaniana organizou-se em três estruturas que se constituíram a partir do legado freudiano: neurose, perversão e psicose. <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-casamento-da-histerica-com-o-obsessivo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O casamento da histérica com o obsessivo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O casamento da histérica com o obsessivo<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a></strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>As estruturas clínicas</strong></p>
<p>A clínica lacaniana organizou-se em três estruturas que se constituíram a partir do legado freudiano: neurose, perversão e psicose. O que fundamenta a distinção é a operação estruturante específica de cada uma. No caso da neurose, foi bem definida por Freud: o recalque <em>(Verdrängung). </em>Um dos méritos de Lacan foi o de reconhecer a operação própria da psicose, a forclusão <em>(Verwerfung), </em>bem como a da perversão, o desmentido <em>(Verleugnung).</em> De que se trata, em última análise?</p>
<p>Para expor a questão de forma sumária, é preciso trabalhar, pelo menos, três termos: Sujeito, Outro e Castração.</p>
<p>O que é o Outro, em Lacan? Numa primeira abordagem, o Outro é a estrutura da linguagem, é a cadeia significante, é a ordem simbólica, que opera por mecanismos próprios (metáfora e metonímia). A linguagem diferencia radicalmente o reino humano do reino animal. Mais que diferenciar, o ingresso na linguagem marcou uma ruptura entre o universo humano e o universo animal. O humano tornou-se, por excelência, universo do discurso, onde se incluem as expressões sociais e culturais. O Outro, ou a ordem simbólica, ou a ordem da linguagem, por conseguinte, é a matriz do que é genuinamente humano.</p>
<p>Ao Outro, a psicanálise opõe o Sujeito. Se o Outro é ordem, é matriz, é estrutura, o Sujeito é único, é efeito, é singularidade. O Outro ou a ordem simbólica antecede o Sujeito. Ou seja: antes do Sujeito nascer, condicionado por um corpo biológico, o Outro já estava aí. Da mesma forma, o Outro persiste depois que o Sujeito deixa de existir. Ou quando se restringe a um nome, anunciado por: <em>aqui jaz.</em></p>
<p>Para a psicanálise, a constituição do Sujeito é algo complexo, que começa, na melhor das hipóteses, pelo desejo dos pais. Mais adiante, ficará também a cargo dos pais a mediação, para o filho, do que diz respeito à ordem simbólica: pode-se, então, falar de Outro paterno, ou de Outro materno. Muito se enfatiza, nos dias de hoje, a hereditariedade ou herança, mas esses termos ficam reduzidos ao que é da ordem da biologia, ou da genética. A psicanálise, porém, leva em consideração a herança simbólica. Algo que passa dos pais para os filhos, mas em outro nível. Qual seria a essência dessa herança simbólica? Dizendo rapidamente algo que não é simples, trata-se de um significante que é capaz de organizar o mundo do Sujeito e de representá-lo. Representá-lo para quem? Para o Outro.</p>
<p>Numa segunda abordagem, portanto, O Outro pode ser definido como a ordem simbólica tal como é apreendida pelo Sujeito. O Outro é o Outro do Sujeito, que pode encontrar várias encarnações possíveis: o pai, a mãe, o médico, o professor, o juiz, o delegado, o prefeito, o padre, etc., etc.</p>
<p>Disse, há pouco, que na herança simbólica há um significante-chave. Lacan designou-o como o significante do Nome-do-Pai. Fazendo um paralelo, eu diria que o Nome-do-Pai é o DNA da herança simbólica. Por outro lado, as três estruturas clínicas já mencionadas dependem exatamente das vicissitudes da herança simbólica, isto é, de como ocorreu a inscrição do significante do Nome-do-Pai.</p>
<p>O Nome-do-Pai é, exatamente, o significante que opera a castração. A inscrição do Nome-do-Pai no Outro do Sujeito é condição necessária para a inscrição da castração.</p>
<p>Lacan afirma que “O estado do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que se desenrola no Outro A”.<a href="#_edn2" name="_ednref2">[2]</a></p>
<p>Dizendo mais claramente de que se trata: na psicose, não há inscrição do Nome-do-Pai no Outro, ou o Outro não é castrado. Poderia ainda ser dito que o psicótico, inconscientemente, não admite a castração materna. Na psicose o grande A não é barrado. O que se chama de forclusão, portanto, é a exclusão fundamental do significante paterno, e consequentemente, da inscrição da castração.</p>
<p>E na neurose? Nesse caso, há a inscrição do significante paterno no Outro do Sujeito, que se mostra barrado: A/. O neurótico, por conseguinte, tem registro da castração materna. É o que se passa no plano simbólico. No plano imaginário, porém, o neurótico acredita na completude do Outro, acredita na existência da proporção sexual, e nega, desse modo, a castração. O resultado é uma vacilação entre A barrado e A não barrado, entre A e A/. Ou seja: enquanto na psicose há uma certeza, na neurose há uma vacilação.</p>
<p>E na perversão? Aqui, existe a inscrição do significante paterno e da castração, mas, por outro lado, verifica-se a coexistência de duas posições diametralmente opostas. A castração é, ao mesmo tempo, admitida e negada. O perverso administra, sem conflito, a concepção do Outro barrado, A/, ao lado da concepção do Outro não barrado, A. É o que se chama de <em>desmentido.</em></p>
<p><em> </em></p>
<p><em> </em></p>
<table>
<tbody>
<tr>
<td colspan="3" width="599"><strong> </strong></p>
<p><strong>CLÍNICA LACANIANA</strong></p>
<p><strong> </strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="199">ESTRUTURAS</p>
<p>CLÍNICAS</td>
<td width="200">OPERAÇÕES ESTRUTURANTES</td>
<td width="200">GRANDE</p>
<p>OUTRO</td>
</tr>
<tr>
<td width="199">&nbsp;</p>
<p>Neurose</p>
<p>&nbsp;</td>
<td width="200">Recalque (<em>Verdrängung)</em></td>
<td width="200"><strong> </strong><strong>A </strong>ou <strong>A</strong>/?</td>
</tr>
<tr>
<td width="199">&nbsp;</p>
<p>Perversão</p>
<p>&nbsp;</td>
<td width="200">Desmentido <em>(Verleugnung)</em></td>
<td width="200"><strong> </strong><strong>A </strong>e <strong>A/</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="199">&nbsp;</p>
<p>Psicose</p>
<p>&nbsp;</td>
<td width="200">Forclusão <em>(Verwerfung)</em></td>
<td width="200"><strong> </strong><strong>A</strong></td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A histérica e o obsessivo</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>As três estruturas clínicas apresentam diferentes tipos clínicos. Para o que é do nosso interesse, hoje, ficarei restrito aos dois principais tipos clínicos de neurose: a histeria e a obsessão.</p>
<p>Darei, logo de início, duas mini-definições, a partir do que foi colocado. Como foi dito, a neurose pode ser definida como vacilação entre A e A/,<a href="#_edn3" name="_ednref3">[3]</a> entre Outro castrado e não castrado, ou incompleto e completo, ou inconsistente e consistente. A histeria como tipo clínico, por sua vez, pode ser definida como fuga da vacilação pela exacerbação da falta, enquanto que a obsessão seria a fuga da vacilação pela obliteração da falta. É um começo de abordagem da nossa questão.</p>
<p>Com base nesses termos, o casamento da histérica com o obsessivo evoca o casamento da chave com a fechadura, que faz acreditar na existência da proporção entre os sexos, na complementação de um pelo outro. Eis aí o apelo imaginário que sustenta a união. Mas eis aí, também, o logro ou o engano que faz a tormenta do casal. Pois a ânsia de obturar do obsessivo só tem paralelo na ânsia de esburacar da histérica.</p>
<p>Como é que cada Sujeito trata o Outro? O sujeito da histeria é atraído pelo amor à figura do Mestre, pelo amor ao seu saber, tal como mariposa atraída pela lâmpada. Sua intenção, num primeiro momento, é a de reconhecê-lo, mas, num segundo momento, é a de destitui-lo, ou destrui-lo, ao apontar-lhe a falta. É a paciente que “prova” que o grande médico não consegue curá-la, é a aluna que descobre o que o sábio professor desconhece, é o infrator que dá um nó no policial famoso.</p>
<p>O sujeito da obsessão, por seu turno, visa de imediato à destruição do Outro na constituição de seu desejo. Trata-se de uma destruição articulada no nível do significante. Isso, num primeiro momento. O problema é que, a destruição do Outro, nesses termos, resulta na destruição do próprio Sujeito, pois se trata do Sujeito da fala. Como consequência, o obsessivo, num segundo momento, visa à restauração amorosa do Outro&#8230; O que era ódio converte-se em servidão. Tudo para o Outro&#8230; na tentativa de reparar o dano causado.<a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a></p>
<p>Pode-se ver, por aí, que o Sujeito, da histérica, é o Outro, do obsessivo, e vice-versa. Razão pela qual o casamento da histérica com o obsessivo tem tudo para dar certo, e tudo para dar errado.</p>
<p>As coisas não ficam por aí. É preciso considerar, por exemplo, a questão do objeto, a questão do desejo.</p>
<p>Quanto a isso, qual a posição da histérica? Classicamente, ela se apresenta como sedutora, ou como objeto de desejo. Todavia, há algo de particular nesse oferecimento; ela recua, ou se retrai, quando o conquistador se aproxima. Ela se mostra como objeto que se furta.</p>
<p>E qual a posição subjetiva do obsessivo em relação à questão do desejo? Para ele, o objeto de desejo é imaginariamente sustentado pela proibição do Outro. O suplício do obsessivo, então, é este: o desejo desaparece quando o objeto a ele se entrega.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Também quanto a esse aspecto podem ser captadas a bodas da histérica e do obsessivo. Falei de amor. Em seguida, falei de desejo. Agora, falarei de gozo.</p>
<p>Quanto ao sujeito da histeria, é bem conhecida a fórmula segundo a qual a histérica tem desejo de desejo insatisfeito. Satisfazer o desejo é matar o desejo; sendo assim, insatisfazê-lo é elevá-lo à sua plenitude. Nada de gozo! A histérica quer desejar, a histérica não quer gozar.</p>
<p>E o obsessivo? Ora, se o obsessivo anula o Outro, ele destitui o parceiro como sujeito, ele o reduz à condição de objeto, objeto de seu gozo. A histérica ocupa a posição de objeto com facilidade, de objeto pequeno <em>a, </em>e nesse aspecto ela favorece a parceria amorosa com o obsessivo. Por outro lado, o encontro do desejo impossível de um com o desejo insatisfeito da outra é um complicador previsível.</p>
<p>Para concluir: a parceria amorosa da histérica com o obsessivo é de tal ordem que os aspectos determinantes da aproximação são exatamente os mesmos que perturbam o casamento. Dizer que tem tudo para dar certo é tão procedente como afirmar que tem tudo para dar errado. Mais uma vez, não há regras, não há garantias e não há como se guiar por valores universais. As estruturas e os tipos clínicos são generalizações, são abordagens universalizadoras. Numa experiência psicanalítica, cada parceria, cada sujeito terá uma história e um desfecho que serão da ordem da singularidade, e não há estatística possível quando o caso é único.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<table>
<tbody>
<tr>
<td width="288"><strong> </strong></p>
<p><strong>HISTERIA</strong></p>
<p>&nbsp;</td>
<td width="288"><strong> </strong><strong>OBSESSÃO</strong></td>
</tr>
<tr>
<td width="288">Fuga da vacilação</p>
<p>pela exacerbação da falta</td>
<td width="288">Fuga da vacilação</p>
<p>pela obliteração da falta</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">O sujeito corteja o Mestre</p>
<p>para em seguida destitui-lo</td>
<td width="288">O sujeito destroi o Outro</p>
<p>para em seguida reconstitui-lo</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">Enquanto objeto de desejo</p>
<p>seduz e depois se furta</td>
<td width="288">Quando o objeto se oferece</p>
<p>o desejo se retrai</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">A histérica quer desejar</p>
<p>não quer gozar</td>
<td width="288">O obsessivo quer gozar</p>
<p>sem vigor de desejo</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">O sintoma é metafórico:</p>
<p>dois num só tempo</td>
<td width="288">O sintoma é metonímico:</p>
<p>um em cada tempo</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">Problematização do feminino:</p>
<p>O que é uma mulher?</td>
<td width="288">Problematização do masculino:</p>
<p>O que é um pai?</td>
</tr>
<tr>
<td width="288">O sujeito da histérica</p>
<p>é o Outro do obsessivo</td>
<td width="288">O sujeito do obsessivo</p>
<p>é o Outro da histérica</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Fragmento clínico</strong></p>
<p>Sou procurado para análise por um senhor de meia idade. O que trarei em seguida é uma montagem, uma reunião de diferentes momentos, à maneira de um <em>potpourri.</em></p>
<p><em>—“Sou de família paupérrima. Meu pai era carpinteiro e alcoólatra, minha mãe lavadeira, morávamos numa favela. A duras penas consegui me formar num curso superior. Sou bem sucedido na profissão, sou casado, tenho três filhos. Já fiz cinco anos de análise, que não resolveram nada, decidi então mudar de analista. Tenho um único problema na vida: sou totalmente frustrado na minha vida sexual, e isso perturba a minha vida como um todo.”</em></p>
<p>—Como assim?</p>
<p><em>—“Sou apaixonado por minha mulher, que, além do mais, desperta em mim uma grande atração sexual. Sou correspondido no meu amor; afinal somos casados há longos anos, não posso dizer que ela não gosta de mim. Mas, do ponto de vista estritamente sexual, minha vida é uma desgraça. Eu penso nela o dia inteiro, sonho com ela, masturbo-me com ela, e ela está do meu lado na cama, dorme comigo&#8230;”</em></p>
<p>—Ela dorme com você?</p>
<p><em>—“Literalmente. Não é que a gente não transe. A gente transa, sim. Mas, é muito pouco. Quando a gente transa, é uma verdadeira maravilha. Eu durmo feliz, fico uma semana alegre, de tão bom que é.”</em></p>
<p>—Então, você não é totalmente frustrado.</p>
<p><em>—“Acontece que, de tão bom que é, eu fico querendo mais. E sabe o que acontece? Passa uma semana, nada. Passam duas semanas, nada. Às vezes, chega a passar um mês! Demora tanto que algumas vezes, quando ela cedeu, eu brochei. E não adianta eu insistir, porque senão dá briga e até ameaça de separação. Eu tenho que ficar quieto no meu canto aguardando o sinal.”</em></p>
<p>—Sinal?</p>
<p><em>—“É&#8230; a gente percebe quando ela quer&#8230; depois de tanto tempo juntos&#8230; são pequenos sinais de receptividade&#8230;”</em></p>
<p>—É um casamento e tanto.</p>
<p><em>—“De maneira alguma. O senhor diz isso porque não avalia corretamente o meu sofrimento. Sou muito aceso, sexualmente. É tão difícil suportar a longa abstinência que uma colega de trabalho, a quem confessei meu drama, sugeriu-me pular a cerca. Durante muito tempo pensei nisso, bolei mil planos, mas nada foi pra frente.”</em></p>
<p>—Não é a mesma coisa.</p>
<p><em>—“Não, não é. E tem mais: suspeitei que a minha colega de trabalho disse isso porque gostaria que eu pulasse a cerca&#8230; com ela. Ela é casada, mas não é castrada&#8230; Eu é que me sinto assim: casado e castrado.” </em></p>
<p>—Mas&#8230; O que você faz, para namorar a sua mulher?</p>
<p><em>—“O que eu faço? Como assim? Afinal, já somos casados! E o que é pior: há tantos e tantos anos, que nem sei se ainda dá tempo de recomeçar.”</em></p>
<p>—Tempo de reconquistá-la.</p>
<p><em>—“Não, não há mais tempo.”</em></p>
<p>—Nunca é tarde.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>NOTAS</strong></p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Publicado em PUC MINAS: PSICOLOGIA EM REVISTA, v.17, n. 3, 2011. file:///C:/Users/Francisco/Downloads/3317-13529-2-PB.pdf</p>
<p>e no livro <em>O bem-estar na civilização,</em> CRV, 2016.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> LACAN, J. (1985) <em>O Seminário. Livro 3: As psicoses. </em>(1955-1956). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.<em>  </em></p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3">[3]</a> SOLER, C. <em>Fines Del Analisis. </em><em>Historia y Teoria. In: Finales de Analisis. </em>Buenos Aires: Manantial, p. 29.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> TEIXEIRA, A. M. R. <em>As bodas sintomáticas do obsessivo com a histérica. In: Agora: Estudos em Teoria Psicanalítica, vol. 13 nº 1. </em>Rio de Janeiro: Agora, jan/jun 2010.</p>
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		<title>Transferência e psicose</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/transferencia-e-psicose/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 12:41:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Introdução   Em 1938, num de seus últimos escritos, Freud assim se manifesta: “Descobrimos que temos de renunciar à idéia de experimentar nosso plano de cura com os psicóticos <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/transferencia-e-psicose/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Transferência e psicose</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>Introdução</strong></h3>
<p><strong> </strong></p>
<p>Em 1938, num de seus últimos escritos, Freud assim se manifesta: “Descobrimos que temos de renunciar à idéia de experimentar nosso plano de cura com os psicóticos ––renunciar a ele para sempre ou talvez apenas por enquanto, até que tenhamos encontrado um outro plano que se lhes adapte melhor”.<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a> Que “outro plano” seria este?</p>
<p>Antes de tentar responder, é importante situar as razões que determinaram a oposição à psicanálise de psicóticos. Como se sabe, a transferência, vista inicialmente como empecilho, caminhou para tornar-se o principal fundamento da experiência analítica. Freud, no seu texto sobre o narcisismo, opôs a “neurose narcísica” à “neurose de transferência”. Esta última seria caracterizada pela libido objetal, e incluiria a histeria e a neurose obsessiva. A primeira seria caracterizada pela retração da libido sobre o ego; as neuroses narcísicas seriam equivalentes às psicoses.<a href="#_edn2" name="_ednref2">[2]</a> Dada a impossibilidade de transferência libidinal, os psicóticos seriam, então, inacessíveis ao método psicanalítico.</p>
<p>Incapaz do amor de transferência, portanto, pois não consegue chamar para si o enunciado declarativo “eu te amo”, o psicótico só pode sustentar o amor a partir do exterior: “ela me ama” (erotomania), “ela o ama” (delírio de ciúme) ou “ele me odeia” (delírio de perseguição, com transformação do amor em ódio). Restaria para o sujeito, apenas, o “eu me amo” (megalomania).</p>
<p>Com Lacan, as mudanças começam a surgir. Primeiramente, não mais se fala de impossibilidade, mas de <em>tratamento possível</em> da psicose. E mais tarde, formulou-se o célebre ditame ético: “Um analista não deve recuar diante da psicose”.<a href="#_edn3" name="_ednref3">[3]</a> Mudanças que não contrariam Freud: de fato, o tratamento psicanalítico do psicótico só se tornou possível a partir de um <em>outro plano</em>, ou de outras coordenadas para a sua direção.</p>
<p>Considere-se, de início, a proposição lacaniana segundo a qual a transferência se situa na relação com o saber. Mais precisamente: a mola mestra da transferência é o sujeito suposto saber. Não me deterei neste ponto; assinalarei, apenas, que não se trata de um saber qualquer, mas de um saber sobre o inconsciente. Isso se passa na neurose. Cabe, então, a pergunta: e na psicose, como fica tal relação? Miller, a este respeito, é bem claro: “O paranóico só conhece o saber. Sua relação com o saber constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia pelo mundo, um saber que se faz mundo?”<a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a> Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber, ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.</p>
<p>Em outras palavras, a transferência psicótica também se situa na relação com o saber, mas está marcada não por uma suposição, mas por uma certeza. Além disso, o Outro do saber coincide com o Outro do gozo. Lacan não discorda de Freud, mas formula a questão em outros termos. Na neurose, verifica-se que o vetor da transferência vai do sujeito analisante ao Outro analista, enquanto que o vetor da interpretação vai do Outro ao sujeito.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>NEUROSE:         <strong> Sujeito </strong>          transferência&gt;          &lt;interpretação          <strong>Outro  </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ou seja, a transferência, positiva ou negativa (amor ou ódio), está do lado do sujeito, enquanto que a interpretação está do lado do analista. E o que visa à interpretação psicanalítica do neurótico?  Respondendo de modo sucinto, pode-se dizer: (1) Num primeiro tempo, correlativo da entrada na análise, ela visa ao surgimento da significação fálica, sexual, de natureza edípica, latente no discurso do analisante em função da barra do recalque. (2) Num segundo tempo, correlativo do final de análise, ela visa ao esgotamento, ao apagamento da significação, com a emergência da referência assexuada do objeto <em>(a)</em>.<a href="#_edn5" name="_ednref5">[5]</a></p>
<p>Na psicose, porém, tudo se passa de modo radicalmente diverso. Sabe-se, por exemplo, que a interpretação psicanalítica pode desencadear uma psicose, por fazer apelo ao ponto de forclusão. Além disso, numa psicose manifesta, é preciso considerar certas diferenças essenciais. Nos casos mais graves, o vetor da transferência retorna autisticamente sobre o sujeito. Quando o Outro é subjetivado, como na paranóia, a certeza psicótica supõe o vetor da transferência procedendo do Outro até o sujeito (é o caso tanto da erotomania como da perseguição).  Há, aqui, a situação do sujeito como objeto da vontade de gozo do Outro.  Quanto à interpretação, tomando-se o exemplo de Schreber, vê-se que quem interpreta é ele, ao passo que Deus é quem fala, quem oferece à interpretação as mensagens das vozes ou os signos do real.  O vetor da interpretação é que vai do sujeito ao Outro.<a href="#_edn6" name="_ednref6">[6]</a> No tratamento psicanalítico do psicótico, portanto, não há lugar para interpretação do lado do analista; a interpretação, quando existe, está do lado do psicótico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>PSICOSE:          <strong>Sujeito         </strong> &lt;transferência          interpretação&gt;          <strong>Outro</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> </strong></p>
<h3><strong>Estratégias para a transferência psicótica</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p>Há outro aspecto muito importante a ser considerado, e que tem a ver com a direção do tratamento. Ao contrário da transferência neurótica, a transferência psicótica é, sempre, um obstáculo intransponível para o trabalho analítico. Deve ser evitada a todo custo. Com que meios se conta para tal empresa? No âmbito do presente trabalho, três possibilidades serão consideradas: a inversão da suposição de saber, a dispersão da suposição de saber e a manobra da transferência.</p>
<p>A <em>inversão da suposição de saber</em> é um princípio que ganha força a partir da segunda clínica de Lacan. Enquanto que a primeira clínica tenta examinar a psicose a partir da neurose (paradigma: Schreber), a segunda clínica caminha da psicose para a neurose (paradigma: Joyce). Reviravolta que tem implicações teóricas e clínicas, passando-se da aplicação da psicanálise à psicose à aplicação da psicose à psicanálise. Em poucas palavras: é a psicose que nos ensina. Ensina-nos sobre a estrutura e sobre as soluções que ela própria encontra para uma falta central no simbólico.</p>
<p>A inversão da suposição de saber é uma conseqüência dessa evolução, que poderia ser formulada nos seguintes termos: o psicótico sabe o seu caminho. O que nos coloca em posição de aprendizagem em relação à clínica, em posição de sujeito suposto não saber. Propõe-se, com isso, levar ao limite o que se conhece desde os tempos de Freud: que o psicótico sabe encontrar as suas soluções, que o seu caminho é autoconstruído. Posição que está de acordo, também, com o que, há muito, se verifica na prática clínica.</p>
<p>Ora, se o saber está do lado do psicótico, não há lugar, no tratamento, do lado do analista, para nenhuma tentativa de envio a outro sentido, nenhum deciframento ou interpretação. A interpretação está do lado do psicótico, e a posição de aprendizado é que pode, no tratamento, permitir ao analista escutar as indicações que o psicótico traz para o seu caso.</p>
<p>A <em>dispersão da suposição de saber</em> é uma constatação do <em>trabalho feito por muitos (pratique à plusieurs) </em>numa instituição. O tratamento da psicose não exige automaticamente uma estrutura coletiva de resposta, mas, sem dúvida, para muitos casos, isso se torna preferível. A proposta do trabalho feito por muitos inclui uma posição de aprendizagem em relação à clínica e uma desierarquização do saber prévio, o que acarreta uma divisão de responsabilidades. No contexto, a dispersão do saber suposto que está implicada nesse tipo de trabalho reforça a inversão da suposição de saber de quem está numa posição de aprendizagem.<a href="#_edn7" name="_ednref7">[7]</a></p>
<p>Lacan referiu-se à <em>manobra da transferência</em> uma única vez, na <em>Questão Preliminar; </em>mesmo assim, sem dar indicações sobre o assunto. É com dificuldades que se tenta formalizar algo a respeito. A manobra da transferência seria um modo do analista lidar com a transferência psicótica. Consiste em sair do lugar persecutório ou erotomaníaco em que o psicótico o coloca, buscando um lugar vazio de gozo. Trarei um fragmento clínico privilegiado: uma manobra da transferência realizada pelo próprio Lacan!</p>
<p>Trata-se de entrevista conduzida por Jacques Lacan, com um paciente psiquiátrico hospitalizado, um paranóico, diante de grupo de psiquiatras e psicanalistas. É importante assinalar que o paciente —que teve seu nome alterado por Jacques-Alain Miller para Gérard Primeau— tinha Lacan em alta conta, motivo pelo qual concordou em conversar com ele. Ou seja, a transferência estava lá. Vamos ao fragmento que nos interessa e que ocorreu pouco após o início da apresentação.</p>
<p>“<em>Dr. Lacan – </em>Sim. Então vamos conversar mais especificamente, se você quiser, sobre as sentenças emergentes (falas impostas). Desde quando elas emergiram? Esta não é uma questão idiota (&#8230;)</p>
<p><em>            G. Primeau – </em>Não, não. Desde que (&#8230;) fui diagnosticado como tendo crises paranoicas em março de 1974.</p>
<p><em>Dr. Lacan – </em>Quem disse isto?</p>
<p><em>            G. Primeau – </em>Um médico àquela época. Essas sentenças emergentes&#8230;”</p>
<p>Nesse momento, Lacan observa que o paciente está olhando de modo desconfiado para uma pessoa da platéia. Não perde tempo.</p>
<p>“<em>Dr. Lacan – </em>Por que você se volta para este homem aquí?</p>
<p><em>             G. Primeau – </em>Senti que ele estava zombando de mim.</p>
<p><em>Dr. Lacan – </em>Você sentiu uma presença zombadora? Ele não está em seu campo de visão.</p>
<p><em>             G. Primeau – </em>Estava ouvindo um som e senti (&#8230;)”</p>
<p>Lacan confirma, assim, a atribuição persecutória. O que ele diz, em seguida, é o que pode ser caracterizado como manobra da transferência.</p>
<p>“<em>Dr. Lacan – </em>Ele certamente não está brincando com você. Conheço-o bem e ele seguramente não está brincando com você. Ao contrário está muito interessado. Foi por esta razão que fez barulho.</p>
<p><em>             G. Primeau – </em>A impressão de sua compreensão intelectual (&#8230;)</p>
<p><em>Dr. Lacan – </em>Sim, penso assim, isto é mais como ele é. Eu lhe disse que o conheço. Além disto, conheço todas as pessoas que estão aqui. Elas não estariam aqui, se não tivesse total confiança nelas. Bem, continue”.<a href="#_edn8" name="_ednref8">[8]</a></p>
<p>E o paciente continuou até o fim uma longa entrevista. A manobra da transferência muito provavelmente evitou a eclosão de uma crise persecutória.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A neotransferência</strong></p>
<p>Isso quer dizer que, no tratamento psicanalítico do psicótico, a transferência não deve ter lugar? Não é exatamente assim. A transferência que não deve ter lugar é aquela que se situa em relação ao saber. No entanto, o tratamento psicanalítico do psicótico, sim, ele se faz sob transferência, que se situa em outros termos. É o que, a partir da <em>Convenção de Antibes</em> (1998), vem sendo chamado de <em>neotransferência.</em></p>
<p>Se não é o lugar do saber (S<sub>2</sub>), que lugar deve o analista ocupar? Questão que exige uma digressão.</p>
<p>Conforme foi dito, o saber inconsciente está do lado do psicótico. E mais: o psicótico tende a ocupar o lugar de objeto, dividindo o analista (ou a equipe de tratamento). O que pode ser escrito pelo seguinte matema.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><u> <strong>  a   </strong></u><strong>  &gt; $</strong></p>
<p><strong>   S<sub>2</sub></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Ora, fica claro que o psicótico rivaliza com o analista, ou tende a ocupar o mesmo lugar que seria do analista. Esta é uma das dificuldades do tratamento. Não se acede à posição de analista senão a partir de uma destituição do sujeito, algo que deve ser renovado a cada vez. Na <em>Convenção de Antibes</em> alguns casos clínicos evidenciam a passagem de sujeito a objeto. Num dos exemplos, um caso de mutismo, ela se dá quando, a certa altura, o psicótico comenta ironicamente sobre o analista: “El doctor está cachuso” <em>(O doutor está um caco). </em>Noutro exemplo, a passagem se dá quando a menina psicótica insulta o analista: “Pareces uma lebre! Não gosto de vir aqui para te ver! Com teu corte de cabelo pareces uma lebre!” Este nome de animal produzia um equívoco na lalíngua com o nome do terapeuta: “Lelièvre”. Desse modo, o <em>caco</em> ou a <em>lebre</em> indicam o analista na posição de objeto (<em>a).<a href="#_edn9" name="_ednref9"><strong>[9]</strong></a></em></p>
<p>A neotransferência comporta uma outra possibilidade: o analista, ou mesmo a instituição, no lugar do ideal, ou como S<sub>1</sub>. S<sub>1</sub> este que põe o psicótico a trabalho, visando a uma produção, que pode ter valor de suplência.</p>
<p>A neotransferência é um tear onde se procura tecer o laço social, a matriz de um discurso. Além disso, a clínica tem demonstrado que, freqüentemente, o estabelecimento de um vínculo (neo)transferencial possui, por si só, certa função estabilizadora. É uma constatação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>REFERÊNCIAS</p>
<p>Publicado no livro <em>Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental,</em> Scriptum, 2010.</p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Freud, S. (1975) Esboço de Psicanálise (1938).  ESB, Vol. XXIII.  Rio de Janeiro: Imago, p. 200.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> Freud, S. (1974) Introdução ao narcisismo (1914). In: ESB, Vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, pp. 89-119.</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3">[3]</a> LACAN, J.  Ouverture de la Section Clinique.  In:  Ornicar?  Paris:  9: 7-14, avril 1977, p. 12.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> Miller, J.-A. (1998) Lições sobre apresentação de doentes (p. 202). In:<em> Os casos raros, inclassificáveis, da clínica psicanalítica. A conversação de Arcachon. </em>São Paulo: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1998.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5">[5]</a> MILLER, J.-A. Acerca de las interpretaciones.  In:  Escansión. <strong>  </strong>Buenos aires:  Paidos, junho de 1984, p. 169-171.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6">[6]</a> SOLER, C. (1992) Estudios sobre las psicosis<strong>.  </strong>Buenos Aires: Manantial, pp. 49-50.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7">[7]</a> Zenoni, A. Qual Instituição para o Sujeito Psicótico? In:<em> Abrecampos, Ano 1, Nº 0.  </em>Belo Horizonte: Instituto Raul Soares, 2000, pp. 19-20.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8">[8]</a> Lacan, J. Uma psicose lacaniana: entrevista conduzida por Jacques Lacan<em> (p. 6). In: Opção Lacaniana, nº 26/27. </em>São Paulo: Edições Eólia, abril de 2000.</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9">[9]</a> Miller, J.-A. y otros. (2003) Neotransferencia: Lalengua de la transferencia en las psicosis. In: La psicosis ordinária. Buenos Aires: Paidós, pp. 131-158.</p>
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		<title>A responsabilidade do toxicômano</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 12:15:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[  A responsabilidade do toxicômano[1] &#160; Introdução &#160; Desde a Grécia Clássica, duas questões fundamentais cercam o uso de drogas e aguçam as discussões sobre o tema. A primeira concerne <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-responsabilidade-do-toxicomano/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A responsabilidade do toxicômano</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<h1><strong>A responsabilidade do toxicômano<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a></strong></h1>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>Introdução</strong></h3>
<p>&nbsp;</p>
<p>Desde a Grécia Clássica, duas questões fundamentais cercam o uso de drogas e aguçam as discussões sobre o tema.</p>
<p>A primeira concerne à natureza da substância consumida. Trata-se de um remédio ou de um veneno? A palavra grega <em>pharmakon </em>significa tanto uma coisa como outra. Polissemia que se repete na própria palavra da língua portuguesa, <strong>droga</strong><em>.</em></p>
<p><em>            </em>Questão intrincada, só no século XVI é resolvida pela fórmula de Paracelso que pode ser considerada um princípio fundamental da farmacologia: <em>“</em>O veneno é a dose”<a href="#_edn2" name="_ednref2">[2]</a>.</p>
<p>Outro dilema incita os gregos: o problema é o vinho ou quem o consome?</p>
<p>Penteu, rei de Tebas, proíbe severamente o uso de vinho, procura encarcerar todas as mulheres que caem sob seu efeito e tenta capturar o deus Baco. Tirésias aconselha Penteu a não se opor a um deus; se um deus traz vinho, é preciso acreditar nele.</p>
<p>A posição de Platão é mais elaborada. No diálogo “<em>As Leis</em>”, propõe que se proíba aos jovens provar o vinho até a idade de 18 anos. Até os 30 anos a lei prescreve que o homem prove o vinho com moderação. E após os 40 a lei permitirá nos banquetes invocar todos os deuses, como remédio para o rigor da velhice<a href="#_edn3" name="_ednref3">[3]</a>.</p>
<p>Com um giro de mais de 2000 anos a pergunta se reapresenta. O problema é a droga ou quem a consome? Cumpre considerar, ainda que de forma sucinta, algumas respostas que a cultura atual oferece.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>O problema é a droga</strong></h3>
<p>Uma primeira resposta: <em>o problema é a droga.</em> Perspectiva que constrói, no mundo inteiro, prodigioso aparelho de repressão, com altíssimo custo em termos de dinheiro, atores, vidas, instituições. O combate ao narcotráfico, com todo esse dispêndio, apresenta os resultados que são do conhecimento de todos e que talvez possam ser resumidos com uma anedota de que Freud tanto gosta.</p>
<p>Um agente de seguros ateu está à morte. A família convoca um padre para uma última tentativa. Os dois se fecham no quarto e mantêm longa conversa. Ao sair, a família interpela o padre. Ele nada conseguiu, mas foi convencido a comprar uma apólice de seguros <a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a>.</p>
<p>Com efeito, o narcotráfico tem se revelado uma Hidra de Lerna: dragão mitológico com sete cabeças de serpente e hálito mortal; quando se corta uma cabeça, duas nascem em seu lugar. E o insucesso do combate ao tráfico não se deve à ineficácia do aparelho repressivo, mas à falsa premissa que o sustenta.</p>
<p>Um perito da Unidade de Inteligência Criminal da<em> Scotland Yard</em> apresenta 10 razões para a legalização das drogas, que devem ser atentamente examinadas:</p>
<ol>
<li><strong>Enfrentar os reais problemas</strong>. A proibição é cortina de fumaça para mascarar fatores sociais e econômicos que levam pessoas a usar drogas. A maior parte do uso ilegal é recreacional, sendo que a pobreza e o desespero estão na raiz do uso problemático da droga.</li>
<li><strong>Eliminar o mercado do tráfico.</strong> O mercado de drogas, atualmente, representa a demanda de milhões de pessoas com lucros de muitos bilhões de dólares. A proibição cria um vazio preenchido pelo crime organizado e pelo comércio desregulado.</li>
<li><strong>Reduzir drasticamente o crime</strong>. A proibição eleva consideravelmente o preço da droga, motivo pelo qual usuários dependentes recorrem ao roubo para conseguir dinheiro. A maior parte da violência ligada à droga é causada por sua ilegalidade. A legalização baixaria os preços, regularia o comércio e desoneraria o Judiciário, os presídios e a polícia.</li>
<li><strong>Reverter o aumento dos usuários</strong>. Mesmo com a proibição, cada vez mais pessoas usam drogas e cada vez mais cedo, o que é um dos indicadores de que essa política não funciona.</li>
<li><strong>Veicular informações precisas e investir na educação.</strong> Há muita desinformação, muito preconceito e muitos mitos a respeito do uso de drogas. A legalização poderia ser introduzida juntamente com informações mais precisas e orientações mais abertas, além de priorizar a educação e a prevenção.</li>
<li><strong>Tornar o uso da droga mais seguro.</strong> A proibição conduz à estigmatização e à marginalização do usuário, com maior isolamento social, aumento da delinquência e contágio por infecções graves. A legalização, por seu turno, poderia enfatizar as políticas de redução de danos.</li>
<li><strong>Restaurar direitos e reponsabilidades.</strong> A proibição criminaliza desnecessariamente milhões de pessoas que, não fosse isso, seriam obedientes às leis. Além do mais, põe a responsabilidade da distribuição de drogas nas mãos de traficantes violentos e inescrupulosos. A legalização poderia promover distribuição cuidadosa e regulada, com expedientes para proteger os mais vulneráveis.</li>
<li><strong>Reduzir o preconceito racial.</strong> As pessoas da raça negra correm 10 vezes mais risco de serem presas por uso de drogas. A legalização removeria prisões discriminatórias.</li>
<li><strong>Sanear o mercado global.</strong> O mercado de drogas representa 8% de todo o comércio mundial, cerca de 600 bilhões de dólares anos. Países inteiros caem sob sua influência corruptora. A legalização jogaria dinheiro na economia formal, geraria empregos e impostos e reduziria a corrupção.</li>
<li><strong>Implantar uma política eficaz.</strong> A legalização deve ser feita com cuidado e não é cura para tudo, mas é chegada a hora de uma política pragmática e eficaz, que permita encarar os problemas criados pelo uso da droga e os problemas criados pela proibição<a href="#_edn5" name="_ednref5">[5]</a>.</li>
</ol>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>A toxicomania é uma doença</strong></h3>
<p>O acento, então, se desloca: o problema é quem consome a droga<em>.</em> Deslocamento que comporta diferentes abordagens.</p>
<p>Enfoque bastante em evidência consiste em afirmar que <em>a toxicomania é uma doença.</em> Ou seja, decorre de distúrbio neurobiológico de origem genética. Essa proposição desconsidera, desvaloriza ou despreza tudo o que é da ordem da subjetividade ou da cultura. O sonho dessa concepção é tratar a dependência à droga com outra droga.</p>
<p>Seria a Genética a Astrologia dos tempos atuais? Seria o código genético o novo oráculo ou a nova versão do <em>maktub</em>? A resposta é <strong>não<em>, </em></strong>para a ciência. Mas, a resposta é <strong>sim</strong> para o discurso científico, que não passa de ideologia apoiada em termos da ciência.</p>
<p>A supervalorização da influência genética é parte da estratégia da indústria farmacêutica, uma das mais poderosas do mundo atual. Constitui propaganda subliminar ou recurso de marketing<em>:</em> a ênfase na genética reduz a importância de outros fatores e induz ao consumo de medicamentos.</p>
<p>A professora e pesquisadora norte-americana Adriane Fugh-Berman, do <em>Georgetown University Center, </em>afirma que a indústria farmacêutica é sagaz: os médicos por ela contratados não vendem remédios, vendem doenças. E os principais alvos são os outros médicos, em especial os psiquiatras, cujos diagnósticos são subjetivos.</p>
<p>Como é a estratégia? Fugh-Berman dá um exemplo fictício. Considere o que os médicos chamam de “borborigmo”, ou seja, os ruídos ou burburinhos de um estômago vazio. Imagine que uma empresa pretenda desenvolver uma droga para combater tal desconforto. O primeiro passo é fazer as pessoas levarem a sério o estado de doença. Com a droga ainda em testes, são lançadas mensagens de marketing<em>: </em>“não há motivo de preocupação enquanto o estômago roncar ocasionalmente, mas episódios regulares podem indicar a condição de barulhos altos repetidos do estômago (BARE)”. Em seguida: “Os acometidos por BARE podem ter que limitar viagens, atividades profissionais e de lazer, com certa estigmatização social”. Ou ainda: “O BARE pode levar à obesidade, pois a pessoa tende a comer para evitar o ronco do estômago”. A partir daí, médicos contratados são porta-vozes de mensagens em cursos de educação médica continuada, nos quais é destacado que o BARE não deve ser motivo de riso, mas, sim, condição comum, subdiagnosticada e com consequências potencialmente graves <a href="#_edn6" name="_ednref6">[6]</a>.</p>
<p>É possível dar, agora, exemplo mais caudaloso e nada fictício: o DSM e, mais particularmente, o DSM-5. É a classificação de uma psiquiatria que se diz científica e que postula, para os transtornos mentais e do comportamento, substrato neurobiológico e etiologia, em última análise, genética. O número de transtornos aumenta copiosamente e, por meio de artifício nomeado comorbidade<em>,</em> cabe a cada um, agora, um cacho de diagnósticos. Com direito, é claro, a um coquetel de medicamentos. O mais importante é isto: todo esse biologicismo está apoiado em classificação sem base neurobiológica, ancorada em critério exclusivamente sociocultural. A tentativa de estabelecer base neurobiológica é precária e posterior à definição do transtorno. Trata-se de petição de princípio que revela o objetivo não manifesto do DSM: uma clínica da medicação.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>A toxicomania é um crime, uma transgressão</strong></h3>
<p>Quando a cultura situa a toxicomania como doença, coloca o problema do lado de quem consome a droga, mas desresponsabiliza o sujeito. A responsabilidade é atribuída à disfunção orgânica.</p>
<p>A cultura atual traz outra concepção de toxicomania, incompatível com a anterior, mas que, não obstante, coexiste com ela. Segundo essa outra concepção, <em>a toxicomania é um crime, no sentido jurídico e um erro, no sentido moral. </em>Ou seja, o problema está do lado de quem consome a droga e o sujeito é responsabilizado como autor de um crime e de uma transgressão dos costumes. Essa perspectiva traz, obrigatoriamente, o enquadramento num contexto que envolve culpa e punição.</p>
<p>O enfoque jurídico-moral do toxicômano, portanto, considera o sujeito e o responsabiliza no mesmo procedimento que o inclui no rol do crime, do erro ou do pecado. Porta aberta para a exclusão e para a influência religiosa.</p>
<p>O grande problema da exclusão (penitenciárias, hospitais psiquiátricos, comunidades terapêuticas) é que ela não garante, por si só, mutação subjetiva. É possível ficar longo tempo excluído e sair tal como entrou.</p>
<p>E o grande problema da influência religiosa é que ela traz, sim, o apoio de Deus ao pecador angustiado, mas traz, também, inexoravelmente, sua contraface, o espectro tentador de Satanás.</p>
<p>&nbsp;</p>
<h3><strong>A toxicomania é um modo de gozo</strong></h3>
<p><strong>P &#8211;</strong> E para a psicanálise? O problema é a droga ou quem a consome?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Para a psicanálise, o problema está na relação do sujeito com a droga. A droga, sim, tem importância, assim como o medicamento. Mas a ênfase fica do lado do sujeito. E é algo impossível de ser generalizado. A relação de diferentes sujeitos com uma mesma droga é inteiramente diversa. A bebida alcoólica pode ser prazerosa para uma pessoa e mortífera para outra. Os casos devem ser avaliados um a um, mas o acento é sobre o sujeito.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> A relação mortífera com a droga é uma doença?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Em termos psicanalíticos, <em>o uso de drogas é um modo de gozo.</em> O gozo é conceito lacaniano, mas inteiramente ancorado em Freud. Pode ser definido como satisfação da pulsão, tanto da pulsão sexual como da pulsão de morte. Trata-se de satisfação que inclui, portanto, um paradoxo: o prazer está em continuidade com o desprazer ou com o seu para-além. O amálgama das duas pulsões, portanto, cria um bem para o sujeito que não coincide com o seu bem-estar, um bem que pode se traduzir por mal-estar ou mesmo se confundir com a dor. O gozo, como diz Lacan, “começa com cócegas e termina com labaredas de gasolina”<a href="#_edn7" name="_ednref7">[7]</a>.   A existência de um além do princípio do prazer pode ser deduzida de certos casos de adição a drogas, como, por exemplo, cocaína e heroína. O bem-estar pode existir no início; com o agravamento da dependência, surge a necessidade imperiosa e repetitiva de satisfação, que não traz prazer e frequentemente culmina com a morte.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> A que se deve a existência de relações tão diferentes com as drogas?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> A diferença é devida a vários fatores. O uso de cocaína por um grupo com finalidade recreacional é totalmente diverso do que se verifica numa cracolândia. No primeiro caso o laço social está mantido. O segundo caso assinala uma ruptura com o Outro social e a destituição de qualquer tipo de regulação. Os fatores reguladores têm a ver com influências culturais e com a estrutura do sujeito. A função paterna é moderadora de gozo e pode evitar o uso devastador de drogas. Por outro lado, perante uma função paterna fragilizada, o uso de drogas pode desmoronar a precária estabilização ainda existente.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> A cultura, então, pode contribuir para o surgimento de toxicomanias?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Claro que sim! Lacan, quanto a isso, é enfático. “Que antes renuncie a isso (à prática psicanalítica) quem não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época” <a href="#_edn8" name="_ednref8">[8]</a>. Pode-se falar de Outro materno, Outro paterno, Outro do sexo, Outro social&#8230; Cultura é um dos nomes do Outro. Na atualidade, a influência pode acontecer de duas maneiras principais: pelo enfraquecimento da função paterna, decorrente do declínio do pai e pela ascensão do gozo consumista, que é o garantidor do discurso capitalista. O modo de gozo da adição torna-se presente em quase todas as situações. Por exemplo, em relação à comida. Come-se, primeiro, por fome ou prazer, mas depois disso, continua-se a comer por compulsão, sem qualquer necessidade alimentar, sem algum prazer ou até com sofrimento. A lista pode ser amplamente estendida: adição às compras, adição à Internet, adição aos remédios, adição ao trabalho, adição ao jogo, adição ao sexo, adição aos furtos, adição aos <em>smartphones&#8230;</em> O modelo geral da vida cotidiana na época contemporânea é a adição <a href="#_edn9" name="_ednref9">[9]</a>. Existe hoje uma sociedade de viciados? Haveria uma toxicomania generalizada? Nenhuma surpresa a constatar. Trata-se apenas de consequência lógica do imperativo de gozo consumista.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> E onde fica a responsabilidade do sujeito?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Como é que Lacan traz o tema?  Da seguinte forma: “Por nossa posição de sujeito, sempre somos responsáveis. Que chamem a isso como quiserem, terrorismo”<a href="#_edn10" name="_ednref10">[10]</a>. Por que chamar isso terrorismo? Porque é algo provocador e radical. Ou seja: mesmo com a genética, mesmo com a cultura, mesmo com os poderes sobrenaturais, o sujeito é responsável!</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> Para o Direito, também, o sujeito é responsável. A psicanálise pretende colocar o toxicômano na cadeia?</p>
<p><strong>R –</strong> A responsabilização do sujeito verifica-se tanto na perspectiva jurídico-moralista como na perspectiva psicanalítica. Isso não quer dizer que a psicanálise introduz o sujeito no contexto de culpa e punição. Pelo contrário, procura retirá-lo desse âmbito. A ética jurídico-moralista é a mesma do crime e castigo. Não é a ética da psicanálise, que responsabiliza o sujeito, não para castigá-lo, mas para mostrar que ele não é vítima, e sim autor do seu destino. Não existe oráculo! Nada em definitivo já estava escrito!  A ética da psicanálise pode ser definida como <em>ética </em>das consequências<em>. </em>Ou seja, todo ato tem consequências e cada um deve arcar com as de seus atos.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> Isso é tão importante, no caso das toxicomanias?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Muito importante. É frequente, nesses casos, a seguinte posição subjetiva: “Eu não sou responsável por meus atos, você é responsável por eles”. Pode haver o encontro com posição subjetiva complementar: “Você não é responsável por seus atos, eu sou responsável por eles”. Encontro que nem sempre é absurdo: é a relação da criança com a mãe. O problema é quando o cordão umbilical não é cortado, quando a dependência se prolonga numa relação superprotetora. O lugar da mãe pode ainda ser ocupado pelo pai, pelo cônjuge e – atenção! – pelo Estado ou pela instituição assistencialista, razão pela qual a responsabilização e a implicação subjetiva são passos fundamentais no tratamento desses casos. Os Alcoólicos Anônimos sabem disso muito bem. Na soleira de seu trabalho está uma decisão primordial: “Se você quiser parar de beber, o problema é nosso, mas, se você não quiser, o problema é seu”. Ou seja, existe a mão estendida, mas o essencial é a responsabilização do sujeito. Se ele vier, será acolhido; mas, ele poderá não vir.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> Se o drogado não vem, não seria preferível a internação compulsória?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> Questão delicada. O primeiro aspecto a ser considerado é que, nos casos graves de toxicomanias, o sujeito faz uma ruptura com o Outro social, com entrega a um gozo mort;ifero. A rigor, existe, em primeiro lugar, autossegregação<a href="#_edn11" name="_ednref11">[11]</a>. A internação pode ser pensada como tentativa de barrar esse gozo e abrir espaço para uma retificação subjetiva. O problema é que os limites entre a finalidade terapêutica e a segregação são tênues. Existe a autossegregação do toxicômano, mas existe também a segregação social, tendência muito poderosa. Por que motivo? Fazendo um retrospecto, na Idade Média, período teocêntrico da cultura humana, os segregados são os leprosos, portadores de estigma do pecado. Na Era das Luzes, do Racionalismo Iluminista, os segregados são os loucos, expressões da desrazão. No mundo globalizado, era do imperativo de gozo consumista, os segregados talvez sejam os toxxicômanos, que escancaram o consumista. A segregação pode ocorrer em espaços fechados, com abstinência forçada, mas também em espaços abertos, como as cracolândias, ou diversos outros lugares pelo mundo afora, onde os drogados são isolados e se isolam para se satisfazer às vezes até a morte.</p>
<p><strong>P &#8211;</strong> Diante do pessimismo da psicanálise, não seria preferível o otimismo da religião?</p>
<p><strong>R &#8211;</strong> A religião cria o otimismo da relação do homem com Deus, mas cria, também, o pessimismo da relação do homem com Satanás. Um não existe sem o outro. Deus faz o milagre da cura; Satanás, no entanto, continua seu trabalho sorrateiro, causando doença. O preço que se paga pela proteção divina é a eterna ameaça do demônio. A psicanálise, por certo, não é otimista. Como ser otimista quando se têm, de saída, as pulsões de morte e o além do princípio do prazer? Não é correto falar, porém, em pessimismo. O mais sensato é afirmar o <strong>realismo psicanalítico</strong><em>. </em>A psicanálise aposta no sujeito, a psicanálise aposta na civilização. Mas, como acabou de ser dito, não é certo que o sujeito irá abraçar a vida, não é certo que ele abandonará o gozo mortífero. Da mesma forma, não é certo que a humanidade abraçará a civilização, que ela não se exterminará com uma guerra nuclear ou com a destruição do meio ambiente. Há alguns dias, diante da seca terrível, o estado de Minas Gerais transformou-se numa tocha, com as florestas incendiadas&#8230; Será que a espécie humana sobreviverá a si própria? A psicanálise não sabe a resposta. Mas sabe que, se o sujeito ou a espécie humana se salvar, terá sido pelo próprio empenho, e não por obra de Deus. Por outro lado, se o sujeito se destruir, ou à humanidade, terá sido consequência dos próprios atos, e não obra do demônio.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>NOTAS</strong></p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Texto da conferência de abertura da XXV JORNADA D0 CENTRO MINEIRO DE TOXICOMANIA, realizada em Belo Horizonte, de 01 a 03 de dezembro de 2014, tendo como tema <em>A responsabilidade nas toxicomanias. </em>Publicado em PHARMAKON Digital nº 1, 2015, editado pela Rede TyA do Campo Freudiano:</p>
<p>http://www.pharmakondigital.com/ed001/conferencias/pt/a_responsabilidade_do_toxicomano_pt.html</p>
<p>e no livro <em>O bem-estar na civilização,</em> CRV, 2016.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> Paracelso<em>. In: </em>Wikiquote, a coletânea de citações livre<em>.</em></p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3">[3]</a> Naparstek F. y colaboradores. Introducción a la clínica com toxicomanias y alcoholismo<em>. </em>Buenos Aires, Grama, 2006; p. 14.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> Freud S. A questão da análise leiga (1926). ESB, v. XX, Rio de Janeiro, Imago, 1976; p. 258.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5">[5]</a> Grieve J. (Membro da Unidade de Inteligência Criminal da Scotland Yard).  Editorial de Le Monde Diplomatique Brasil. Disponível em: http://www.diplomatique.org.br/editorial.php?edicao=2.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6">[6]</a> Fugh-Berman A. Laboratórios vendem doenças. Entrevista ao periódico Ser Médico, n. 67, ano XVII, abr/mai/jun 2014, p. 4-9. São Paulo: CREMESP, 2014.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7">[7]</a> Lacan J. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro, Jorge Zahar, editor, 1992; p. 68.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8">[8]</a> Lacan J. Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953). Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; p. 322.</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9">[9]</a> Miller JA. As profecias de Lacan: entrevista ao Le Point. Belo Horizonte, Correio, n. 70, p. 8, dezembro de 2001<em>. </em>Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise.</p>
<p><a href="#_ednref10" name="_edn10">[10]</a> Lacan J. Ciência e verdade (1966)<em>. </em>Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1998; p. 873.</p>
<p><a href="#_ednref11" name="_edn11">[11]</a> Naparstek F. y colaboradores.<em> Op. cit.,</em> p. 84<em>.</em></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<title>O tratamento psicanalítico de uma criança (com uma única intervenção)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 12:07:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[O TRATAMENTO PSICANALÍTICO DE UMA CRIANÇA (com uma única intervenção)[1]   Em fevereiro de 2001, quando assumi a supervisão clínica da Coordenadoria de Psicologia de um hospital universitário, uma questão <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-tratamento-psicanalitico-de-uma-crianca-com-uma-unica-intervencao/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O tratamento psicanalítico de uma criança (com uma única intervenção)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong><em>O TRATAMENTO PSICANALÍTICO DE UMA CRIANÇA</em></strong></p>
<p><strong>(com uma única intervenção)<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a></strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Em fevereiro de 2001, quando assumi a supervisão clínica da Coordenadoria de Psicologia de um hospital universitário, uma questão crucial foi-me apresentada. A participação da psicologia era requerida como interconsulta. A alta do paciente, entretanto, dependia essencialmente da evolução do quadro médico. Num hospital sob constante pressão das demandas de tratamento, apenas em casos excepcionais a psicologia influía na duração das internações. No dia a dia, o resultado era este: diante de um novo caso, não se sabia quanto tempo duraria o tratamento. Às vezes, após a internação, era possível continuar em regime ambulatorial. Outras vezes, porém, com pacientes do interior, perdia-se repentinamente o contato. Eram freqüentes as situações em que se iniciava uma entrevista sem saber se haveria outra, ou quantas outras haveria. Qual a solução?</p>
<p>A solução que propus foi trabalhar com o tempo lógico. Cada entrevista ou sessão tem um início, um meio e um fim; o início correspondendo ao instante do olhar, o meio ao tempo para compreender e o fim ao momento de concluir. A idéia, por conseguinte, era trabalhar cada entrevista ou sessão como se fosse a única. Com a estratégia assim formulada, dissipava-se o problema anteriormente apresentado.</p>
<p>É claro que, em alguns casos, uma sessão se sucedia a outra, e a mais outra, formando uma série, com a perspectiva de continuidade após a internação, no ambulatório. Tínhamos então um tratamento —não se tratava, em nenhum dos casos, evidentemente, de psicanálise pura, mas de psicanálise aplicada. Tal continuidade não alterava a estratégia, pois, também os tratamentos se regem pelo tempo lógico, também eles têm um início, um meio e um fim.</p>
<p>Darei um exemplo clínico. Um caso singelo, por pelo menos dois motivos. É o tratamento psicanalítico de uma criança que consta de uma única intervenção. O segundo aspecto relevante é a clareza com que se pode distinguir os três momentos do tempo lógico.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong><em>O caso de S.</em></strong></p>
<p><em>(De autoria de Grace Pereira dos Santos)<a href="#_edn2" name="_ednref2"><strong>[2]</strong></a></em></p>
<p><strong><em> </em></strong></p>
<p>S., uma criança do sexo feminino, de um ano e quatro meses, foi internada na pediatria para tratamento cirúrgico de câncer da suprarrenal. Seu tamanho e aparência —conseqüência do tumor— faziam-nos pensar numa garota de três anos.</p>
<p>Seis dias após a internação, fui chamada para atender a sua mãe, que estava em crise (dissociação histérica). No dia da crise, S. chorou o tempo todo, pois ainda mamava no peito e ficou impossibilitada de fazê-lo, naquele momento. Uma fruta oferecida por uma acompanhante de outro leito foi-lhe arrancada da mão por um tapa da mãe.</p>
<p>No dia seguinte, para espanto da equipe, mesmo com o afastamento da mãe, a criança dormiu a manhã inteira.</p>
<p>Três dias após a crise e separação da mãe, S. foi operada com sucesso, tendo o pai chegado para ficar com ela. Mostrava-se, porém, arredia, irritada e chorosa, sempre que alguém da equipe se aproximava. Com dificuldade, aceitava alguma alimentação. Recusava ostensivamente a mamadeira, chorando e pedindo “mamá”.</p>
<p>No quarto dia subseqüente à cirurgia, uma nova substituição de acompanhante fez-se necessária: o pai tinha uma prótese na perna que dificultava sua adaptação às acomodações da enfermaria. S. passou a ficar sob os cuidados do padrinho.</p>
<p>A criança continuou cada vez mais irritada e chorosa. Não aceitava a aproximação de ninguém e, embora com brinquedos no berço, não brincava. Quando não estava dormindo, estava curvada sobre a cirurgia. Não permitia que lhe tocassem, que arrumassem seu berço; continuava recusando as mamadeiras e pedindo “mamá”.</p>
<p>Diante disso, fiz uma intervenção. Preparei uma caixa de brinquedos e dirigi-me ao seu leito, temendo que S. não me aceitasse e que jogasse tudo longe. Ela já me conhecia: eu acompanhava as visitas da mãe, orientava o pai, o padrinho&#8230;</p>
<p>Apresentei-me, falei do meu trabalho e mostrei-lhe os brinquedos. Ela os retirou da caixa, olhou-os, manuseou-os sem se levantar. Comecei a dizer-lhe o que se passara com ela. —Você ficou doente e veio para cá com a mamãe pra se tratar. Cortou a barriguinha, tomou remédio&#8230; Mas a mamãe também ficou doente, você viu, aí o médico a levou lá em cima para cuidar dela. A mamãe gosta muito de S., mas ela ficou doente e não pôde continuar aqui com você, nem dar de mamar para você. Aí veio o papai para ficar com você, mas o papai tem aquele dodói na perna, estava doendo e ele também não pôde ficar aqui com você. Ele também gosta muito de S., por isso trouxe o seu padrinho. Todos gostam muito de você, mas ficaram dodói e não puderam ficar aqui. Quando você puder sair do hospital o papai e a mamãe virão buscar você.</p>
<ol>
<li>não diz nada, recoloca os brinquedos na caixa e eu encerro.</li>
</ol>
<p>A partir desse dia o padrinho descobre que ela gosta de “danoninho” e investe nesse alimento. S. não chorou mais; pelo contrário, deixava que a examinassem, passeava pelo solário, brincava, sorria. Ainda chorava quando lhe ofereciam mamadeira e pedia “mamá”. Contudo, acabava aceitando outros alimentos.</p>
<p>Foram realizados mais três atendimentos nos quais S. retirava e manuseava brinquedos ou ouvia estórias. Com sua alta o tratamento foi encerrado.</p>
<p><strong><em>Comentário</em></strong></p>
<p><em>O instante do olhar.</em> A analista, que havia sido chamada para atender a mãe, e em seguida para orientar o pai e o padrinho, observa o que se passa com a criança. Esta, por sua vez, também observa aquela que sabe cuidar deles, estabelecendo-se, provavelmente, uma suposição de saber.</p>
<p><em>O tempo para compreender.</em> Do lado da analista, trata-se de elucidar o que foi apreendido no instante de olhar. No caso clínico apresentado, a fantasia de abandono. A partir do momento em que isso ficou claro, a questão passou a ser como fazê-lo claro também para a criança. A resposta veio com a intervenção, em que a fantasia de abandono foi interpretada e a separação da mãe metaforizada. A intervenção correspondeu ao tempo para compreender da criança.</p>
<p><em>O momento de concluir.</em> Foi o corte da sessão. A criança antecipou-se, recolocando os brinquedos na caixa. A analista percebeu e encerrou no momento exato. A sua retirada do cenário reeditou o afastamento da mãe, não mais vivido como abandono. O corte funcionou como ponto de basta, com ressignificação retroativa das cenas do instante do olhar. Os três últimos atendimentos tiveram o único mérito de constatar os efeitos da intervenção.</p>
<p>Celso Rennó Lima, presente no dia da discussão, não deixou passar o da-no-ninho, que, a esta altura, só confirmava certo trânsito pelo simbólico.</p>
<p>Em <em>L’homologue de Malaga, </em>Miller comenta que a estrutura do tempo lógico pode ser discernida tanto no percurso de uma sessão como no percurso de toda uma análise.<a href="#_edn3" name="_ednref3">[3]</a> E mais recentemente, Miller propôs, a propósito dos efeitos terapêuticos rápidos, a teoria do ciclo, como um recurso importante para a psicanálise aplicada.<a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a> Ora, pode-se dizer que o tempo lógico também estrutura os ciclos. Seria algo comum à psicanálise pura e à aplicada. Colocada a questão nestes termos, resolve-se, também, outro problema. Quando se pergunta se uma psicanálise evolui por progressão ou por ruptura, se consideramos que ela está estruturada pelo tempo lógico, obtém-se a resposta que ultrapassa o dilema: a psicanálise evolui tanto por progressão como por ruptura.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Publicado na <em>Opção Lacaniana nº 49. </em>São Paulo: Eólia, agosto 2007, pp. 85-87 e no livro <em>Ensaios de Psicanálise e Saúde Mental,</em> Scriptum, 2010.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> Caso clínico apresentado por Grace Pereira dos Santos no dia 9 de agosto de 2002, durante Supervisão Clínica instituída pela Coordenadoria de Psicologia do Hospital das Clínicas da UFMG. Aqui incluído com a sua gentil autorização.</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3">[3]</a> Miller, J.-A. L’homologue de Malaga. In:<em> Le temps fait symptôme.</em> Paris: ECF, La Cause freudienne, nº 26, 7-16, février 1994, p. 9.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> Miller, J.-A. &amp; Cols. Efectos terapêuticos rápidos. Buenos Aires: Paidós, 2006, pp. 99 e sgtes.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Masculino e feminino</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 17 May 2024 18:35:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; As questões de gênero são altamente polêmicas e atuais. O que se procura não são as melhores respostas, mas, as melhores perguntas. A abordagem, no tema agora proposto, será <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/masculino-e-feminino/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Masculino e feminino</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>As questões de gênero são altamente polêmicas e atuais. O que se procura não são as melhores respostas, mas, as melhores perguntas. A abordagem, no tema agora proposto, será feita por itens, escolha que pode não ser a mais adequada, mas é a mais didática.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Existe uma teoria convencional, ou tradicional, fortemente ancorada na biologia, que propõe masculino e feminino com base na anatomia, e a serviço da reprodução. Posição que reverbera célebre frase de Napoleão: “A anatomia é o destino”. Teoria que coloca o masculino em superioridade: o feminino é o sexo frágil, pois, é evidente que o homem é mais forte. Tudo o que escapa a isso (homossexualismo, por exemplo) é tratado como anormalidade, doença, delito ou degradação moral. Não se pense que estamos longe disso. Alan Touring, cientista inglês, considerado “pai do computador” e herói da Segunda Grande Guerra, suicidou-se depois de ser condenado à castração química, por ser homossexual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O livro “O segundo sexo” (1949), de Simone Beauvoir, é considerado marco do feminismo atual. Depois dele, e de numerosos outros fatores, o feminismo cresce enormemente, em particular nos países ocidentais, e a emancipação das mulheres marca, de forma nítida, nossa cultura contemporânea.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Em 1973, após grande pressão do movimento gay e também de muitos psiquiatras, a Associação Psiquiátrica Americana muda o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais e do Comportamento). Retira o homossexualismo da condição de transtorno patológico, e passa a considerá-lo como variação da orientação sexual.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Nos anos 1990, cresce o movimento <em>queer,</em> como atividade política e iniciador de nova teoria de gêneros. Tem participação importante na liberação dos costumes. A sigla LGTB precisou ser aumentada: LGTBQIA+. A nova teoria postula que, nos seres humanos, os gêneros não são atrelados à realidade biológica ou anatômica. Nem reduzidos à polaridade masculino/feminino. A metáfora que melhor se presta ao que existe é um arco-íris. E a orientação sexual de cada um não deve ser motivo de discriminação ou vergonha, mas de orgulho. Concluindo esta parte: a emancipação das mulheres e a liberação dos costumes marcam a subjetividade contemporânea, pelo menos na cultura ocidental.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>A posição da psicanálise é diferente das que foram expostas. Em primeiro lugar, deve ser assinalado: a linguagem causa uma ruptura entre o ser humano e a natureza, ou entre o que é humano e os outros animais. Assim sendo, por exemplo, não se deve dizer instintos sexuais nos humanos, mas, sim, pulsões sexuais. Qual a diferença? Os instintos são mais fixos quanto a seus objetos e quanto a seus modos de satisfação. E, em geral, visam à reprodução da espécie. Os objetos das pulsões são mais variáveis, assim como os modos de satisfazê-las. E, na espécie humana, atividade sexual não está atrelada à reprodução. Existe atividade sexual sem reprodução e a reprodução assistida dispensa a atividade sexual. O objetivo da pulsão é a satisfação (gozo).</p>
<p>Também para a psicanálise a anatomia não é o destino. Masculino e feminino não estão atrelados à realidade biológica, como nos outros animais. Nos humanos, são seres de linguagem, o que quer dizer: o biologicamente feminino pode inscrever-se do lado masculino e o biologicamente masculino pode inscrever-se do lado feminino. E a orientação sexual não deve ser motivo para rebaixamento ou discriminação: desde os “Três ensaios sobre a sexualidade”, de 1905, Freud é taxativo quanto a isso.</p>
<p>Embora não definida biologicamente, a psicanálise se apoia na oposição fundamental entre masculino e feminino, a bela diferença&#8230; Em que termos?</p>
<p>Para Freud, no inconsciente só há inscrição do sexo masculino, por meio do falo. Para o sexo feminino, não há inscrição equivalente ao falo. Razão pela qual afirma que a mulher é o continente negro da psicanálise, e faz a célebre pergunta: “O que quer uma mulher?”</p>
<p>No inconsciente (e não na psicanálise), o falo é narcisicamente valorizado, e a ausência dele, definida como castração, pelo contrário, é desvalorizada. A castração domina a psicologia feminina, no que Freud denomina inveja do pênis. A psicologia masculina, por seu lado, é dominada pelo medo à castração. Masculino/feminino, então, corresponde ao par antitético fálico/castrado, que por sua vez remete ao par antitético ativo/passivo.</p>
<p>O texto freudiano á marcado por críticas sistemáticas e severas à moral sexual civilizada (moral vitoriana), que reduz a vida sexual ao casamento monogâmico e para fins de procriação, como em algumas religiões ainda hoje em dia. Moralidade que inibe principalmente as mulheres, já que os homens comumente têm moral sexual dupla. Para Freud, a chamada “debilidade mental fisiológica das mulheres” seria, na verdade, resultado da inibição sexual. A emancipação das mulheres trouxe provas irrefutáveis dessa tese.</p>
<p>Lacan avança. O segundo sexo não existe porque não há inscrição do sexo feminino. A diferença é esta: o masculino existe, o feminino não existe. Daí sua célebre afirmação: “A mulher não existe”. O enigma se esclarece quando se recorre à matemática, onde Lacan se inspira. A diferença entre feminino e masculino é comparável à diferença entre 0 (zero) e 1 (um). A formalização dessa diferença constitui passo gigantesco da matemática. Da mesma forma, a oposição entre masculino e feminino é a oposição entre o sexo que existe (1) e o sexo que não existe (0).</p>
<p>Como situar, porém, todo um arco-íris de possibilidades? É preciso lembrar que a lógica binária, que se funda na diferença entre 0 (zero) e 1 (um), é a base da informática, e se abre para um número infinito de possibilidades. Nenhuma dificuldade. A sigla pode progredir à vontade: LGTBQIA+PE!@#$x?&#8230; E, para a psicanálise essa é uma sigla trans-estrutural, ou seja, que passa por diferentes estruturas clínicas.</p>
<p>Ao levar a psicanálise às últimas consequências, qual o resultado? A fantasia fundamental (que indica o modo de gozo) é diferente para cada sujeito, é única, é específica, é própria de cada um. Motivo pelo qual o encontro amoroso é tão complexo (Freud fala de maldição do sexo nos humanos). E razão pela qual a psicanálise não é uma ciência: o método científico é estatístico, e não se faz estatística com singularidades.</p>
<p>Em síntese: há significante do sexo masculino, mas não do sexo feminino. A proposta lacaniana, entretanto, não fica aí. Inclui a questão do gozo. O gozo masculino é o gozo fálico. Uma mulher, também tem acesso ao gozo fálico, tal como o homem (o mundo contemporâneo mostra isso claramente, com as mulheres desempenhando papéis masculinos com enorme destreza). Qual, então, a diferença? As mulheres têm acesso a um segundo gozo, o gozo especificamente feminino, indefinível, como o gozo místico. Lacan responde à pergunta de Freud. O que quer uma mulher? Ela quer gozar.</p>
<p>Como se vê, a psicanálise formaliza o que é especificamente feminino, ao contrário de muitos movimentos feministas, que, presos à inveja do pênis, postulam um machismo de saias.</p>
<p>O falo, por conseguinte, é o significante do sexo masculino, enquanto que, para o sexo feminino, não há inscrição de significante específico, o que pode ser vivido como castração, ou como defeito. Não para a psicanálise, que considera a falta como um dado de estrutura.</p>
<p>O que acaba de ser dito é válido para a estrutura neurótica. No caso da estrutura psicótica o que ocorre é algo diverso. O que caracteriza uma psicose é sua operação estruturante, a foraclusão. Mais exatamente, foraclusão de um significante fundamental, o Nome-do-Pai. Isso equivale a dizer que não há metáfora paterna e, portanto, não há o que resulta dela, ou seja, o significante fálico. Ora, se na estrutura psicótica não há inscrição do significante do sexo masculino, então não há, a rigor, diferenciação sexual. Motivo pelo qual Lacan afirma que o psicótico é ex-sexo, ou seja, fora do sexo, ou fora da diferença sexual.</p>
<p>Um exemplo para ilustrar. Um pai procura um psicanalista, angustiado. &#8220;Além de meus próprios problemas, que são muitos, têm os problemas de meu filho. Ele descobriu ser uma mulher trans. Contra a minha vontade, viajou para a Tailândia, pois, lá, a cirurgia é bem feita e mais barata.  Voltou muito satisfeito com o resultado, e quis até me mostrar. Algum tempo depois, nova constatação. Veio me contar que descobriu que é lésbica.&#8221;</p>
<p>Lacan, no Seminário 18 (página 30), é duro com Stoller, ao afirmar que ele simplesmente desconhece a face psicótica dos transexuais, e que a foraclusão explica com clareza tais casos. Ou seja, não há como a psicanálise admitir o igualitarismo, ou não considerar a diferença sexual. A foraclusão explica também a diversidade apresentada por certas teorias de gênero. Mais uma vez, vale lembrar que não há aqui juízo de valor. Neurose e psicose não são doenças ou estados degradados, são estruturas existenciais. Tanto assim que Miller comenta: enquanto que o primeiro Lacan aplica a psicanálise à psicose, o último Lacan aplica a psicose à psicanálise. E o paradigma, no caso, é nada menos que James Joyce.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder</title>
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		<dc:creator><![CDATA[franciscomaster]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Nov 2017 11:36:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[Seminário A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI &#160; Capítulo I A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder Vicente De Nardin, um dos organizadores do Seminário, observou <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-direcao-do-tratamento-e-os-principios-de-seu-poder/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Seminário</i></b></span></p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI</b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Capítulo I</i></b></span></p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>A Direção do Tratamento e os Princípios de seu Poder</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Vicente De Nardin, um dos organizadores do Seminário, observou há pouco que este auditório (do Centro de Estudos Galba Velloso) recebeu o meu nome. De fato&#8230; e isso aconteceu em 1987, ou seja, há exatamente 30 anos. 1987, para mim, foi um ano extremamente importante, também por outros motivos. Em Curitiba, num Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, fiquei conhecendo Jacques-Alain Miller. Algo que precipitou a decisão de levar a fundo minha formação lacaniana.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Minha primeira formação psicanalítica aconteceu no Círculo Psicanalítico de Minas Gerais, após dois períodos de análise com dois analistas (cerca de 9 anos), além de formação teórica e supervisão. O Círculo dominava amplamente o cenário psicanalítico de Minas Gerais. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Em 1980, liderei a criação do Colégio Mineiro de Psicanálise, fazendo um corte na hegemonia absoluta do Círculo. O Colégio, entre outras coisas, difundiu em Minas o interesse pelo ensino de Lacan. Supunha, entretanto, que seria uma evolução contínua, sem rupturas. Exatamente por esse motivo, o Colégio acabou, em 1984. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Experimentei na própria carne: levar a fundo a orientação lacaniana exigiria mudar tudo. Nova análise, nova formalização, nova prática, nova instituição. Recomeçar!</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Sim, nova análise: dois ciclos, com dois analistas. Meu fim de análise lacaniana aconteceu somente em 2013. No meu último livro (O bem-estar na civilização) deixo um testemunho dele.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Não pensem que evito meu tema. Pelo contrário, introduzo-me na questão. Afinal, o que é o artigo de Lacan, título da aula de hoje: “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS PRINCÍOS DE SEU PODER”? </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Trata-se de texto de 1958, publicado nos “Escritos”. Para localizá-lo minimamente: o ensino lacaniano propriamente dito começara em 1953, com o Discurso de Roma, e sua excomunhão da IPA ocorreu em 1963. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">“A DIREÇÃO DO TRATAMENTO” é parte do primeiro ensino de Lacan, no qual se situam também os outros temas que serão abordados no primeiro semestre deste ano. O texto versa essencialmente sobre teoria da prática psicanalítica e apresenta duas vertentes cruciais: uma crítica dos pressupostos vigentes na IPA e uma exposição das formulações lacanianas.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Em sua crítica, a referência principal é “<i>La psychanalyse d’aujourd’hui” (PDA),</i> cujos autores Lacan evita nomear, talvez por delicadeza. Citarei, não obstante, os mais importantes. O editor é Sacha Nacht. O prefaciador é Ernest Jones. Entre os autores, temos: Serge Lébovici, Maurice Bouvet, Pierre Mâle, Favreau, Diatkine.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">As críticas de Lacan ao pós-freudismo não são apenas ácidas. São simplesmente demolidoras. Não fica pedra sobre pedra&#8230; </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Olho para minha estante da época, para os grandes mestres de minha primeira formação, e o que vejo? “A presença do analista” (Sacha Nacht), “O ego e os mecanismos de defesa” (Anna Freud), “Teoria psicanalítica da neurose” (Oto Fenichel), “Inveja e Gratidão” (Melanie Klein), “Análise do Caráter” (Wilhelm Reich), “Técnica Psicanalítica” (Heinrich Racker), “Teoria Psicanalítica da Libido” (Karl Abraham), “A Estrutura da Teoria Psicanalítica” (David Rapaport), etc., etc. Pois bem. Tudo isso terá seus fundamentos radicalmente questionados, direta ou indiretamente.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Antes de continuar, um comentário. Alguém poderá, com justa razão, argumentar: Como apresentar tema tão amplo e complexo como “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS PRINCÍPIOS DE SEU PODER” em apenas uma aula? </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">De fato, a crítica tem procedência. Pode-se, inclusive, ampliá-la: é tema para um seminário, ou para um cartel, e não para uma aula. O mesmo poderia ser dito, no entanto, para todas as outras aulas do Seminário. Como falar, num só fôlego, da direção do tratamento da histérica, ou do obsessivo, ou do psicótico? Os temas do segundo semestre, concernentes ao o último Lacan (A segunda clínica de Lacan, A interpretação borromeana, A doutrina clássica do passe, O passe do <i>parlêtre) </i>não são, quanto a isso, diferentes.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Reconheço e dou a mão à palmatória. Proponho, mesmo, que se formem cartéis sobre o(s) tema(s). Trago, porém, meu plano. O que pretendo é uma síntese. Uma redução. Como falar do que é complexo da maneira mais simples? </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">É claro que isso tem limites. Mas, tem seu alcance. Para os iniciantes, funciona como provocação, convocação, estímulo. Para os mais avançados em sua formação, uma oportunidade de sistematização de suas reflexões.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Em outras palavras: a capacidade de análise implica, dialeticamente, a capacidade de síntese. Lacan, certa feita, manifestou-se como quem fala de muitíssimas coisas e, ao mesmo tempo, sempre a mesma coisa.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Miller, por seu turno, propôs resumir todo o primeiro Lacan numa única frase: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem “. Ou todo o último Lacan em outra frase: “A relação sexual não existe”. Tal é a essência do matema: o que é complexo da forma mais reduzida, ou mais simples (com menos elementos). Eis o paradoxo: síntese que exige análise.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Num esforço de síntese, proponho então: “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO E OS PRINCÍPIOS DE SEU PODER” é um texto que leva adiante, de um lado, uma crítica radical dos pressupostos teórico-técnicos do pós-freudismo, e de outro lado, uma exposição metódica da fundamentação da prática do que se convencionou chamar de primeiro Lacan.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Pós-freudismo<span class="Apple-converted-space">  </span>X <span class="Apple-converted-space">  </span>Primeiro Lacan</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Minha leitura terá como eixo, por conseguinte, uma contraposição entre a perspectiva pós-freudiana e a perspectiva lacaniana, considerando-se o primeiro ensino de Lacan. </span></p>
<p class="p6"><span class="s1">QUADRO I</span></p>
<table class="t1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">PÓS-FREUDISMO</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">PRIMEIRO LACAN</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td3" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Desvio de Freud</b></span></p>
</td>
<td class="td4" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Retorno a Freud</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td5" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Imaginarização da psicanálise</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(Eu, Defesa, Pessoa do analista, Contratransferência, Identificação, etc.)</b></span></p>
</td>
<td class="td6" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Significantização da psicanálise</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(Sujeito, pulsão, desejo, fantasia, inconsciente, transferência, sintoma, etc.)</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td3" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Prevalência do eu</b></span></p>
</td>
<td class="td4" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Prevalência do inconsciente</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td7" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Contratransferência</b></span></p>
</td>
<td class="td8" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Desejo do analista</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td3" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Análise das resistências</b></span></p>
</td>
<td class="td4" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Interpretação</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Presença do analista</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(ser do analista)</b></span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>O analista paga com sua pessoa</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(falta-a-ser do analista)</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td3" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Reeducação emocional</b></span></p>
</td>
<td class="td4" valign="top">
<p class="p12"><span class="s1"><b> Transmutação do sujeito</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>A análise como relação dual</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(relação de objeto)</b></span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>A análise como relação com o analista</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>(relação com o objeto)</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td11" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>O analista frustra (ou atende) a demanda</b></span></p>
</td>
<td class="td12" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>O analista sustenta a demanda</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td7" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Imaginarizar o desejo</b></span></p>
</td>
<td class="td8" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Tomar o desejo ao pé da letra</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td13" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Fim de análise:</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>Identificação com o analista</b></span></p>
</td>
<td class="td14" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>Fim de análise:</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>Identificação com o nome próprio</b></span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><b>Des-ser</b></span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p class="p4"><span class="s1">Apresento um quadro com duas colunas. Na primeira, perfilo considerações atinentes ao pós-freudismo e na segunda coluna indico o que se opõe a elas no ensino lacaniano. Assim temos, de um lado, um conjunto capaz de configurar a psicanálise pós-freudiana, e de outro lado, na outra coluna, uma caracterização do primeiro Lacan. Se, em vez de uma leitura vertical, for realizada uma leitura horizontal, linha por linha, percebe-se a cada lance a oposição entre as duas perspectivas.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Aprendi esse método de abordagem com Miller, que o utiliza sistematicamente. Permite formalizar e elucidar o tema examinado, principalmente quando se procura, como é nosso caso agora, uma visão de síntese. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">À luz da perspectiva lacaniana, como definir, numa única fórmula, a psicanálise pós-freudiana? Seria, sem dúvida: <i>uma psicologia do ego. </i>Aliás, trata-se de autodenominação: é por demais conhecida a expressão <i>“ego psychology”</i>, nome sob o qual se organizou poderosa tendência dentro da IPA.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Quanto ao primeiro Lacan, poderia também ser reduzido a uma fórmula: <i>uma leitura estruturalista de Freud. </i>Este é, por sinal, o título de importante obra de Oscar Masotta, autor que introduziu Lacan na Argentina.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Desvio de Freud<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Retorno a Freud</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Para Lacan, o pós-freudismo é um desvio de Freud. Não se trata, propriamente, de um abandono de Freud, mas de uma leitura recortada. Poderia ser dito que toda leitura é um recorte. É verdade. Sendo então, mais preciso: uma leitura recortada de Freud que deixou fora exatamente o que há de fundamental, o que há de subversivo na descoberta freudiana. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Sendo ainda mais preciso: o recorte deixou fora aspectos cruciais da primeira tópica e privilegiou aspectos amenos da segunda tópica. Houve um abrandamento, uma domesticação da psicanálise, que contribuiu para fazer dela uma pílula palatável para a cultura ocidental, mormente a norte-americana. Operação que surtiu efeito: a psicologia do ego dominou amplamente o cenário psi nos Estados Unidos, durante tempo considerável.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O preço, entretanto, foi alto: a descaracterização da psicanálise, deixando de lado exatamente a pérola do legado freudiano. Daí a expressão forte: desvio de Freud. Forçando um pouco os termos, poderia ser dito que, para Lacan, os pós-freudianos são pré-freudianos.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">É nesse contexto que o ensino lacaniano se apresenta como <i>um retorno a Freud. </i>Também uma leitura recortada, mas que privilegia a originalidade, a base, a virulência da descoberta psicanalítica. O próprio Lacan formula, de maneira elegante: “O sentido do retorno a Freud é o retorno ao sentido de Freud”.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A leitura estruturalista retoma o texto freudiano à luz dos conceitos linguísticos. Principalmente três: <i>significante, </i>que foi buscar em Saussure, <i>metáfora e metonímia,</i> que foi buscar em Jakobson.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Imaginarização<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Significantização da psicanálise</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Qual é o cerne do desvio pós-freudiano? Em termos lacanianos, poderia ser dito que se trata de <i>uma imaginarização da psicanálise.</i> O conceito fundamental, como já foi dito, é o de <i>eu</i> <i>(ego).</i> A partir daí, é dada grande importância às <i>defesas </i>do eu, responsáveis pelas <i>resistências </i>à análise. Outra concepção imaginarizada é a ênfase dada à <i>pessoa </i>do analista, que, com sua presença no cenário analítico, desempenharia papel de relevo no processo terapêutico. Outros<span class="Apple-converted-space">  </span>termos amplamente utilizados foram abordados sobretudo pelo viés imaginário: transferência, contratransferência, fantasia, identificação, etc.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O primeiro ensino de Lacan, por seu turno, pode ser marcado com justeza como <i>uma significantização da psicanálise.</i> Darei exemplos. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O falo, concebido inicialmente como objeto imaginário, foi considerado em seguida como um significante. Num primeiro momento, como significante da castração.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">No Seminário 3, sobre “As psicoses”, Lacan avança na elucidação da operação fundamental dessa estrutura clínica. Afirma tratar-se basicamente de uma rejeição <i>(Verwerfung). </i>Mais adiante, acrescenta que se trata da exclusão de um significante primordial. Finalmente, identifica esse significante como sendo o do Nome-do-Pai. E assim, em termos de afirmação ou exclusão significantes <i>(Bejahung ou Verwerfung),</i> formaliza as operações fundamentais das três estruturas clínicas.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Vários outros conceitos são reconhecidos em sua dimensão primariamente significante. Citarei alguns: inconsciente, pulsão, desejo, fantasia, transferência, identificação, Édipo.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A certa altura, no entanto, Lacan faz uma pausa. Nem tudo é significante. Há uma exceção: o <i>objeto (a).</i> É o início da virada no seu ensino.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Prevalência do eu<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Prevalência do inconsciente</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A psicologia do ego <i>(ego psychology)</i> teve um trio fundador: Hartmann, Kris e Lowenstein. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lowenstein foi o analista de Lacan; sua análise com ele durou sete anos.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Kris foi o analista do homem dos miolos frescos, célebre caso que Lacan comenta em “A DIREÇÃO DO TRATAMENTO”.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Quanto a Hartmann&#8230; bom, Lacan morreu internado na Clínica Hartmann. Um Hartmann nada tem a ver com o outro, mas, para quem é lacaniano, estas coisas pesam&#8230;</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A psicologia do ego tornou explícita uma tendência que grassava na IPA: a de valorizar o ego e os processos conscientes em detrimento do inconsciente e da pulsão. A isso se opôs com veemência o retorno lacaniano a Freud.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O retorno à primazia do inconsciente está resumido numa frase, sobre a qual muita tinta já se gastou: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”. Inconsciente concebido não como um conteúdo, mas como uma hiância (ou um lugar), e regido por duas operações principais: a metáfora (condensação) e a metonímia (deslocamento).</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Sua expressão clínica é dada pelas formações do inconsciente: sonhos, atos falhos, chistes, sintomas.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Contratransferência<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Desejo do analista</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Entre os pós-freudianos, uma tendência assumiu importância notável: a de mudar o estatuto da contratransferência, passando a considerá-la como bússola do tratamento. Um dos expoentes dessa tendência foi Heinrich Racker. De que maneira isso aconteceria? Suponha-se que um analista fique com raiva de seu analisante. Isso seria indicativo de uma transferência agressiva. Se o analista experimenta atração sexual, isso apontaria uma transferência sedutora. Se o analista fica com sono, e ameaça dormir, é sinal de uma transferência que visa colocá-lo fora de combate.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Ou seja: a bússola do tratamento estaria baseada numa imaginarização, num espelhismo, apoiados no par transferência X contratransferência.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan faz oposição radical a essa postulação. Para ele, como para Freud, a contratransferência é, sim, uma reação à transferência, mas é algo que perturba o andamento de uma psicanálise. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">No lugar da contratransferência, como bússola da psicanálise, Lacan cunha novo conceito: o de <i>desejo do analista, </i>cujo sintagma mais próximo é <i>desejo de saber</i>. Como se vê, de novo um salto do imaginário ao simbólico. Importa assinalar que o saber que está em jogo é o saber inconsciente: quer dizer, aquele capaz de decifrar o enigma do sintoma.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Análise das resistências<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Interpretação</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Se existe a primazia do eu, se ele está no centro da análise, o principal a ser feito é trabalhar as defesas, ou seja, as resistências que ele oferece ao que está subjacente. Tal a proposta dos pós-freudianos.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan contrapõe: numa análise, a resistência não está do lado do analisante, está do lado do analista. Dizendo o mesmo em outras palavras: se o analisante resiste, ele está no seu papel; se o analista resiste, porém, está nele o entrave de uma análise. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Não é papel do analista centrar-se nas defesas. Seu papel é: <i>interpretar.</i></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">E o que é interpretar, no primeiro momento de Lacan?</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">É decifrar. É desvendar o sentido oculto do sintoma, ou da formação do inconsciente. É transpor a barra que separa o enigma do sintoma (ou o sonho) e seu sentido latente. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A interpretação pode fazer desaparecer o sintoma.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O sentido latente, porém, traz um outro significante, um novo enigma&#8230;</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Ser do analista<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Falta-de-ser do analista</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Outra tendência marcante entre os pós-freudianos: a de considerar o psicanalista como uma pessoa. Ou enquadre é de uma relação interpessoal, ou intersubjetiva. Enquadre que faz apelo a concepções humanistas, ou, na melhor das hipóteses, existencialistas. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan, quanto a isso, é rude: o que importa não é o ser do analista, mas, sim, sua falta-de-ser. Em outras palavras, o analista não deve se apresentar como pessoa; pelo contrário, deve esquivar-se disso, deve pagar com sua pessoa. Abrir um parêntesis em seu julgamento moral, em seus valores éticos, em suas preferências pessoais. Ocultar seus dados pessoais e suas inclinações políticas ou religiosas, fazendo semblante, ou transformando-se numa tela, onde será projetado o atributo da transferência.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Reeducação emocional<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Transmutação do sujeito</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Na bojo da proposta do analista como pessoa está a ideia de reeducação emocional. Ideia que concebe a análise como pedagogia. Isso tem implicações sérias. Significa admitir que uma nova relação possa corrigir os erros de uma relação pregressa. De novo, o espelhismo, ou a abordagem imaginarizada: uma ação e reação diferente pode retificar uma ação e reação problemática.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan é, decididamente, antipedagogo. Não se trata de corrigir mediante nova relação. Trata-se de interpretar e trabalhar (perlaborar). </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A reeducação emocional propõe mudança gradativa, contínua, quantitativa.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A proposta psicanalítica implica transmutação do sujeito, ou mudança subjetiva: o que exige ruptura, mudança qualitativa.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Relação de objeto<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Relação com o objeto</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Os pós-freudianos teorizam de diferentes maneiras a relação de objeto. Um ponto a ser considerado: para Freud a pulsão sexual buscaria primariamente satisfação; para alguns autores, buscaria primariamente objeto. A ênfase no objeto pode ser estendida, até conceber a psicanálise como relação simétrica, entre duas pessoas, ou entre dois sujeitos, numa interação terapêutica. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Para Lacan, o analista não é uma pessoa, nem um sujeito, é simplesmente um ator que se apaga enquanto pessoa ou enquanto sujeito. Trata-se de relação assimétrica.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Mais precisamente, o analista é ator que faz semblante (simulacro) de objeto. A relação analítica, por conseguinte, é peculiar, diferente de toda e qualquer relação existente.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Na tela dessa relação peculiar, é tecido e desenvolvido o drama da análise, sob o espectro da transferência.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Não uma relação de objeto, mas uma relação com o objeto.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Frustrar<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Sustentar a demanda</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Freud costuma dizer que uma análise se faz sob abstinência. Os pós-freudianos entenderam que os analistas devem frustrar a demanda dos analisantes. Ou seja: que uma análise deve acontecer sob atmosfera de frustração.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Houve quem discordasse. Ferenczi, por exemplo, defendeu a ideia de um papel ativo na transferência, com o analista gratificando o analisante em certos casos. Freud discordou dele, mas, posteriormente, outros pós-freudianos retomaram a proposta da postura ativa do analista (no sentido da gratificação), desenvolvendo técnicas como, por exemplo, a da maternagem. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Para Lacan, a abstinência freudiana não implicaria frustrar nem gratificar, possibilidades que se inserem, uma vez mais, numa perspectiva imaginarizada. Trata-se, isso sim, de sustentar a demanda, ou seja, de tentar elevá-la a outro patamar, que não seja o da satisfação imediata. Operação que abriria campo para a interpretação e para o trabalho da análise.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Imaginarizar o desejo<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Tomar o desejo ao pé da letra</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Na IPA, a hegemonia da psicologia do ego não foi absoluta. A psicanálise kleiniana seria um exemplo de divergência. Os kleinianos sempre privilegiaram a abordagem do inconsciente e sempre consideraram a pulsão de morte. Há, porém, um aspecto importante. Sua concepção de inconsciente é imaginarizada, assim como sua concepção de fantasia.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Embora reconheça a dimensão imaginária da fantasia e do desejo, Lacan prioriza sua dimensão simbólica. A fantasia pode ser condensada numa frase. E o desejo deve ser tomado ao pé da letra.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Todo um seminário é dedicado ao desejo e sua interpretação. A conclusão é uma frase que resume todo o percurso: o desejo é sua interpretação.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Fim de análise: </b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>Identificação com o analista<span class="Apple-converted-space">  </span>X<span class="Apple-converted-space">  </span>Identificação com o nome próprio</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan comenta que a IPA promoveu uma obsessivação do tratamento psicanalítico, ao estabelecer um <i>standard</i></span> <span class="s3">do que seria uma psicanálise propriamente dita.</span><span class="s1"> Estão predeterminados a frequência das sessões, a duração de cada sessão, o contrato analítico, os procedimentos técnicos mais importantes, a forma de terminação. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Será dado destaque a um aspecto. O final de análise é concebido como uma identificação com o analista, ou mais precisamente, uma identificação com o ego do analista, ou mais precisamente ainda, com o ego forte do analista. Como se vê, por onde quer que se caminhe reencontra-se a estrutura: imaginarização da psicanálise.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan concebe o final de análise de diferentes maneiras, ao longo de seu ensino. Em “Variantes do tratamento padrão”, texto publicado em 1955, o fim de análise é formulado como identificação com o nome próprio. Na “DIREÇÃO DO TRATAMENTO” Lacan diz que a interpretação aponta o horizonte desabitado do ser, ou o nada que é o ser (des-ser). As duas formulações não são incompatíveis, uma vez que, nesse momento em que é nítida a influência hegeliana, a palavra é tomada como a morte da coisa. Também aqui, reencontra-se a estrutura: significantização da psicanálise.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Para concluir esta parte, uma confirmação: é possível opor, passo a passo, a psicanálise lacaniana à pós-freudiana, ainda que se considere que os pós-freudianos não formam um conjunto homogêneo, mas uma colcha de retalhos.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Lacan, por sua vez, é autor complexo, que se reformula várias vezes ao longo de seu ensino. Por muitas razões, também os lacanianos se pluralizaram, também eles passaram a constituir uma colcha de retalhos.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">De vez em quando, alguém me pergunta: Será que ainda é possível, nos dias atuais, falar em psicanálise? Haveria ainda alguma consistência nesse termo? </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Tenho uma resposta. Sim, é possível. O caminho passa por um critério epistemológico e por um critério metodológico.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Critério epistemológico: só há psicanalista freudiano. Diferentes leituras, diferentes recortes, mas a base é Freud. Seu texto é, por assim dizer, a nossa Bíblia. O campo epistemológico aberto por Freud reune os psicanalistas.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Critério metodológico: a formação psicanalítica é constituída por um tripé. Em primeiro lugar, o mais importante: <i>a própria análise</i>. Em segundo lugar, <i>a formação teórica</i>, ou o que os lacanianos chamam de <i>matema.</i> E em terceiro lugar, <i>a supervisão ou controle.</i> Não há psicanálise minimamente defensável que não tenha sua formação baseada nesse tripé.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b>O percurso de uma análise</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Freud compara o percurso de uma análise a uma partida de xadrez. O início e o fim são bem definidos, mas o meio é inteiramente imprevisível, devido a um número infinito de situações possíveis.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A procura de uma análise se faz a partir de um sofrimento, o sofrimento do sintoma, também chamado de gozo do sintoma. Mas o sintoma não é só sofrimento, é também enigma; ou seja, faz questão para o sujeito, que não sabe por que sofre. <span class="Apple-converted-space">   </span></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><span class="Apple-converted-space">                                    </span><b>Gozo <span class="Apple-converted-space">   </span></b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b> Sintoma</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b><span class="Apple-converted-space">                                    </span>Enigma<span class="Apple-converted-space">                           </span></b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1">Se o interesse é apenas conseguir alívio, não há demanda de análise, há apenas demanda terapêutica. A demanda de análise ocorre quando o sujeito, mais do que alívio, quer saber sobre o sintoma.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">E mais: é preciso que o sujeito atribua ao analista um saber sobre seu sintoma, fazendo dele um sujeito suposto saber. Algo que se constata a partir do significante da transferência.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O saber de que se trata é o saber inconsciente do próprio sujeito, um saber que não se sabe. Se a notação do enigma é S</span><span class="s4"><sub>1</sub></span><span class="s1">, a notação do saber é S</span><span class="s4"><sub>2</sub></span><span class="s1">.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Situado o analista como sujeito suposto saber, a interpretação consiste numa decifração, que desvela o enigma do sintoma. Ou seja, o saber inconsciente, de modo retroativo, aponta o sentido latente do sintoma, desfazendo o enigma.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1"><b><span class="Apple-converted-space">                                        </span>Analista (SSS)</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b> Enigma (S</b></span><span class="s4"><b><sub>1</sub></b></span><span class="s1"><b>)<span class="Apple-converted-space">                                                                  </span>Interpretação (S</b></span><span class="s4"><b><sub>2</sub></b></span><span class="s1"><b>)</b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p16"><span class="s1"><b>Vinheta: </b>Uma jovem senhora é indicada por um gastrenterologista devido a náusea persistente para a qual não foi encontrada nenhuma causa orgânica. Convidada a falar, suas associações trazem um cruzeiro pelo Caribe que fez em companhia do marido. Numa das ilhas paradisíacas recebe visita de seus “pais” e de seu “irmão” americano: morou com eles durante um ano de intercâmbio cultural, quando manteve com o “irmão” um amor platônico. Na ilha, sai a sós com ele, quando então trocam declarações amorosas, abraços e beijos. Na continuação da viagem, experimenta sensações fortes e passa mal com náuseas (enjoo marítimo). Na volta a Belo Horizonte, sente ímpetos de ligar para o “irmão”, mas entra em conflito, quando se lembra do marido.</span> <span class="s1">De forma irônica, comenta: “O meu drama amoroso, doutor, é um drama bilingue”. Interpreto:<span class="Apple-converted-space">      </span>––O seu sintoma é náusea: podemos separar essa palavra em duas: NAU e SEA; o que você acha?<span class="Apple-converted-space">  </span>Ela ri e responde: “Com certeza, não há o que contestar&#8230;” O sintoma não mais retorna, após ser retroativamente ressignificado por meio da interpretação.</span></p>
<p class="p18"><span class="s1"> O enigma do sintoma, portanto, é da ordem do significante, e a decifração põe em jogo um outro significante, que estava latente no discurso do analisante. Passa-se de significante a significante: por esse motivo, é mais preciso dizer que, em vez de desaparição, há transmutação do sintoma.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O que foi trazido até agora acontece sob a égide do sujeito suposto saber, semblante (simulacro) que o analista sustenta e que prevalece no início da análise.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Até agora, a ênfase recaiu sobre o enigma do sintoma. Dirigindo o foco para o gozo, verifica-se que a mutação sintomática traz alívio, mas o gozo não se extingue, ele se desloca. Quando uma análise ultrapassa sua fase inicial, a importância do sintoma cede lugar cada vez mais à importância da fantasia. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><span class="Apple-converted-space">                                            </span><b>Analista (SSS)</b></span></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b> Gozo<span class="Apple-converted-space">  </span>do sintoma <span class="Apple-converted-space">                                                        </span>Fantasia </b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1">Em outras palavras, no início da análise está mais presente a relação do sujeito com o significante, ou a relação do sujeito com o enigma de seu sintoma, ao passo que, quando a análise avança, assume maior relevo a relação do sujeito com o objeto, ou a relação do sujeito com seu desejo e seu gozo.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Da mesma forma, se no início o analista faz semblante de suposição de saber, em etapas posteriores da análise a convocação do analista é para fazer semblante de objeto. No primeiro caso, como foi visto, a interpretação é uma decifração. E no segundo caso?</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">O analista como semblante de objeto é ator de um percurso da análise que Lacan denominou <i>travessia da fantasia,</i> que é a melhor definição do final de análise no primeiro ensino. O que é a travessia da fantasia? Questão complexa, aqui será apenas introduzida.</span></p>
<p class="p4"><strong><span class="s1"><span class="Apple-converted-space">                                  </span>Analista (a)</span></strong></p>
<p class="p4"><span class="s1"><b> Fantasia<span class="Apple-converted-space">                                                                  </span>Travessia da fantasia</b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p4"><span class="s1">Se o sintoma concerne interpretação, o mesmo não se pode dizer da fantasia. Não se interpreta a fantasia. A operação própria à fantasia é a <i>construção.</i></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">Em seu artigo “Construções em análise”, Freud faz excelente diferenciação entre uma e outra, utilizando a metáfora do arqueólogo. A interpretação é comparada ao trabalho do arqueólogo quando ele retira uma peça do soterramento. Algo que estava submerso vem então à tona, revelando um passado desaparecido. A construção, por outro lado, acontece quando o arqueólogo descobre não uma peça, mas um fragmento mínimo, um caco, e, a partir daí, é necessário o trabalho de reconstituir o objeto perdido.</span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A fantasia, por conseguinte, não é um achado, não é uma descoberta, é uma construção do analista e do analisante em torno de um vazio de sua história. Geralmente uma frase, cujo paradigma poderia ser: <i>“Uma criança está sendo espancada”.</i></span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A fantasia tem a ver com o desejo, tem a ver com o gozo. O desejo desconhece sua verdade, e o segredo da verdade do desejo é o gozo. Como esclarecer esse aspecto? Para Freud, a pulsão é sempre satisfeita. Já o desejo tem origem no <i>não,</i> numa interdição fundamental. O desejo é estruturalmente insatisfeito, mas busca satisfação, ainda que interditada. Se o desejo fosse plenamente satisfeito, equivaleria à pulsão. </span></p>
<p class="p4"><span class="s1">A fantasia é o que há de mais avançado no campo do significante em relação ao gozo. Como deslindar de forma mínima sua travessia? Trata-se, segundo Miller, de nova aliança com a pulsão. Implica necessariamente duas coisas. A primeira é o reconhecimento da perda inerente ao impossível do desejo (-</span><span class="s6">). </span><span class="s1">A segunda é o reconhecimento do ganho inerente ao possível da pulsão e sua satisfação <i>(a).</i></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p18"><span class="s1"><b>Sugestões bibliográficas:</b></span></p>
<p class="p18"><span class="s1">Jacques Lacan (1998) <i>A direção do tratamento e os princípios de seu poder (1958). In: Escritos. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. </span></p>
<p class="p18"><span class="s1">Jacques-Alain Miller (1987) <i>Duas dimensões clínicas: sintoma e fantasia. In: Percurso de Lacan.</i> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.</span></p>
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		<title>A direção do tratamento da histérica e do obsessivo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[franciscomaster]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Nov 2017 11:36:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[Seminário A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI &#160; Capítulo II A direção do tratamento da histérica e do obsessivo Vocês podem notar a mudança do título. Estava prevista uma <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-direcao-do-tratamento-da-histerica-e-do-obsessivo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A direção do tratamento da histérica e do obsessivo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Seminário</i></b></span></p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI</b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Capítulo II</i></b></span></p>
<p class="p3"><span class="s1"><b>A direção do tratamento da histérica e do obsessivo</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Vocês podem notar a mudança do título. Estava prevista uma aula sobre <i>A direção do tratamento da histérica </i>e outra aula sobre <i>A direção do tratamento do obsessivo. </i>Preferi <i>A direção do tratamento da histérica e do obsessivo, </i>com duas aulas sobre o tema.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A escolha privilegia o contraponto entre os dois tipos clínicos. Espero mostrar que há vantagens nítidas com a adoção dessa abordagem, pois um tipo clínico ajuda a esclarecer o outro. O contraponto será feito linha a linha.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Antes de entrar no tema, um comentário de ordem mais geral. Na última aula foi assinalado que a formalização psicanalítica busca uma redução a termos mínimos, e que a expressão máxima dessa redução é o matema.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>Termos fundamentais do ensino lacaniano</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Abordando a mesma questão por outro viés, é possível indagar: quais seriam os termos fundamentais do ensino lacaniano? Uma resposta: <i>sujeito, significante, objeto.</i></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><i> </i>O sujeito é o sujeito barrado (S/), ou sujeito dividido; dividido entre sua identificação com o significante e sua identificação com o objeto.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O significante tem por notação S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1">. Pode ainda ser considerada a cadeia significante, S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1"> — S</span><span class="s2"><sub>2</sub></span><span class="s1">. O conjunto dos significantes (S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1">, S</span><span class="s2"><sub>2</sub></span><span class="s1">) pode ser designado grande Outro (A). S</span><span class="s2"><sub>2</sub></span><span class="s1">, de um modo geral, corresponde ao saber inconsciente. S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1">, por seu lado, pode indicar vários conceitos do ensino lacaniano. Miller menciona dentre eles: insígnia, signo, traço unário, S(A/), nome próprio, significante fora da cadeia, 1, ideal do eu, Nome-do-Pai.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O objeto também tem desdobramentos: objeto especular (imaginário), objeto causa de desejo, objeto mais-de-gozar ou condensador de gozo, ou simplesmente objeto <i>(a).</i></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Os termos fundamentais do ensino lacaniano seriam, portanto: S/, S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1">, S</span><span class="s2"><sub>2</sub></span><span class="s1">, <i>a.</i> </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> As ideias apresentadas nesse seminário se apoiam na leitura milleriana de Lacan. Seria oportuno um comentário sobre esse ponto de vista.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Quando me decidi pela formação lacaniana, nos anos 1980, era comum a seguinte afirmação: <i>não é mais possível ler Freud sem Lacan.</i> Postulação categórica, que ressaltava a coerência e a consistência de um ensino que, à luz da linguística estrutural, privilegiava o que há de original e subversivo em Freud. Com efeito, as concepções e a linguagem lacanianas penetraram na própria IPA, de onde Lacan havia sido excomungado. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Hoje, o quadro é outro. Para resumir o cenário, reportarei ao que ouvi de uma psicanalista em Paris, numa mesa redonda, no ano 2000, época em que iniciei o que veio a ser meu último ciclo de análise lacaniana: “Estamos no espaço aberto por Freud, radicalizado por Lacan e elucidado por Miller&#8230;” Sim, Miller foi reconhecido por Lacan como aquele “ao menos um que sabe me ler”. E por testamento, foi autorizado legalmente como único responsável pelo estabelecimento dos seminários. Tarefa hercúlea, que hoje está completada. Além disso, Miller proferiu 30 cursos, ao longo de 30 anos, que estão sendo transcritos. Tudo isso nos permite concluir: <i>não é mais possível ler Lacan sem Miller.</i></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> <b>Alienação e separação</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Os termos fundamentais assinalados se destacam em várias formalizações lacanianas. Quando se observa, por exemplo, os esquemas que Miller apresenta para a <i>alienação </i>e para a <i>separação</i> — operações cruciais na constituição do sujeito — eles estão lá (“Los signos del goce”).</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Para apreender minimamente de que se trata nesse caso, pode-se partir de três conjuntos básicos: E, E’ e E’’. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">E: é o conjunto vazio, aquele que não contém nenhum elemento; como se sabe, Lacan utiliza-o para representar o sujeito. Embora o primeiro estatuto do sujeito no real é não ser nada em absoluto, se há sujeito é graças ao significante, esse significante invisível que está na própria circunferência que delimita o conjunto vazio. O segredo do <i>aqui não há nada </i>é que <i>há um lugar.</i> </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> E’: é o conjunto com um único elemento, o que em matemática se denomina com a palavra inglesa <i>singleton.</i> No caso, o único elemento é S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1">. O conjunto em questão apresenta, na verdade, um único elemento <i>mais </i>o conjunto vazio, que permanece invisível. Pode-se dizer, então, que o significante S</span><span class="s2"><sub>1</sub></span><span class="s1"> representa o sujeito S/, torna o sujeito visível, ao mesmo tempo em que o apaga. Trata-se do sujeito em sua identificação fundamental.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> E’’: é o conjunto de todos os significantes, ou seja, é o Outro. Novamente aqui é possível afirmar que se trata de todos os significantes <i>mais</i> o conjunto vazio, invisível.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Com a união (termo da teoria dos conjuntos) de E’ com E’’ obtém-se esquema representativo da alienação:</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Grafia que torna visível espaço vazio, antes imperceptível. Nele, é possível isolar a função S/ e completar o esquema da alienação.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Com a intersecção (também termo da teoria dos conjuntos) de E com E’’ obtém-se esquema representativo da separação. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1">A intersecção torna visível a falta presente no conjunto E’’. A lúnula é um tipo de falta que resulta da falta subjetiva e da falta do Outro, produzindo uma positivação que pode ser chamada de objeto <i>a.</i> O esquema da separação completo fica como se segue.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Existem, desse modo, duas formas de subjetivação. Numa, a alienação, há uma subjetivação mediante representação pelo significante mestre. Na outra, a separação, há subjetivação mediante a fantasia.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> <b>Os discursos</b></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Os quatro termos fundamentais estão presentes nos matemas dos discursos. Cumpre destacar, inicialmente, sua estrutura. No discurso estão presentes quatro lugares: o do agente, o da verdade, o do outro e o da produção. Esquema que poderia ser enunciado da seguinte forma: <i>um agente se dirige a um outro movido por uma verdade para obter uma produção.</i> É importante ainda considerar, na estrutura do discurso, dois campos: o campo do sujeito, constituido pelo agente e pela verdade, e o campo do Outro, constituido pelo outro e pela produção.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Lacan concebeu quatro discursos básicos, relacionados com os impossíveis freudianos. O Discurso do Mestre se relaciona com a impossibilidade de governar.<span class="Apple-converted-space">  </span>O Discurso da Universidade se relaciona com a impossibilidade de educar. O Discurso do Analista se relaciona com a impossibilidade de analisar. E Lacan acrescenta a impossibilidade de amar, relacionando-a com o Discurso da Histérica. Os matemas dos quatro discursos se obtêm por meio de uma rotação dos quatro termos na estrutura discursiva.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Durante a presente exposição será feita uma aproximação dos dois tipos clínicos a dois discursos. A histeria, obviamente, será ligada ao discurso da histérica, e a obsessão, por sua vez, será ligada ao discurso da universidade. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>Fantasia</b></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Além da abordagem pelos discursos, uma abordagem pelo viés da fantasia. A fantasia é a relação do sujeito com seu desejo e seu gozo. Existem alguns aspectos que podem marcar a fantasia da histérica ou a do obsessivo. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A histérica é um sujeito que busca a sedução, ou que se põe como objeto de desejo, mascarando a castração com seu atrativo, e dirigindo-se a um Outro que crê consistente, visando à sua capitulação. Fantasia impregnada pela questão do feminino, donde o conselho de Freud: na histeria, <i>cherchez la femme.</i></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">O obsessivo é um sujeito assombrado com a fratura do Outro, pela qual se crê responsável, e para a qual procura compensação fálica com o sacrifício de seu desejo e com oferendas sucessivas e intermináveis. <i>Tudo para o Outro, </i>propõe Lacan como lema da fantasia obsessiva.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1">São leituras possíveis, entre outras, para o que se escreve assim:</span></p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>A direção do tratamento</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A direção do tratamento da histérica e do obsessivo, por conseguinte, será abordada passo a passo, servindo um tipo clínico de contraponto para o outro. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O que até agora foi trazido sobre alienação e separação, sobre os discursos e sobre fantasia, será retomado de diferentes maneiras, e sob vários ângulos. Como se sabe, um matema permite várias leituras (mas, não, uma leitura qualquer). </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Voltando à metáfora de Freud, que compara a psicanálise a um jogo de xadrez, a presente exposição abrangerá o início e o meio do percurso. Mas, não o fim. O final de análise ficará para o segundo semestre, quando será apresentada <i>A doutrina clássica do passe </i>e, depois, <i>O passe do parlêtre.</i></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O roteiro seguirá um quadro com duas colunas e várias linhas, comentadas uma a uma. Leitura que permite organizar claramente o tema e facilitar o acesso à formalização.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> É preciso reconhecer as vantagens do método, mas, também, algumas desvantagens. A principal delas: uma visão ordenada que tangencia um real que, não obstante, é de outra ordem. Esse é um limite da própria psicanálise: abordar, pela via do simbólico, um real que lhe escapa.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Outra desvantagem: as diferenças entre histeria e obsessão não são fixas, mas, sim, mutáveis. Variam muito de um analisante para outro e também num mesmo analisante. Freud afirma ser a obsessão um dialeto da histeria. E Lacan propõe que, a rigor, só existe análise a partir do discurso da histérica. O que quer dizer, em outras palavras, que a análise do obsessivo exige dele uma histericização discursiva.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Para concluir esta parte, um porém a mais: como já foi dito, não existe fantasia específica da histeria e da obsessão, ou seja, a fantasia fundamental não se rege por padrões específicos. O que Lacan propõe como fantasia da histérica e do obsessivo são apenas apresentações iniciais frequentes em cada tipo clínico.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> <b>Sintoma</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Agora, o contraponto entre histeria e obsessão, a começar pelo sintoma.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na histeria, no que se refere ao sintoma há uma prevalência do corpo que é muito evidente. As célebres histéricas de Charcot manifestavam essa tendência de modo exuberante, a ponto de Freud definir a conversão como salto do psíquico para o somático. Outros sintomas, além da conversão, traduzem essa corporalidade, como, por exemplo, os acessos de tosse de Dora, ou as mais variadas dores que podem imitar qualquer quadro clínico, levando a histeria ao estatuto de <i>grande simuladora</i> de doenças.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na obsessão o sintoma aponta para uma prevalência do pensamento. Com efeito, os pensamentos obsessivos são particularmente frequentes. É o caso de um analisante, católico fervoroso, que pensa em gritar um palavrão em plena Missa, na hora da consagração; ou pensa em viajar na contramão numa rodovia de mão dupla, até encontrar outro carro em sentido contrário. São pensamentos que lhe causam horror, mas um obsessivo não passa ao ato. São vivências impostas desde dentro, ao contrário da xenopatia paranoica, na qual pensamentos são impostos desde fora.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Algo semelhante ao que ocorre na neurose pode ser encontrado na psicose: na esquizofrenia há prevalência do corpo, enquanto que na paranoia há prevalência do pensamento.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O sintoma histérico é da ordem da condensação, ou da metáfora. A formação de compromisso reune desejo inconsciente e exigência defensiva, que se satisfazem num só tempo. Freud cita o caso de uma histérica que pressionava o vestido contra o corpo com uma das mãos, como se quisesse manter-se coberta, ao mesmo tempo em que tentava arrancá-lo com a outra, como se quisesse se despir. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O sintoma obsessivo, por sua vez, é da ordem do deslocamento, ou da metonímia. Acontece em dois tempos. O homem dos ratos, por exemplo, na estrada onde passaria a carruagem com sua amada, chuta uma pedra que estava no meio da via, jogando-a para a beirada. Pensa então que a roda da carruagem, ao passar por cima da pedra, poderia fazê-la tombar. Vai lá, de novo, e chuta a pedra de volta para o meio da estrada. Sua ambivalência em relação à amada aparece em outra ocasião. Orando por ela, pediu aos céus: <i>que Deus a proteja.</i> Eis, porém, que se insinua de repente um <i>não: que Deus (não) a proteja. </i>Um tempo para o amor, um tempo para o ódio.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Chama a atenção, na histérica, sua indiferença em relação a seu sintoma, nomeada pelos psiquiatras clássicos <i>bela indiferença. </i>Talvez se deva ao fato de haver dupla satisfação: tanto de exigências pulsionais como de defensivas. No caso do obsessivo, o que chama a atenção é a dúvida, razão pela qual a obsessão foi chamada de <i>loucura da dúvida: </i>indício da ambivalência que marca esse tipo clínico.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> <b>Enunciação</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A histérica não fala <i>(mudinha). </i>Aparentemente, fala muito; trata-se, porém, da fala vazia, como se diz no primeiro ensino, ou do gozo do blá-blá-blá, como se diz no último ensino de Lacan. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Já o obsessivo não ouve <i>(surdinho). </i>Posição subjetiva de quem está colado no sentido imaginariamente único de seus significantes, como dono da verdade. Tudo o que escapa a essa perspectiva cai no vazio.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na histeria há predomínio da enunciação ou do dizer, sendo que o sujeito mantém distância em relação a seus enunciados ou seus ditos. Por exemplo: quando o analista pontua um significante de sua fala, ela refuta, como se estivesse diante de um significante da fala do analista. Uma analisante aponta o marido como o causador de seus males: bebedor, gastador, mulherengo e ai deles se não fosse ela para buscar dinheiro com o pai para bancar as coisas. —Você banca as coisas, pontuou o analista. —A opinião é sua e não minha, retrucou a analisante.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> No caso do obsessivo, a proximidade do sujeito com seus enunciados é tamanha que ele se confunde com seus ditos. Falar de seus termos é falar dele. Quem é que gosta de levar vantagem? É claro que é o Gerson.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>Campo do sujeito</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>O campo do sujeito, no caso da histérica, é marcado pela falta, pelo desejo, pela fantasia.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na neurose, a castração está inscrita, registrada, mas dela o sujeito não quer saber, e vacila entre acreditar nela ou não. Cada tipo clínico elege uma estratégia para lidar com a vacilação.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A histérica procura resolver sua hesitação pela exacerbação da falta. Um exemplo seria o rosário hipocondríaco com o qual tenta atrair ou desafiar o Outro. A falta pode manifestar-se em outros casos como insatisfação, como reivindicação. Ou de forma sedutora, como objeto de desejo, numa versão erotizada. Além disso, o campo do sujeito é prenhe de fantasia, de situações triangulares, de figurações gozosas.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">O obsessivo enfrenta a vacilação com a obturação da falta, tanto a subjetiva como a do Outro. A oblatividade, o servilismo e o espírito reparador apontam nesse sentido. Não obstante, a dúvida com frequência o atormenta, fazendo-o empenhar-se em ritos de certificação ou exconjuratórios. O fantasma da culpa e da dívida levam ao exagero em termos de expiação, tanto que Freud comparou a neurose obsessiva a uma religião individual.<span class="Apple-converted-space">   </span></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Campo do Outro</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1">O campo do sujeito está marcado pela falta, mas a histérica acredita na consistência ou na completude do Outro. E corteja a figura do Mestre, tal como a mariposa gira em torno da lâmpada, ao mesmo tempo em que busca destitui-lo. Exemplo típico é o que se verifica entre a histérica e o médico: cortejamento, sedução e interpelação. Não por acaso a psicanálise começou com elas, com a produção de um saber sobre o sintoma.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Para Lacan, o que está mais próximo do discurso da ciência é o discurso da histérica.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">No caso do obsessivo, o campo do Outro é que está marcado pela falta, e o que é mais: o sujeito se responsabiliza por isso. Ambivalência: o sujeito é hostil ao Outro, quer destruí-lo, mas precisa do Outro para existir. O obsessivo põe-se então a trabalho para repará-lo, para reconduzi-lo, tarefa que tem como resultado a produção de um novo sujeito.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Por tudo o que foi dito, é possível concluir: o sujeito da histérica simula o Outro do obsessivo e o sujeito do obsessivo simula o Outro da histérica. O que predispõe ao casamento da histérica com o obsessivo, com bodas que frequentemente acontecem na vida real.<span class="Apple-converted-space">   </span></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"><span class="Apple-converted-space">            </span></span></p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>QUADRO II</b></span></p>
<table class="t1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>HISTERIA</b></span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>OBSESSÃO</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sintoma: prevalência do corpo</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sintoma: prevalência do pensamento</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sintoma: metafórico</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sintoma: metonímico</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Indiferença</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Dúvida</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">A histérica não fala (mudinha)</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O obsessivo não ouve (surdinho)</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td3" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Predomínio da enunciação (dizer):</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">distância do sujeito</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">em relação a seus ditos</span></p>
</td>
<td class="td4" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Desfile de enunciados (ditos)</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">com os quais o sujeito se confunde</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td5" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Campo do sujeito:</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">marcado pela falta,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">pela fantasia,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">pelo desejo</span></p>
</td>
<td class="td6" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Campo do sujeito:</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">nenhuma falta,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">duplo registro significante,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">desabitado pelo desejo</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td7" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Campo do Outro:</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">pleno sentido,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">deserto de desejo</span></p>
</td>
<td class="td8" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Campo do Outro:</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">puro desejo,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">sem inscrição significante</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sujeito e Outro</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">em seus próprios campos</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Sujeito no campo do Outro</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">e Outro no campo do sujeito</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O sujeito da histérica</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">simula o Outro do obsessivo</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O sujeito do obsessivo</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">simula o Outro da histérica</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O sujeito corteja o mestre</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">para em seguida destituí-lo</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O sujeito destroi o Outro</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">Para em seguida reconstruí-lo</span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Fantasia</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Focalizando agora com mais detalhes a questão da fantasia, observa-se, de início, que a rigor não existe fantasia fundamental própria de cada tipo clínico, apenas algumas apresentações mais frequentes.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Na histeria, é comum os seios e o olhar como objeto <i>a, </i>assim como o devorar como finalidade. O sujeito se apresenta como objeto de desejo numa posição sedutora, mas se furta quando a sedução está prestes a se consumar: a histérica quer desejar, não quer gozar; desejo insatisfeito. A questão do feminino está presente como pano de fundo: O que é uma mulher? Problematização da sexualidade tão frequente que levou Freud a propor: na histeria, <i>cherchez la femme. </i></span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Na obsessão, predomina como objeto as fezes e a voz, e como finalidade o colecionar. O campo do sujeito está marcado pelo significante e quando o objeto se oferece encontra retração; ou então, há gozo sem vigor de desejo, que se mostra como desejo impossível. A problematização é da existência e do masculino, e a pergunta que paira é: O que é um pai?</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>QUADRO III</b></span></p>
<table class="t1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="td11" valign="top">
<p class="p1"><span class="s1"><b>HISTERIA</b></span></p>
</td>
<td class="td12" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><b>OBSESSÃO</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Fuga da vacilação</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">pela exacerbação da falta</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Fuga da vacilação</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">pela obliteração da falta</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Enquanto objeto de desejo</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">seduz e depois se furta</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Quando o objeto se oferece</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">o desejo se retrai</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">A histérica quer desejar,</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">não quer gozar</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O obsessivo quer gozar</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">sem vigor de desejo</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Desejo insatisfeito</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Desejo impossível</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td13" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Objeto: olhar, seio</span></p>
</td>
<td class="td14" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Objeto: fezes, voz</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Devorar</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Colecionar</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Impossiblidade de amar</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Impossibilidade de saber</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Pergunta sobre a sexualidade</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">(masculino e feminino)</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Pergunta sobre a existência</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">(morte)</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td9" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Problematização do feminino</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">(O que é uma mulher?)</span></p>
</td>
<td class="td10" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Problematização do masculino</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">(O que é um pai?)</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td1" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1"><i>Cherchez la femme</i></span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">Tudo para o Outro</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td7" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O outro é o Senhor interpelado</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">e um saber que não se sabe</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">cai como produto</span></p>
</td>
<td class="td8" valign="top">
<p class="p11"><span class="s1">O outro é o objeto</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">e o sujeito</span></p>
<p class="p11"><span class="s1">cai como produto</span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Bibliografia sugerida:</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Miller, J.-A. (1998) <i>El tempo del análisis. In: Los signos del goce. </i>Buenos Aires: Paidós.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Miller, J.-A. <i>O sintoma e o cometa. In: Opção Laniana nº 19. </i>São Paulo: Eólia, agosto 1997.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Miller, J.-A. (2007) <i>Seminário sobre las vías de formación de los sintomas. In: Introducción a la Clínica Lacaniana. Conferências en España. </i>Barcelona: Escuela Laniana de Psicoanálisis.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Miller, J.-A. (1998) <i>O osso de uma análise. </i>Salvador: Escola Brasileira de Psicanálise – Bahia.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Barreto, F. P. (2016) <i>O casamento da histérica com o obsessivo. In: O bem-estar na civilização. </i> Curitiba: Editora CRV.</span></p>
]]></content:encoded>
					
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			</item>
		<item>
		<title>A direção do tratamento do psicótico</title>
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		<dc:creator><![CDATA[franciscomaster]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Nov 2017 11:37:56 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Clínica]]></category>
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					<description><![CDATA[Seminário A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI &#160; Capítulo III A direção do tratamento do psicótico Os princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-direcao-do-tratamento-do-psicotico/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A direção do tratamento do psicótico</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Seminário</i></b></span></p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>A DIREÇÃO DO TRATAMENTO NO SÉCULO XXI</b></span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><b><i>Capítulo III</i></b></span></p>
<p class="p3"><span class="s1"><b>A direção do tratamento do psicótico</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Os princípios que regem o tratamento da psicose não são os mesmos que regem o tratamento da neurose. O breve levantamento que será feito tomará como bússola a psicanálise de orientação lacaniana.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A experiência tem demonstrado que existem casos que caminham bem com o tratamento psicanalítico, existem casos que caminham melhor com outros tratamentos, existem casos que requerem tratamentos combinados e existem aqueles que desafiam todos os tratamentos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 1. <b>O matema do tratamento do psicótico</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A linguagem é a matriz de todos os casos: quanto a isso, não há diferença entre neurose, perversão e psicose. O lugar do Outro está lá, antes mesmo do sujeito nascer. O sujeito, na definição lacaniana, é um efeito do significante. Antes que ele fale, ele é falado por esse Outro pré-histórico.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Dois aspectos são fundamentais: o sujeito como ser falante é uma criação significante (1) que surge de seu estatuto primeiro de objeto (2). Na psicose, por não se introduzir a função da castração, temos um sujeito que resiste à falta-de-ser, que resiste à barra, um sujeito-objeto, a-sujeitado ao Outro.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Pode-se dizer que o paranoico fica detido no estádio do “isso fala dele”, e fala de modo desagradável, enquanto que para o esquizofrênico prevalece o “isso não fala dele”, alusão ao filho no ventre da mãe como um pedaço-de-real .</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Miller discorre sobre o tratamento do psicótico a partir do seguinte matema:</span></p>
<p class="p8"><span class="s1"><b><span class="Apple-converted-space">        </span>a<span class="Apple-converted-space">    </span></b></span><span class="s4"><b>↓</b></span></p>
<p class="p9"><span class="s1"><b><span class="Apple-converted-space">                                                                  </span>$</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O tratamento partiria da posição do psicótico como objeto e conduziria aos confins da produção do sujeito .</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 2. <b>A posição de escuta</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Um primeiro aspecto a ser destacado é a posição de escuta do analista em relação ao psicótico. Há em jogo vários aspectos importantes a serem examinados.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Pelo simples fato de falar, o psicótico se põe como sujeito; e o analista, polo de endereçamento, se põe como Outro. Enquadramento simbólico que reverte a tendência da psiquiatria a tratar o psicótico como objeto.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A fala não só dá ao psicótico a condição de sujeito como representa certo acesso ao simbólico, num duplo trajeto: aquele que fala também se escuta. E aquele que fala, de algum modo denota e metaforiza.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Não se trata de uma escuta qualquer: os psiquiatras clássicos também escutavam seus loucos, mas como objetos de seu esforço descritivo e classificatório. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Trata-se de uma escuta analítica, que procura apreender a fala do psicótico não para atribuir-lhe sentido ou compreensão, mas para “tomar ao pé da letra o que ele nos conta”, acolhendo-a como algo específico e próprio daquele sujeito. Lacan propôs o analista em posição de testemunho, como secretário do alienado .</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 3. <b>A interpelação do sujeito</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Há uma tendência do psicótico a se por ao lado do objeto <i>a </i>e em posição de quem sabe, de quem pode enunciar um saber desconhecido sobre o Outro. O analista, por sua vez, como simulacro de objeto, sob suposição de saber, procura dividir o sujeito. Ou seja, a posição do psicótico guarda certa correspondência com a posição do analista. Como contornar o obstáculo?</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Outra possibilidade a ser considerada é a tendência do psicótico, frequente nos relatos por ele trazidos, a se colocar como objeto de gozo do Outro. O paradigma é Schreber. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Tanto num caso como no outro uma intervenção pode ser a interpelação do psicótico como sujeito, que deve, no entanto, obedecer ao cálculo da clínica.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Trata-se de algo que está próximo ao que Laurent propôs com a fórmula “tocar o sujeito no doente”.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Uma das estratégias para tratar o psicótico que se apresenta em condição de objeto consiste, portanto, em interpelá-lo como sujeito.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O simples convite à fala já constitui um movimento nesse sentido, pois aquele que fala está no lugar do sujeito que se dirige ao Outro da escuta. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Como toda intervenção, a interpelação deve ser feita sob transferência, e inclui todas as modalidades de convocação, implicação ou responsabilização do psicótico como sujeito, visando balançar seu assujeitamento ao Outro. </span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta. </i>Um paranóico apresenta delírio erotomaníaco recorrente. Cada vez que se propõe a trabalhar, seja num estágio ou mesmo numa oportunidade de emprego, aparece uma moça que dá indicações de querer seduzi-lo ou assediá-lo, ou de querer “ficar” com ele, ainda que não exista, de sua parte, nenhum interesse nisso, nenhuma atração sexual pela moça em questão. É algo tão forte que faz com perca noites de sono, ou que pense seriamente em abandonar o local de trabalho. Houve, aqui, uma intervenção fundamental:</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"> —Você não deve ficar com quem você não quer. </span></p>
<p class="p10"><span class="s1">Intervenção que surtiu efeito: há mais de seis anos ele trabalha num emprego público conseguido mediante concurso.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 4. <b>O tratamento (retificação) do Outro</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Lacan diz que “o estado do sujeito S (neurose ou psicose) depende do que se desenrola no Outro A” . Na psicose, o que se tem? Um Outro sem lei, um Outro intrusivo, um Outro gozador. Na paranoia, por exemplo, o Outro se apresenta subjetivado — perseguidor ou erotomaníaco — e o psicótico como objeto desse gozo. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Uma solução adotada é o delírio, construção simbólica e imaginária que reorganiza o mundo do psicótico. Na verdade, não só do psicótico; existem inúmeras construções filosóficas, religiosas e políticas que constituem delírios coletivos, com função organizadora dos grupos que as comungam. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na maioria das vezes, porém, os delírios infligem pesado sofrimento ao psicótico, principalmente no caso de delírios alucinatórios.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O tratamento do Outro visa flexibilizar o poder absoluto, ou a omnisciência, ou a perfeição atribuída ao Outro. O que se busca é “uma outra Alteridade que seja alternativa ao Outro primordial do sujeito” .</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Não se trata de refutar, mas de afrouxar seu sistema de crenças, ou de balançar a onipotência do Outro, que é, na psicose, estruturalmente tirânico, torturador, mortífero. Um dos objetivos do tratamento poderia assim ser definido: contribuir para criar um outro Outro (não confundir com Outro do Outro). </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A própria manobra da transferência poderia ser citada como uma estratégia que concorre para isso. Mas existem intervenções que tem efeitos quando se procura uma retificação do Outro.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta. </i>Colette Soler cita o caso de uma psicótica em análise que, em pânico frente aos propósitos de seu perseguidor, entra em crise com pensamentos suicidas, fazendo crer que não haveria alternativa a não ser uma hospitalização. Uma intervenção da analista, porém tem efeito apaziguador: </span></p>
<p class="p11"><span class="s1">—Ele não tem esse direito. </span></p>
<p class="p11"><span class="s1">Palavras portadoras de um limite a respeito das pretensões do Outro sobre sua vida.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>5. O benefício da dúvida </b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O neurótico acredita no Outro, mas vacila, porque na neurose o Outro é barrado. Pode-se dizer que a neurose é da ordem da dúvida.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> A psicose, por seu turno, é da ordem da certeza. O Outro não é barrado; o psicótico não acredita, ele tem certeza da existência do Outro.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na psicose, o vigor da certeza está presente tanto em relação ao Outro do delírio como em relação ao real da alucinação.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> É claro que, quando se trata de perseguição atroz, de erotomania mortífera ou de alucinações com vozes de comando assassinas, isso traz sofrimento lancinante para o psicótico.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> É nesse contexto que se torna oportuno o ditame ético de Lacan: onde houver certeza, introduzir o benefício da dúvida.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">A certeza psicótica aparece, como foi visto, em duas situações principais: diante do Outro do delírio e diante do real da alucinação. Em ambos os casos pode estar associada a angústia dilacerante ou a passagens ao ato. O analista, sob transferência, pode contribuir para atenuar o quadro, introduzindo o benefício da dúvida.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta. </i>Uma analista sob supervisão atende a um esquizofrênico internado numa unidade psiquiátrica devido a sérias agressões cometidas contra sua mãe. Na unidade de internação, novas agressões acontecem contra outro paciente e contra uma atendente. Ao falar sobre elas, ele se queixa de vozes de comando com autoridade inexorável, que lhe ordenam agredir ou até mesmo matar certas pessoas que cruzam o seu caminho. A analista intervém:</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"> —Por que motivo você acha que tem que obedecer a essas vozes?</span></p>
<p class="p10"><span class="s1">Intervenção que foi feita várias vezes em diferentes situações e com diferentes termos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> 6. A extração do objeto <i>a</i></b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A angústia na neurose é angústia de castração, angústia relacionada à falta.</span></p>
<p class="p13"><span class="s5"> Na psicose, por outro lado, a angústia surge</span><span class="s1"> quando a falta vem a faltar, ou seja, quando há objeto, quando há objeto demais .</span></p>
<p class="p13"><span class="s1"> Em outros termos, na psicose não há extração do objeto <i>a. </i>O psicótico não se separou de seu objeto <i>a, </i>guarda-o no bolso, conforme diz Lacan.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Para Lacan, ainda, “o campo da realidade se sustenta apenas pela extração do objeto <i>a” .</i> Ou seja, é a extração do objeto <i>a</i> que fornece o enquadramento, ou a janela na qual a realidade toma sua significação para nós. A extração do objeto <i>a, </i>além disso, está correlacionada à própria produção do sujeito.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Miller afirma: “A morte do sujeito na psicose é o que se produz quando o objeto <i>a</i> não é extraido do campo” .</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Mais adiante, ao conjecturar sobre preliminares ao tratamento da psicose, Miller indaga: “Extrair o objeto <i>a</i> é a fórmula para isso?”<span class="Apple-converted-space">  </span>É preciso observar que tal proposta não anula o matema do tratamento do psicótico, pois a extração do objeto é correlativa da produção do sujeito. Miller termina concluindo que a extração do objeto <i>a</i> é apenas um outro nome da castração.</span></p>
<p class="p15"><span class="s1">A angústia na psicose, portanto, tem a ver com a falta da falta, com o objeto demasiadamente presente. Para sair dela, existem diferentes caminhos, como a extração do objeto pela via do significante. É possível, ainda, num curto-circuito, realizar uma passagem ao ato, tal como uma agressão, uma automutilação ou uma tentativa de suicídio.</span></p>
<p class="p11"><span class="s1"><i>Vinhetas.</i>Existem várias vias para a extração do objeto <i>a.</i></span></p>
<p class="p10"><span class="s1">1) Pela via da passagem ao ato. Pode-se citar, aqui, o caso de Van Gogh, que num momento de crise cortou a própria orelha, e o caso Aimée, que com uma navalha agrediu a uma atriz, como exemplos ocorridos fora do tratamento. Dentro do tratamento, pode-se evocar uma psiquiatra que atendia um psicótico num CERSAM de Belo Horizonte, e que teve seu carro <i>riscado </i>pelo paciente. Em todos esses casos, após a passagem ao ato sobreveio certa estabilização.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1">2) Pela via da alucinação. É o célebre exemplo do Homem dos Lobos.“Quando eu tinha cinco anos, estava brincando no jardim, perto da babá, fazendo cortes com meu canivete na casca de uma das nogueiras que aparecem em meu sonho também. De repente, para meu inexprimível terror, notei ter cortado fora o dedo mínimo da mão (direita ou esquerda?), de modo que ele se achava dependurado, preso apenas pela pele. Não senti dor, mas um grande medo. Não me atrevi a dizer nada à babá, que se encontrava a apenas alguns passos de distância, mas me deixei cair sobre o assento mais próximo e lá fiquei sentado, incapaz de dirigir outro olhar ao meu dedo. Por fim me acalmei, olhei para ele e vi que estava inteiramente ileso” .</span></p>
<p class="p10"><span class="s1">3) Pela via da palavra. Os dois casos da Convenção de Antibes, que serão apresentados em 7.6. (neotransferência), “O doutor está um caco” ou “Pareces uma lebre”, são bons exemplos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> 7. O tratamento sob transferência</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>O tratamento psicanalítico do psicótico, assim como o do neurótico, é feito sob transferência. Mas há diferenças cruciais.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na neurose, o vetor da transferência (amor, ódio) vai do sujeito ao Outro, ou do neurótico ao analista. E o saber está do lado do analista (sujeito suposto saber). Ao emprestar semblante para a suposição de saber o analista favorece a entrada em análise e o prosseguimento da experiência analítica.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A diferença começa aí. E Miller, a este respeito, é bem claro: “O paranoico só conhece o saber. Sua relação com o saber constitui seu sintoma. O que o persegue a não ser um saber que passeia pelo mundo, um saber que se faz mundo? ” Com efeito, quando o Outro se apresenta para o psicótico como o Outro do saber, ele é encontrado de forma persecutória ou erotomaníaca.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A primeira conclusão propõe que, nesse tratamento, o saber não deve ficar do lado do analista e sim do lado do psicótico.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Segunda conclusão: quando o saber fica do lado do analista, a tendência é o surgimento de transferência persecutória ou erotomaníaca. Na psicose, por conseguinte, o vetor da transferência vai do analista ao psicótico.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Quando o saber fica do lado do analista, portanto, podem manifestar-se modalidades de transferência que inviabilizam o tratamento do psicótico. Existem estratégias para evitá-lo, o que será visto da próxima vez.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Cabe a pergunta: que transferência seria adequada nesse caso?</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Uma resposta sumária: a melhor possibilidade é quando o psicótico situa, do lado do analista, o objeto ou o ideal. É o que foi nomeado <i>neotransferência.</i></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Existem várias estratégias que contribuem para lidar com a transferência do psicótico.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> 7.1. Manobra da transferência</b></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A transferência psicótica (persecutória ou erotomaníaca) é um obstáculo intransponível para o trabalho analítico que deve ser evitado a todo custo. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Lacan referiu-se à <i>manobra da transferência</i> uma única vez, na “Questão Preliminar”; mesmo assim, sem se deter sobre o tema. É preciso reunir indicações para formalizar algo a respeito. A manobra da transferência seria um modo do analista lidar com a transferência psicótica que consiste em sair do lugar persecutório ou erotomaníaco em que o psicótico o coloca, buscando um lugar vazio de gozo. Implica, portanto, não emprestar semblante às atribuições do psicótico.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta: </i>uma residente de psiquiatria sob supervisão dá continuidade ao tratamento de um paciente paranoico recebendo-o para mais uma sessão. Ouve então da parte dele o seguinte comentário.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1">—Você me atende com frequência muito maior do que outros médicos atendem seus pacientes e sempre fecha a porta&#8230; será que estaria interessada em mim como mulher?&#8230; </span></p>
<p class="p10"><span class="s1">Já orientada quanto a essa possibilidade, a residente responde prontamente:</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"> —Estou interessada em você, sim, mas meu interesse é unicamente profissional. A frequência maior é para poder ouvi-lo e a porta fechada é para não sermos interrompidos.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"> De forma ativa, portanto, a atribuição erotomaníaca foi refutada.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">A transferência erotomaníaca ou persecutória, quando muito intensa, pode dar origem a passagens ao ato que dificultam ou inviabilizam a continuação do tratamento. A agressão visaria à barração do Outro ameaçador ou então à ruptura com ele.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p12"><span class="s1"><b>7.2. Inversão da suposição de saber</b></span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Enquanto que na direção do tratamento do neurótico o analista faz semblante de suposição de saber, no caso do tratamento do psicótico a melhor estratégia é a posição de sujeito suposto não saber. </span></p>
<p class="p12"><span class="s1"> Isso se deve, em primeiro lugar, à razão mencionada anteriormente: quando o saber do inconsciente se coloca do lado do analista, há favorecimento da transferência persecutória ou erotomaníaca.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1"> Quando o psicótico atribui saber ao analista, por conseguinte, o mais prudente é proceder à inversão da suposição de saber, que deve estar do lado do psicótico.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Há uma segunda razão para a estratégia, que está em consonância com o último ensino de Lacan. Situar o saber do lado do psicótico é admitir, entre outros aspectos, que ele sabe o seu caminho, ou que ele é capaz de construi-lo. A tarefa do analista não é trazer a solução, mas entrevê-la no que lhe é apresentado.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta.</i> Um psicótico aparentemente dócil foi internado várias vezes pelo mesmo motivo: agressões físicas a seu pai, homem autoritário e de convicções rígidas. A família procurou-me após outra internação, dessa vez por agressão física ao avô paterno. Ele pouco falava sobre os motivos de suas agressões. Durante as férias do pai, ele fica hospedado na casa de um tio paterno, que se torna a nova vítima de sua agressão física. Seu pai, profundamente irado, pergunta-me sobre uma solução, uma internação de longa permanência, ou algo assim. Comento com o paciente que todas suas agressões dirigiram-se ao seu pai ou a familiares dele. E pergunto-lhe: </span></p>
<p class="p10"><span class="s1">—Você gostaria de viver na sua própria casa? </span></p>
<p class="p10"><span class="s1">A resposta foi prontamente positiva. Pondero com o pai que um pequeno apartamento é menos oneroso do que uma longa internação&#8230; E trabalho com a idéia de uma distância mais flexível entre eles. As agressões físicas cessaram.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p17"><span class="s1"><b>7.3. Dispersão da suposição de saber</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Trata-se de algo que fica bem evidenciado na <i>prática feita por muitos (pratique à plusieurs) </i>realizada numa instituição. Tal proposta tem alguns pilares. 1) Uma posição de aprendizagem em relação à clínica, o que, como foi visto, inclui uma suposição de saber do lado do psicótico. 2) Uma des-hierarquização do saber prévio, no que se refere ao coletivo institucional. 3) Uma divisão de responsabilidades. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Fica implícita uma dispersão da suposição de saber, ou uma diluição que se comporta como estratégia frente à transferência psicótica. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Algo dessa natureza pode ser constatado nos serviços da rede de saúde mental, inclusive como um recurso a mais quando o tratamento da psicose conta com uma estrutura coletiva de resposta.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 7.4. <b>Vinculo frouxo</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A foraclusão localizada que caracteriza a psicose produz um achatamento do eixo simbólico e pode produzir um alongamento do eixo imaginário. O que quer dizer que o psicótico tende a compensar o desfalque simbólico com uma hipertrofia do imaginário.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Na prática clínica há evidências nítidas do que foi dito, como, por exemplo, tendência a funcionar numa relação simétrica, de igual para igual. Tal especularidade pode ter consequências complicadoras, como o desenvolvimento de dualidade imaginária, que, no extremo, pode se converter em rivalidade delirante e mortífera.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O vínculo frouxo surge, então, como estratégia para enfrentar tal situação. Reduzir a especularidade e dar preferência a encontros breves e não muito próximos uns dos outros. Existem casos em que a estabilização alcançada permite um espaçamento gradativo das sessões, sem que o tratamento perca sua efetividade.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1"><i>Vinheta. </i>Para ressaltar a importância do vínculo frouxo, Beneti contrapõe a manutenção do tratamento num “vínculo tenso”, representado por sessões longas, frequentes e com um analista pródigo em interpretações: o que, inevitavelmente, leva a passagens ao ato. E cita o exemplo trágico e ruidoso de um analista da IPA de São Paulo, que atendia a uma paranoica recorrendo à “maternagem” (técnica de inspiração kleiniana que procura estabelecer entre o terapeuta e o paciente relação análoga à que existiria entre uma “boa mãe” e o filho). A paciente experimenta alucinações em que seu analista a abraça, a toca, etc., e sente orgasmos ao caminhar pelas ruas. Gozo insuportável, erotomaníaco, mortífero, que tem como saída o assassinato do analista. A paciente vai até o consultório e o mata a tiros de revólver, quando este a recebe ao abrir a porta.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 7.5. <b>Trivialização da transferência</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Estratégia que Miller mencionou em Angra dos Reis, numa reunião dos Institutos, em 1999, e que consiste simplesmente em não endossar a tendência de certos psicóticos de fixar-se em seus pontos deliriogênicos, perpetuando-se na sua narrativa delirante. O que se pretende é valorizar aqueles momentos de seu relato em que ele toca na realidade trivial, no dia a dia, na tentativa de trazê-lo para tais temas.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Sem bem considerada, a trivialização da transferência é algo semelhante ao que propunham os psiquiatras clássicos: evitar o delírio e trazer o alienado à “realidade”.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> 7.6. <b>Neotransferência</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>A neotransferência é a transferência que se espera no tratamento do psicótico. É a melhor resposta que se tem no momento para a cogitação de Freud sobre um novo plano mais adequado para esses casos, mencionada no início do capítulo anterior.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Como caracterizar a neotransferência?</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Um primeiro aspecto já ficou marcado: o saber está do lado do psicótico.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> E do lado do analista, o que se espera? </span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Quanto a isso, duas respostas. Embora haja tendência do psicótico a situar-se como objeto, ele pode, em certas situações, tratar o analista como objeto <i>a.</i> Outra possibilidade é o analista como ideal, ou como S</span><span class="s7"><sub>1</sub></span><span class="s1">, que põe o psicótico a trabalho, visando a uma produção que tem valor de suplência.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Finalmente, a neotransferência pode assim ser definida: como a criação e o uso de lalíngua da transferência no tratamento da psicose .</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A neotransferência é um tear onde se procura tecer o laço social, a matriz de um discurso. Além disso, a clínica tem demonstrado que, frequentemente, o estabelecimento de um vínculo (neo)transferencial possui, por si só, certa função estabilizadora. É uma constatação .</span></p>
<p class="p19"><span class="s1"><i>Vinhetas. </i>1) Na <i>Convenção de Antibes</i> alguns casos clínicos evidenciam a passagem de sujeito a objeto. Num dos exemplos, um caso de mutismo, ela se dá quando, a certa altura, o psicótico comenta ironicamente sobre o analista: “El doctor está cachuso” <i>(O doutor está um caco). </i>Noutro exemplo, a passagem se dá quando a menina psicótica insulta o analista: “Pareces uma lebre! Não gosto de vir aqui para te ver! Com teu corte de cabelo pareces uma lebre!” Este nome de animal produzia um equívoco na lalíngua com o nome do terapeuta: “Lelièvre”. Desse modo, o <i>caco</i> ou a <i>lebre</i> indicam o analista na posição de objeto (<i>a).</i></span></p>
<p class="p19"><span class="s1">2) Um paranoico, que faz tratamento psicanalítico há anos, dirige perguntas ao analista nos seguintes termos: —Que dia vai acabar a crise econômica do Brasil? Em qual concurso público eu tenho mais chances? Que dia será descoberta a cura de problema como o meu? Perguntas que são cuidadosamente devolvidas pelo analista. Um dia, ele faltou à sessão (o que é raríssimo) e no dia seguinte sua mãe telefona: —Ele disse que está cansado de tratar-se e que não quer saber mais nem de entrevistas nem de remédios. —Cansado de tratar-se ou cansado do analista?—De jeito nenhum: é Deus no céu e o senhor na terra; é questão de momento e em breve ele voltará. De fato, não demorou muito e o tratamento foi retomado. O episódio evidenciou forte laço transferencial com o analista no lugar de ideal.<span class="Apple-converted-space">   </span></span></p>
<p class="p19"><span class="s1">3) Um psicótico em tratamento num CERSAM (CAPS) de Belo Horizonte demonstra, inicialmente, desconfiança e hostilidade em relação à sua analista, que se mantém, não obstante, sua firme decisão de acolhê-lo. Certo dia, o inesperado: diz que a analista parece uma “olanzapina”, medicação antipsicótica que ele faz uso há anos, por ser distante e calada como um remédio silencioso. A partir daí, a análise avança.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>8. As bengalas imaginárias</b></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Uma clínica das suplências procura respostas para duas perguntas: (1) Como um sujeito que apresenta uma estrutura psicótica evita o desencadeamento? (2) Uma vez desencadeada uma psicose, de que modo é possível algum tipo de estabilização?</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">As suplências operam por caminhos que passam pelos três registros: imaginário, simbólico e real.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Na falta de acesso verdadeiro ao simbólico, um dos recursos do psicótico é utilizar o imaginário para a mediação com o real. Em importância, a identificação está para o psicótico assim como a metáfora para o neurótico. As identificações funcionam como <i>bengalas imaginárias,</i> fazendo o sujeito equilibrar-se como um banquinho de três pés . </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Lacan menciona o mecanismo <i>como se,</i> que Helen Deutsch destacou na sintomatologia de esquizofrênicos, e atribui-lhe valor de compensação imaginária do Édipo ausente; não da imagem paterna, mas do próprio significante do Nome-do-Pai .</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p7"><span class="s1"><b>9. A construção delirante</b></span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Quando se considera a suplência pela via do simbólico, é importante assinalar, de início, que na psicose a interpretação está do lado do psicótico, e não <i>deve </i></span><span class="s6">estar do lado do analista.</span></p>
<p class="p20"><span class="s1">Na psicose não há recalque e, como diz Lacan, o inconsciente está a céu aberto. Razão pela qual a interpretação é desnecessária. E como o inconsciente é intérprete, a interpretação fica do lado do psicótico.</span></p>
<p class="p20"><span class="s1">Mais do que desnecessária, a interpretação aqui é prejudicial: ao mobilizar aspectos pulsionais, pode desencadear uma psicose até então ordinária ou desestabilizar uma psicose desencadeada.</span></p>
<p class="p20"><span class="s1">Em vez de interpretação, construção. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Freud as diferencia de forma eloquente.<span class="Apple-converted-space">  </span>Faz comparação com o arqueólogo, que em suas escavações encontra objetos destruídos, dos quais partes importantes se perderam.<span class="Apple-converted-space">  </span>A interpretação se dirigiria ao que emerge do soterramento; a construção procuraria reconstituir o que foi perdido para sempre . Em outras palavras, a interpretação seria uma decifração, visaria o simbólico subjacente à barra do recalque.<span class="Apple-converted-space">  </span>Já a construção teria diante de si o indecifrável. Um trecho de Freud torna-se oportuno nesse instante. <span class="Apple-converted-space">   </span></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> “Os delírios dos pacientes parecem-me ser os equivalentes das construções que erguemos no decurso de um tratamento analítico —tentativas de explicação e de cura, embora seja verdade que estas, sob as condições de uma psicose, não podem mais do que substituir o fragmento de realidade que está sendo rejeitado no presente por outro fragmento que já foi rejeitado no passado&#8230; Tal como nossa construção só é eficaz porque recupera um fragmento de experiência perdida, assim também o delírio deve seu poder convincente ao elemento de verdade histórica que ele insere no lugar da realidade rejeitada” . </span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Vale lembrar novamente que toda solução psicótica pode acontecer sem o concurso de qualquer tratamento, e o que se faz é tentar, com o tratamento, favorecer as saídas que os próprios psicóticos ensinaram à psicanálise.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Assim ocorre também com a construção. O exemplo paradigmático é o de Schreber, que, com sua construção delirante, alcançou relativa estabilização, reconstruindo seu mundo por meio da metáfora delirante “Mulher-de-Deus”.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Não é o analista que escolhe o caminho, mas o psicótico. Não obstante, quando a construção tem lugar, a escuta analítica e algumas pontuações ou comentários podem facilitá-la, contribuindo para amenizar a angústia e moderar o gozo.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">A relutância do psicótico em aceitar o tratamento analítico frequentemente é apenas um dado inicial. O que se verifica na maioria das vezes é a dedicada e assídua participação nas sessões, em tratamentos que podem se prolongar e que constituem, por si só, fator de estabilização.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"> <b>10. O tratamento do real pelo real</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b> </b>Há algo comum em todos os casos paradigmáticos de psicose estudados pela psicanálise. Suas soluções são autoconstruidas.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O primeiro paradigma é Schreber, cuja estabilização foi conseguida pela construção de uma metáfora delirante. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Serão consideradas, a partir de agora, as suplências que se verificam por meio do tratamento do real pelo real. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">A primeira possibilidade a ser mencionada são casos de passagens ao ato. Para a psiquiatria, <i>delírio, passagem ao ato e sintoma</i> fazem parte da doença. Para a psicanálise, não é necessariamente assim. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1"> No caso de Aimée, por exemplo, após uma passagem ao ato ocorreu sua estabilização, que prevaleceu até o fim de sua vida. Aimée foi governanta do pai de Lacan e mãe de Didieu Anzieu, psicanalista analisado por Lacan, que não o reconheceu como filho de sua ex-paciente . </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Outra maneira de tratar o real pelo real é a <i>obra: </i>dar à luz, <i>ex-nihilo, </i>a partir do nada, a um objeto novo, sem precedentes, objeto que se impõe como real, como produto de uma operação sobre o real do gozo não aprisionado nas redes de linguagem . Entre os numerosos exemplos estão obras pictóricas (Van Gogh), filosóficas (Rousseau), literárias (Hölderlin). No Brasil, o nome mais importante é Artur Bispo do Rosário.</span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Um caso excepcional é o de Joyce: embora a literatura esteja no registro do simbólico, ele assassina o sentido, passa ao real. Sua obra, quanto a isso, é única. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Para Lacan, no caso de Joyce, o desencadeamento teria sido evitado pela construção de um sintoma, o que o elevou à dignidade de um paradigma. O sintoma joyceano, enquanto nome de gozo, é mais uma solução autoconstruida, mais uma forma de tratamento do real pelo real. </span></p>
<p class="p7"><span class="s1">Se no primeiro Lacan temos aplicação da psicanálise à psicose, o último Lacan aprendeu tanto com Joyce que se pode falar em aplicação da psicose à psicanálise. E enquanto o primeiro Lacan pergunta: como alguém se torna louco?, o último Lacan indaga: como alguém pode não se tornar louco?</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> Para a psiquiatria, a solução está do lado do psiquiatra, do saber da ciência. Para a psicanálise, a solução está do lado do psicótico. Ela aposta no saber do psicótico. O que poderia ser formulado assim: o psicótico sabe o seu caminho.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"> O tratamento psicanalítico da psicose inclui, assim, a construção de um sintoma a partir do trabalho com o que ele traz, sintoma capaz de organizar minimamente seu mundo e regular minimamente seu gozo.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Na Conversação de Arcachon Miller afirma que a segunda clínica de Lacan tem uma equação fundamental: NP ≡ Σ. Ou seja, o sinthoma é equivalente ao Nome-do-Pai.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Em que consiste o sinthoma joyceano? </span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Em primeiro lugar, é um <i>nome. </i>Alusão ao renome que Joyce tanto buscou, escrevendo para “ocupar os críticos durante trezentos anos”, “único meio de assegurar a imortalidade” . Com efeito, Lacan identificou em Joyce uma demissão paterna, uma <i>Verwerfung</i> de fato, e o renome almejado fez a compensação da carência paterna. O nome, ou o sinthoma, constituiu suplência do Nome-do-Pai ausente.</span></p>
<p class="p12"><span class="s1">Em segundo lugar, o sinthoma é uma forma de gozar do corpo e do inconsciente. Não há como interpretar, não há como analisar os escritos de Joyce: só se pode captar o gozo de quem o escreveu. Joyce encarna o sinthoma, ele é o sinthoma, nessa pulverização gozosa da língua que marca o corpo e em que o sentido se esfuma .</span></p>
<p class="p21"><span class="s1"><i>Vinheta.</i> Um psicótico é acolhido num serviço de saúde mental de nossa rede para um tratamento psicanalítico que durou vários anos (citado no item 1.6.3). Em seu curso houve uma mudança crucial que aqui será resumida. Movido pelo empuxo à mulher, o psicótico adotou identificação feminina, inclusive nome feminino. Ao mesmo tempo, com seu novo nome passou a produzir sua obra, obra escrita, escrita na sua lalíngua. Com isso, alcançou estabilização expressiva e mais do que isso: com seu nome de gozo obteve reconhecimento em sua comunidade e construiu interessante laço social. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Bibliografia sugerida</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Leitura resumida:</b></span></p>
<p class="p23"><span class="s1">Miller, J.A. (1996) <i>Produzir o sujeito? In: Matemas I. </i>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor</span><span class="s8">.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Barreto, F. P. (1999) <i>O tratamento psicanalítico do psicótico: aproximações. In: Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, p. 131-160. </i>Belo Horizonte: Itatiaia.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Barreto, F. P. (2010) <i>Transferência e psicose. In: Ensaios de psicanálise e saúde mental, p. 297-304. </i>Belo Horizonte: Scriptum.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>Leitura avançada:</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Soler, C. (1992) <i>Estudios sobre las psicosis.</i> Buenos Aires: Manantial.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Laurent, E. (1989)<span class="Apple-converted-space">  </span><i>Estabilizaciones en las psicosis.</i> Buenos Aires: Manantial.</span></p>
<p class="p25">
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