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	<title>Psicanálise: Matemas | Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
	<lastBuildDate>Tue, 05 Nov 2024 15:52:17 +0000</lastBuildDate>
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		<title>Os efeitos da ciência sobre o corpo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 05 Nov 2024 12:00:47 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Matemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Os efeitos da ciência sobre o corpo[1] (O corpo-máquina da medicina, o corpo neuronal da psiquiatria biológica, o corpo remodelado da medicina plástica)   A psicanálise é a última flor <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/os-efeitos-da-ciencia-sobre-o-corpo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Os efeitos da ciência sobre o corpo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Os efeitos da ciência sobre o corpo<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a></strong></p>
<p><strong><em>(O corpo-máquina da medicina, </em></strong></p>
<p><strong><em>o corpo neuronal da psiquiatria biológica,</em></strong></p>
<p><strong><em>o corpo remodelado da medicina plástica)</em></strong></p>
<p><em> </em></p>
<p>A psicanálise é a última flor da medicina.</p>
<p>Jacques Lacan<a href="#_edn2" name="_ednref2">[2]</a></p>
<p><em> </em></p>
<p><em>            </em>Os efeitos da ciência sobre o corpo: eis um tema que pode ser abordado por diferentes caminhos. A medicina, prática social que cuida do corpo enfermo, é um dos principais.</p>
<p>Hipócrates, que viveu de 460 a 370 a.C., é considerado o pai da medicina. Trata-se, por conseguinte, de uma tradição de mais de dois mil anos. Seu ingresso na era científica, porém, foi relativamente tardio, devido a obstáculos ao estudo científico do corpo. Um exemplo foi a proibição, por muito tempo, do exame e investigação dos cadáveres. A transição começou na segunda metade do século XVIII e foi concluída na primeira metade do século XX: quase dois séculos de duração. E tudo pode ser resumido da seguinte forma: o estabelecimento do normal e do patológico em bases clínicas, anatômicas e fisiológicas.</p>
<p>Uma grande transformação, com duas mudanças fundamentais: no papel do médico e na concepção de corpo.</p>
<p>Em <em>Psicanálise e Medicina,</em> Lacan comenta que, quando se considera a história da medicina, constata-se que o grande médico, o médico padrão, era um homem de prestígio e autoridade.  O que acontece entre médico e paciente, ilustrado agora pelo aforismo de Balint ––o médico, ao receitar, receita a si próprio–– sempre aconteceu: assim, por exemplo, o imperador Marco Aurélio convocava Galeno para que esse lhe vertesse com suas próprias mãos a teriaga (xarope que se presumia eficaz contra picadas de animais peçonhentos).<a href="#_edn3" name="_ednref3">[3]</a> Está implícito o que a psicanálise descobriu e nomeou com o termo <em>transferência,</em> chave do poder do médico na era pré-científica. Hoje se sabe que os procedimentos desse longo período mais agravavam do que sanavam as moléstias.  <em> </em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O corpo-máquina</strong></p>
<p>Para entender a mudança no papel do médico é preciso conhecer, primeiro, o grande salto na concepção de corpo: uma perspectiva que caminha para situá-lo de forma a ser inteiramente fotografado, radiografado, calibrado, diagramado e condicionado.<a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a> O corpo passou a ser considerado um sistema homeostático, em sua pura presença animal, o que já foi chamado com justeza de <em>corpo-máquina. </em>A medicina sabe cada vez mais sobre partes cada vez menores desse corpo-máquina, cujas leis e funcionamento vêm sendo desvendados de forma minuciosa e precisa. No final do século XX, o progresso exponencial dos recursos tecnológicos permitiu uma dissecção virtual <em>in vivo,</em> que, além do mais, mudou o recorte do corpo. Houve uma fragmentação, um estilhaçamento produzido pelo discurso científico. O avanço do conhecimento foi tamanho, que só cabe a cada um o estudo e o domínio de um pequeno fragmento desse corpo.</p>
<p>Tudo está de acordo com o princípio segundo o qual há saber no corpo, assim como há saber no real da ciência. Dizendo em outros termos: seu funcionamento se faz segundo leis rigorosamente definidas, na sequência lógica de causa e efeito, e de maneira tal que é possível descobrir e elucidar as suas ocorrências. O corpo, portanto, está concebido como máquina complexa destinada a ser inteiramente desvendada e explicada. Nenhum mistério ficaria de pé, pois, como afirmou Einstein no célebre debate com Bohr, nos anos 1930, “Deus não joga dados”, quer dizer, o acaso não rege o universo.</p>
<p>A medicina contemporânea adotou, enquanto prática social, a concepção de <em>corpo-máquina, </em>o que resultou em mudanças substanciais no papel do médico.</p>
<p>Muito distante daquele personagem da era pré-científica, o médico de hoje caminha para tornar-se, se já não se tornou, um técnico. Cada vez mais, é um especialista, num sistema que se equilibra criando o lugar do generalista. <em>Generalista, </em>que é diferente de <em>clínico geral.</em> A diferença está na eliminação do <em>clínico.</em> Com efeito, estaríamos num tempo em que não haveria mais lugar para a clínica? Em que se procuraria, mais e mais, uma relação direta entre os sintomas e seu substrato biológico, ou entre a disfunção e o defeito na máquina? Tal modelo, por si só, define a exclusão da subjetividade, tanto do médico como do paciente.</p>
<p>Para concluir esta parte: de acordo com Lacan, não foi por acaso que o nascimento da psicanálise coincidiu com o ingresso da medicina na era científica.<a href="#_edn5" name="_ednref5">[5]</a> O campo freudiano é, precisamente, o campo do desejo e do gozo. A psicanálise trabalha, desse modo, com aquilo que a medicina deixou de lado na sua evolução, ao criar uma nova concepção de corpo.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O corpo neuronal</strong></p>
<p>O nascimento da clínica médica foi imediatamente seguido pelo surgimento da clínica psiquiátrica. Pinel, o principal inventor do método clínico,<a href="#_edn6" name="_ednref6">[6]</a> foi também o fundador da psiquiatria. No início do século XX, porém, enquanto a medicina concluía seu ingresso na era científica em sólidas bases biológicas (clínicas, anatômicas e fisiológicas), o mesmo não ocorria com a psiquiatria. Sua inserção no método anatomoclínico era discreta. E, dada a natureza de seu objeto, ela constituiu-se como disciplina híbrida,<a href="#_edn7" name="_ednref7">[7]</a> reunindo subsídios da medicina, de um lado, e, de outro, conforme a escola, contribuições da fenomenologia husserliana, do existencialismo heideggeriano ou da psicanálise freudiana, contribuições estas destinadas ao estudo da subjetividade dos pacientes.</p>
<p>Tal quadro prevaleceu na primeira metade do século passado. Na segunda metade, uma reviravolta. Com o avanço das neurociências, surge uma nova tendência, baseada na concepção de que o psiquismo duplica o cérebro, ou seja, o psíquico como duplo do cerebral; sendo assim, o que se localiza como atividade cerebral, vale, <em>ipso facto, </em>para o psiquismo.<a href="#_edn8" name="_ednref8">[8]</a> Seria uma versão extremada e particular do <em>corpo-máquina:</em> o cérebro como um computador supercomplexo, e a vivência humana como um semblante de sua atividade. Nesse contexto, toda doença mental seria uma perturbação no funcionamento da supermáquina, e todo tratamento uma correção do defeito. A essa versão especial do corpo-máquina pode-se denominar <em>corpo neuronal.</em></p>
<p>No extremo, há uma redução de toda vivência humana, ou mesmo de toda experiência existencial, a um fato cerebral. Nada escapa a tal sina determinista, nem mesmo expressões complexas como felicidade, mau humor, genialidade, vocação profissional, orientação sexual, dentre outras.</p>
<p>A prática social que se faz com base em tal concepção é a psiquiatria biológica. Fica implícita uma tentativa de aproximação da psiquiatria com a medicina contemporânea. Da mesma forma que o médico, o psiquiatra atual é, cada vez mais, um técnico, com a função de dar diagnósticos bastante padronizados e propor tratamentos cada vez mais cabíveis em algoritmos. Mas há diferenças cruciais entre a psiquiatria e a medicina, que são rotineiramente escamoteadas.</p>
<p>A mais importante: enquanto o conceito de normal e patológico em medicina está fundado em bases biológicas consistentes, o conceito de normal e patológico em psiquiatria não tem caracterização biológica. Basta perfilar os transtornos das classificações psiquiátricas —DSM-IV, CID-10, DSM-V— para constatar tal realidade. A referência é a norma social; o sintoma é definido como o que não permite que cada um consiga fazer o que está prescrito pelo discurso de seu tempo. Enquanto na medicina a caracterização biológica é um <em>a priori,</em> na psiquiatria é um <em>a posteriori </em>que pode ou não existir, ou que existe precariamente, desconsiderando-se inclusive a diferença entre causa, efeito e correlação. A psiquiatria biológica, fincada num terreno movediço, sem ter propriamente bases científicas adota, não obstante, um discurso científico e posições cientificistas.</p>
<p>Há, assim, a presunção de um <em>neurorreal </em>(termo de Miller)<a href="#_edn9" name="_ednref9">[9]</a> onde estaria a causa de todos os sintomas, de acordo com leis bem determinadas que caberia à ciência desvendá-las, o que se insere na perspectiva segundo a qual há saber no real. O que é diferente do real da psicanálise, que não obedece ao princípio da causalidade, que é um real sem lei e sem saber.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O corpo remodelado</strong></p>
<p>Outro ponto do artigo de Lacan sobre <em>Psicanálise e Medicina</em> será retomado. A noção de falha pode ser utilizada para definir o efeito do progresso da ciência sobre a relação da medicina com o corpo. Em outras palavras: quanto mais a medicina científica avança, mais ela ganha, em certa perspectiva, e mais ela perde, em outra. Dizendo em poucas palavras em que consiste esta falha: quando se toma por objeto o corpo-máquina, fica de fora a dimensão do desejo e do gozo.<a href="#_edn10" name="_ednref10">[10]</a> É o que Lacan chamou de <em>falha epistemossomática.</em> A falha epistemossomática, portanto, é a que se verifica entre o corpo considerado como um sistema homeostático, em sua pura presença animal —corpo biológico estabelecido pela ciência médica— e o organismo desejante e gozoso.</p>
<p>Conquanto tal observação tenha ainda procedência nos dias de hoje, é preciso considerar um aspecto correlato, que se avolumou na segunda metade do século XX e que se faz cada vez mais presente no cenário social. Trata-se de uma tendência da medicina a não considerar satisfatório o que é dado como evolução natural. Quando se toma como referência certo naturalismo das concepções religiosas, por exemplo, a medicina contemporânea é, comparativamente, anti-natural. Tudo se passa como se o corpo naturalmente modelado tivesse que ser remodelado, mesmo no que se refere a aspectos cruciais, como o gênero sexual.</p>
<p>O discurso médico, com sua vocação totalitária, tem produzido efeitos cada vez mais pronunciados sobre o corpo visando à sua remodelação, inclusive enquanto objeto de desejo e de gozo. Tal orientação, que se apresenta como nova senhora dos costumes, poderia ser chamada de <em>medicina plástica</em>.</p>
<p>A intervenção médica ficava, outrora, restrita aos processos das doenças e de sua prevenção. De forma crescente, porém, ampliou o seu domínio. Foram incluídas experiências como a gravidez, o parto, a amamentação. Fases da vida como a infância, a adolescência, o climatério, a senilidade. Atividades como a alimentação, o sono, o trabalho, o sexo. Opções existenciais relacionadas à anatomia sexual. E o ideal estético ligado à imagem corporal.</p>
<p>Entraram em cena, destarte, numerosas intervenções: cirurgias (as plásticas, os implantes, as próteses), medicamentos (inibidores do apetite, liberadores sexuais, hormônios —anticoncepcionais, anabolizantes, virilizantes, feminilizantes), técnicas de embelezamento da medicina cosmética, entre outras. A influência da medicina sobre os costumes tem contribuído para a criação e/ou para o encantamento de uma série de novas expressões: bebê de proveta, barriga de aluguel, reposição hormonal, congelamento de embrião, gravidez pós-menopausa, clonagem, top-modelismo, fisiculturismo, rejuvenescimento, transexualismo, etc.</p>
<p>Com isso, o discurso médico tem apresentado uma variada oferta de produtos endereçados àqueles que buscam se esquivar da confrontação com a falta, mediante a reparação de suas incidências como defeito no imaginário do corpo. Ao proceder assim, contribui para a idéia de que o ideal é realizável, de que a complementação é possível, de que a relação sexual existe.</p>
<p>O ideal que se persegue é um saber completo sobre o real, que Lacan chama de paranóia bem sucedida e que corresponderia ao encerramento da ciência.</p>
<p><strong>NOTAS</strong></p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Publicado na OPÇÃO LACANIANA ONLINE: <a href="http://www.opcaolacaniana.com.br/nranterior/numero13/texto8.html">http://www.opcaolacaniana.com.br/nranterior/numero13/texto8.html</a></p>
<p>e no livro <em>O bem-estar na civilização,</em> CRV, 2016.</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> Lacan, J. (1975) Conversa com estudantes na Universidade de Yale, EUA (inédito).</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3"></a>²Lacan J. (1985) <em>Psicoanálisis y Medicina. In: Intervenciones y Textos. </em>Buenos Aires:Manantial<em>, p.87</em>.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> Lacan, J. (1985) <em>Op. cit., p. 92.</em></p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5">[5]</a> Lacan, J. (1985) <em>Op. cit., p. 94.</em></p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6">[6]</a> Bercherie, P. (1989 Os Fundamentos da Clínica. História e estrutura do saber psiquiátrico. Rio de Janeiro:  Jorge Zahar Editor, p. 31.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7">[7]</a> Alonso-Fernández, F. (1968) <em>Fundamentos de la Psiquiatría Actual. Tomo I. </em>Madrid: Editorial Paz Montalvo, p. 12.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8">[8]</a> Miller, J.-A. (2008) <em>Du neu-rone au noeud. </em><em>In: Tout Le monde est fou. </em>Cours du 6 février (inédito).</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9">[9]</a> Miller, J.-A. (2008) <em>Op. cit.</em></p>
<p><a href="#_ednref10" name="_edn10"></a></p>
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		<title>O Normal e o Patológico (para a Medicina, para a Psiquiatria, para a Saúde Mental e para a Psicanálise))</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 17:44:30 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Matemas]]></category>
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					<description><![CDATA[O  Normal  e  o  Patológico para a Medicina,  para a Psiquiatria, para a Saúde Mental e para a Psicanálise[1] &#160; À memória de Carlo Viganò &#160;             A definição do <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-normal-e-o-patologico-para-a-medicina-para-a-psiquiatria-para-a-saude-mental-e-para-a-psicanalise/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O Normal e o Patológico (para a Medicina, para a Psiquiatria, para a Saúde Mental e para a Psicanálise))</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>O  Normal  e  o  Patológico</strong></p>
<p><strong>para a Medicina,  para a Psiquiatria, para a Saúde Mental e para a Psicanálise<a href="#_edn1" name="_ednref1">[1]</a></strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><em>À memória de Carlo Viganò</em></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>            </strong>A definição do normal e do patológico com fundamentos biológicos foi o passo decisivo para o estabelecimento da Medicina de bases científicas. O tema é importante por outra razão: como prática social, a medicina trabalha para prevenir ou corrigir a patologia, visando à normalidade biológica.</p>
<p>A psiquiatria desde sempre se considerou uma especialidade médica e hoje, mais do que nunca, acredita ter confirmado esse lugar. Cabe, porém, a pergunta: o normal e o patológico, para a Psiquiatria, está concebido nas mesmas bases?</p>
<p>E a Saúde Mental, como se posiciona em relação a tema tão crucial?</p>
<p>O objetivo do presente artigo é trazer reflexões sobre o tema na Psiquiatria e na Saúde Mental, mas, ao fazê-lo, não há como não considerar a evolução que o binômio conheceu na Medicina, referência matriz das outras disciplinas. Na última parte do artigo, abordo, de maneira sucinta, como a Psicanálise lida com a questão.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O normal e o patológico na medicina de bases científicas</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A medicina de bases científicas é algo que só ocorreu na primeira metade do século XX, precisamente a partir da conceituação do normal e do patológico com fundamentos biológicos. Foi o resultado de longo percurso, que teve início na segunda metade do século XIX, com o nascimento da Clínica. Do ponto de vista didático, pode-se dividir a evolução apontada em três aspectos.</p>
<ol>
<li>A estruturação da Clínica como <em>método</em> (a <em>análise</em>, apropriada do filósofo enciclopedista Condillac), <em>experiência</em> (que privilegia o olhar) e <em>linguagem </em>(que privilegia o signo), numa formalização que ficou conhecida como <em>método clínico, </em>e cujo principal artífice foi Pinel (1745-1826).<a href="#_edn2" name="_ednref2">[2]</a></li>
<li>O enraizamento epistemológico da clínica na anatomia patológica, que se passou no nível do órgão (Morgagni, 1682-1771), do tecido (Bichat, 1771-1802) e da célula (Virchow, 1821-1902), dando origem ao <em>método anátomo-clínico.<a href="#_edn3" name="_ednref3"><strong>[3]</strong></a></em></li>
<li>Finalmente, a definição de o normal e o patológico em termos fisiológicos, com a descoberta das constantes do meio interno, por Claude Bernard (1813-1878), e com a construção do conceito de <em>homeostasia, </em>por Cannon (1871-1945).</li>
</ol>
<p>Para Canguilhem, autor de marcante obra sobre <em>O Normal e o Patológico, </em>não é absurdo considerar o estado patológico como normal, mas esse normal não é idêntico ao normal fisiológico, pois se tratam de normas diferentes: o estado mórbido é sempre uma certa maneira de viver. E a cura é a reconquista de um estado de estabilidade das normas fisiológicas; curar é criar para si novas normas de vida, às vezes superiores às antigas. A norma não pode ser reduzida a um conceito objetivamente determinável por métodos científicos.<a href="#_edn4" name="_ednref4">[4]</a></p>
<p>O ingresso da medicina na era científica, portanto, está ligado à construção de sólidas bases biológicas (clínicas, anatômicas e fisiológicas), que não esgotam, entretanto, a complexidade do tema. Lacan comenta que se criou uma nova concepção de corpo, numa evolução que caminha para situá-lo na expectativa de ser inteiramente fotografado, radiografado, calibrado, diagramado e condicionado.<a href="#_edn5" name="_ednref5">[5]</a> Passou a ser considerado como um sistema homeostático, em sua pura presença animal, o que já foi chamado com justeza de <em>corpo-máquina. </em>A medicina sabe cada vez mais sobre partes cada vez menores desse corpo-máquina, cujas leis e funcionamento vêm sendo desvendados de forma minuciosa e precisa. No final do século XX, com o progresso exponencial dos recursos tecnológicos, o discurso científico promoveu uma dissecção virtual <em>in vivo,</em> com uma fragmentação ou um estilhaçamento que mudou o recorte do corpo.</p>
<p>Ao lado de todo esse avanço, Lacan observa que, não obstante, nem sempre o que o paciente demanda do médico é a cura.  Às vezes, ele desafia o médico a retirá-lo de sua condição de enfermo ––o que implica estar ligado à ideia de conservá-la.  Outras vezes, demanda explicitamente do médico que o autentique como enfermo.  Ou ainda, demanda que lhe preserve em sua enfermidade.  Além do mais, não é necessário ser psicanalista, sequer médico, para saber que, quando alguém demanda algo, isso não é idêntico, e às vezes é inclusive diametralmente oposto, àquilo que se deseja.  Introduz-se, assim, a estrutura da falha que existe entre aquilo que se demanda e aquilo que verdadeiramente se deseja.<a href="#_edn6" name="_ednref6">[6]</a></p>
<p>A noção de falha pode ser retomada para definir o efeito do progresso da ciência sobre a relação da medicina com o corpo. Em outras palavras: quanto mais a medicina científica avança, mais ela ganha, numa certa perspectiva, e mais ela perde, em outra perspectiva. Dizendo em poucas palavras em que consiste esta falha: quando se toma por objeto o corpo-máquina, fica de fora a dimensão do desejo e do gozo. É o que Lacan chamou de <em>falha epistemossomática.</em> A falha epistemossomática, portanto, é a que se verifica entre o corpo considerado como um sistema homeostático, em sua pura presença animal – corpo biológico estabelecido pela ciência médica – e o organismo desejante e gozoso.<a href="#_edn7" name="_ednref7">[7]</a></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>O impasse da psiquiatria clássica</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O <em>Tratado Médico-Filosófico sobre a Alienação Mental (1808),</em> de Pinel, é a obra inaugural da psiquiatria. Desde o início, portanto, a psiquiatria se diz medicina. Desde o início, porém, a sua identidade médica é problemática.</p>
<p>Pinel foi um dos maiores teóricos da história da medicina, o principal arquiteto das bases epistemológicas da Clínica. Até o fim da vida, no entanto, permaneceu surdo às lições essenciais da anatomia patológica, não aceitando o <em>método anátomo-clínico,</em> que prevaleceu na medicina de bases científicas. Motivo pelo qual seus méritos foram, em grande parte, relegados.<a href="#_edn8" name="_ednref8">[8]</a> Por isso, Pinel só é lembrado, geralmente, como fundador da psiquiatria e protagonista de duplo advento: do humanismo e do saber médico no trato com a loucura. Com efeito, ao assumir a <em>Bicêtre </em>(1793) e a <em>Salpêtrière </em>(1795), ele liberou os loucos de suas amarras e aplicou o método clínico ao estudo das alienações mentais.</p>
<p><em> </em>Em meados do século XIX, Griesinger, o pai da psiquiatria alemã, encorajado pela descoberta da paralisia geral por Bayle (correlacionando achados clínicos e anátomo-patológicos e ensaiando a psiquiatria no método anátomo-clínico), formulou, logo na primeira página de seu famoso <em>Tratado,</em> sua hipótese anatomista radical: “As doenças mentais são, antes de tudo, doenças cerebrais”.<a href="#_edn9" name="_ednref9">[9]</a> O anatomismo de Griesinger passou a ter hegemonia absoluta durante todo o período áureo da psiquiatria clássica.  As doenças mentais, desse modo, foram divididas em dois grupos: as de substrato anátomo-patológico já comprovado, e as de substrato anátomo-patológico por comprovar.</p>
<p>Tudo indicava que a anatomia patológica poderia desempenhar, para a clínica psiquiátrica, o mesmo papel fundamental que assumiu para a clínica médica.  Mas, não foi o que aconteceu.  O problema é que a categórica afirmação de Griesinger não passava de postulação, na maioria das vezes sem nenhuma possibilidade de demonstração. Anos depois (em 1863), outro grande nome da escola alemã ––Kahlbaum–– reconhecia, modestamente, que os achados da clínica psiquiátrica poderiam, talvez, orientar e dirigir a pesquisa anátomo-patológica na descoberta dos resultados esperados.<a href="#_edn10" name="_ednref10">[10]</a> Na verdade, a psiquiatria clássica nunca pôde se fundar na anatomia patológica, embora sempre tivesse situado no seu horizonte essa possibilidade. Ironicamente, a psiquiatria sobreviveu à medida que esse sonho não se realizou: uma identificação plena com a clínica médica representaria a sua absorção pela neurologia.</p>
<p>A correlação anátomo-clínica, por conseguinte, jamais foi, para a clínica psiquiátrica, decisiva como para a clínica médica. A maioria das doenças mentais constituiu-se, basicamente, a partir do método clínico. A diferença é crucial. Bichat exortava os médicos de sua época a reconhecerem o cadáver no estatuto de fenômeno real e de texto; objeto de análise e livro aberto à leitura dos processos da vida, da doença e da morte. Quando o doente cerrava os olhos, a clínica médica partia ao encontro de sua verdade. O mesmo não se verificava com o doente mental. Quando ele cerrava os olhos, e os lábios, nenhuma psiquiatria mais era possível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A psiquiatria das grandes escolas (fenomenológicas e dinâmicas)</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>Depois da psiquiatria clássica, tivemos a psiquiatria das grandes escolas, que pode ser dividida em dois grandes grupos. As escolas fenomenológico-clínicas inspiram-se no legado de Jaspers, que aproximou da psiquiatria a fenomenologia husserliana. E as escolas psicodinâmicas inspiram-se em Bleuler, que aproximou da psiquiatria a psicanálise freudiana. Como é que abordam a questão do normal e do patológico? Também aqui se baseia na norma, mas a norma de que se trata é a social ou cultural.</p>
<p>Esclarecerei esse ponto recorrendo a um tratado de psiquiatria muito utilizado em nosso meio.</p>
<p>“No conceito de norma devemos distinguir um conteúdo e uma forma-função. O conteúdo da norma, equiparável ao termo médio, tem uma base estatística e, como assinala a doutrina do relativismo cultural, não constitui um estado absoluto, nem tem um fundamento ontológico, mas está subordinado ao tempo histórico, ao lugar e às peculiaridades de uma cultura. Uma norma estável de validade geral não existe. Mas o conteúdo da norma está condicionado fenomenologicamente pela existência da norma como função. A função da norma existe em todo tempo e lugar. Transcende, pois, ao relativismo”.</p>
<p>Mais adiante, o autor estabelece a correlação: “Em virtude do exercício da faculdade de tipificação, todos nós coparticipamos do mesmo mundo. O mundo normal é um mundo tipificado. O mundo do doente psíquico se distingue fundamentalmente do normal não por seu conteúdo, mas por sua forma. Podemos descrever a patologia da tipificação como o mórbido”.</p>
<p>Para, pouco depois, concluir: <em>“Eis aqui minha definição predileta de psiquiatria: ‘A psiquiatria é o ramo humanista por excelência da medicina que trata do estudo, da prevenção e do tratamento dos modos psíquicos de adoecer’. A ideia do modo psíquico de adoecer, segundo acabo de expor, se funda na perda involuntária da faculdade normativa.” <a href="#_edn11" name="_ednref11"><strong>[11]</strong></a></em></p>
<p>Diferente da medicina, que alicerça o conceito de normal e de patológico em termos biológicos, a psiquiatria funda tal distinção na norma cultural ou social. Ou seja, a saúde mental como norma, a doença mental com perda involuntária da faculdade normativa e o tratamento psiquiátrico como meio utilizado para o seu restabelecimento. A <em>restitutio ad integrum,</em> tão cara à medicina, na psiquiatria tornou-se, assim, restituição da normalidade social.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A psiquiatria do DSM e da classificação internacional</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>A questão do normal e do patológico na psiquiatria pode ser abordada a partir das classificações das doenças mentais.           Quanto a isso, tivemos três grandes momentos, distanciados aproximadamente um século um do outro. O primeiro momento foi a nosologia pinel-esquiroliana, construída no início do século XIX. Era uma classificação sindrômica, baseada numa fenomenologia elementar, que descrevia fachadas psíquicas. O segundo momento foi a nosologia psiquiátrica clássica, que conheceu seu apogeu com Kraepelin, no início do século XX. A reformulação da primeira nosologia começou na segunda metade do século XIX. O critério sindrômico cedeu lugar ao critério evolutivo e à história natural da doença. Pretendia-se, assim, caracterizar as “verdadeiras entidades mórbidas”, numa perspectiva fortemente organicista, pois as doenças mentais eram consideradas, antes de tudo, doenças cerebrais.</p>
<p>Do ponto de vista estritamente nosológico, a psiquiatria pouco mudou com o advento das grandes escolas (fenomenológicas e dinâmicas). Entretanto, o consenso só existia em relação a alguns aspectos. Cada autor ou cada tratado apresentava a sua própria classificação das doenças mentais, com diferenças frequentemente acentuadas.</p>
<p>O cenário começou a mudar em 1952, com a publicação do Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM) da Associação Psiquiátrica Americana. Trata-se de classificação que se pretende ateórica e não etiológica, e que se baseia na listagem e quantificação dos sintomas para definir, mediante consenso que se propõe cada vez mais amplo, os <em>transtornos mentais e do comportamento. </em>As várias edições do DSM alcançaram um êxito tão expressivo que definiu a orientação da própria Classificação Internacional de Doenças (CID-10), da Organização Mundial de Saúde, no final do século XX (1992).</p>
<p>Uma definição é crucial na CID-10: a de <em>transtorno</em>. O termo é empregado “para indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecível associado, na maioria dos casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais. Desvio ou conflito social sozinho, sem disfunção pessoal, não deve ser incluído em transtorno mental, como aqui definido”.<a href="#_edn12" name="_ednref12">[12]</a> A definição realça alguns aspectos: sofrimento e disfunção pessoal, desvio e conflito social. É esse o campo de trabalho em que nos encontramos. É aqui, em primeiro lugar, que se demarca o objeto de estudo — e não no nível biológico. O normal e o patológico, na psiquiatria, não está alicerçado na biologia, e não há outra resposta: a norma, de que se trata, é a norma social.</p>
<p>Avançando além de suas classificações, a psiquiatria contemporânea postula uma determinação neurobiológica, em última análise, genética, para os transtornos. O que há é uma petição de princípio: define-se o que é transtorno com base na norma social; em seguida, postula-se para esse transtorno outra base —neurobiológica—, tratando-o como se assim o fosse. E nessa operação, ignora-se inteiramente a diferença entre <em>causa, consequência </em>e <em>correlação.</em></p>
<p>Basta perfilarmos os transtornos relacionados no DSM (IV) ou na CID (10) para verificarmos que nenhuma caracterização biológica sustenta tais classificações. Darei dois exemplos elucidativos. Há alguns anos o homossexualismo estava incluído no DSM como transtorno mental, enquanto que o tabagismo não estava incluído. Atualmente, ocorre o contrário: o homossexualismo foi excluído e o tabagismo incluído. O que determinou a mudança? Apenas isto: o homossexualismo está mais aceito e o tabagismo menos aceito pela moralidade social contemporânea.</p>
<p>Por outro lado, ainda hoje, mesmo com todo o progresso das neurociências, a mais grave das doenças mentais —a esquizofrenia— não pode ser caracterizada do ponto de vista biológico: seu diagnóstico é sempre e exclusivamente fundamentado na clínica. O que isso mostra? Mostra que, rotineiramente, postulações são tomadas como verdades científicas comprovadas, e o que é mais grave: negando o campo epistêmico na qual são definidas.</p>
<p>É importante observar, ainda, que o advento do DSM é rigorosamente paralelo ao do psicofármaco moderno. E a história de um não pode ser concebida sem a história do outro. O DSM é a substituição das grandes categorias nosológicas de outrora por um grande número de síndromes ou sintomas-alvos, cuja finalidade indisfarçável é servir melhor aos objetivos do tratamento medicamentoso. Nesse contexto, a exclusão da subjetividade é bem-vinda, por melhor permitir a validação estatística. O psicofármaco, esse <em>gadget</em> poderoso do discurso da ciência, é a quintessência do DSM.</p>
<p>O tratamento psiquiátrico medicamentoso visa primeiramente à eliminação do sintoma. Ora, sintoma é aquilo que torna impossível a cada um caminhar pelas vias comuns. “O sintoma é precisamente o que faz com que cada um não consiga fazer absolutamente o que está prescrito pelo discurso de seu tempo”.<a href="#_edn13" name="_ednref13">[13]</a> Por exemplo, uma fobia pode impedir de viajar de avião ou de entrar no elevador de um edifício; uma gagueira pode inviabilizar uma pretensão de ser orador; uma impotência sexual pode frustrar um encontro amoroso; uma depressão pode prejudicar uma jornada de trabalho. Uma conduta antissocial, por definição, insere-se nessa série.  E assim por diante.</p>
<p>Um esquema está em jogo, no que tange à questão abordada. Os mais familiarizados com o contexto poderão acompanhá-lo passo a passo. (1) Identifica-se um sintoma, ou no máximo, uma síndrome (um grupo de sintomas). (2) Dá-se a esse sintoma, ou a essa síndrome, um nome. (3) Transpõe-se esse nome para uma sigla. (4) Postula-se, para o transtorno assim isolado, um substrato neurobiológico. (5) Atribui-se a ele uma etiologia genética. (6) Associa-se a ele um tratamento medicamentoso específico. Na prática, tal esquema tem funcionado às mil maravilhas, do ponto de vista mercadológico. Poderosos interesses podem forjar o que é apresentado como científico.</p>
<p>Resumindo: presencia-se, na atualidade, crescente e radical biologização da psiquiatria; há uma pretensa redução da disciplina a uma especialidade médica, com exclusão da dimensão subjetiva e sua consequente neurologização. A adoção do DSM como classificação está inteiramente subordinada a uma clínica da medicação, que passou a ser o enfoque terapêutico com supremacia quase absoluta. O tratamento visa firmemente à normalidade e à adaptação social, numa perspectiva que se define como ateórica e apolítica, e que tem como aliadas naturais as terapias cognitivo-comportamentais (TCCs).</p>
<p>A ideia de <em>norma social </em>é correlata da ideia de <em>norma moral, </em>é a sua reedição atualizada<em>. </em>Constatação que faz ressoar a assertiva segundo a qual o tratamento moral tornou-se o núcleo fundamental da terapêutica psiquiátrica.<a href="#_edn14" name="_ednref14">[14]</a></p>
<p>Na verdade, desde sempre foi assim. Quando Pinel se dirigiu à <em>Bicêtre</em> e à <em>Salpêtrière</em> para o seu ato fundador, já encontrou lá, previamente selecionados pela sociedade, os tipos que deveria investigar e tratar. A postulação extrema de Griesinger merece ser contestada, nesse momento de hegemonia da psiquiatria biológica, por outra postulação extrema: a doença mental é, antes de tudo, doença social.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A saúde mental e a ordem pública</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p>O <em>Relatório Sobre  a  Saúde  no  Mundo  2001, </em>da  Organização  Pan-Americana de Saúde e da Organização Mundial de Saúde, tem o seguinte título: <em>Saúde Mental: Nova Concepção, Nova Esperança.<a href="#_edn15" name="_ednref15"><strong>[15]</strong></a> </em>O novo modelo, ou seja, a nova concepção e a nova esperança, é todo ele baseado nos transtornos catalogados pela CID-10. O que se procura é certa ordem na casa a partir dessa referência.</p>
<p>O campo da saúde mental é o resultado de uma reorganização do campo da psiquiatria. Entraram em cena outros saberes, outros profissionais, outros serviços. A psiquiatria, enquanto disciplina, é hoje uma parte importante, mas, apenas uma parte do campo da saúde mental. Talvez sua importância maior seja esta: fornecer a descrição e a classificação dos transtornos mentais e comportamentais. Definir o que deve ser tratado e a que objetivo o tratamento deve visar.</p>
<p>Em sua conferência sobre <em>Saúde Mental e Ordem Pública,</em> Jacques-Alain Miller afirma que “a saúde mental não tem outra definição que a da ordem pública”. Pouco adiante, acrescenta: “E, com efeito, parece-me que não há critério mais evidente da perda da saúde mental que aquele manifestado na perturbação dessa ordem”. Mais adiante, Miller corrige a sua definição: há perturbações das quais se incumbe a saúde mental e outras que concernem à polícia ou à justiça. O critério operativo é a responsabilidade: se o perturbador é responsável, deve ser castigado; se irresponsável, deve ser curado (para a criminologia, a enfermidade mental chega a suspender o sujeito de direito). “A melhor definição de um homem em boa saúde mental é que se pode castigá-lo por seus atos”. <a href="#_edn16" name="_ednref16">[16]</a></p>
<p>Lacan, por sua vez, comenta que os trabalhadores da saúde mental aguentam a miséria do mundo, e que fazer isso “é entrar no discurso que a condiciona, nem que seja a título de protesto”.<a href="#_edn17" name="_ednref17">[17]</a> Refere-se ao discurso do Senhor contemporâneo — o discurso capitalista —, que trouxe a globalização que conhecemos na atualidade. O mundo globalizado introduz a universalização de modos de gozo uniformizados. É um mundo padronizado, onde impera a ideologia da avaliação; em que se pretende a quantificação da própria subjetividade; em que prevalece o homem sem qualidades. Nesse contexto, tudo o que é da ordem da diferença ou da singularidade é mal tolerado. Motivo pelo qual Lacan previu, para nosso futuro de mercados comuns, uma extensão cada vez mais dura dos processos de segregação.</p>
<p>A questão principal, tanto para a psiquiatria como para a saúde mental, não é tanto a definição de transtorno ou de sofrimento mental. A questão principal é fundamentar o tratamento na normalização, ou no retorno à normalidade. Quando as coisas são postas nesses termos, e é nesses termos que elas são postas, permanece intacta, ou mesmo reforçada, a lógica da exclusão. A normalização, como base do tratamento, é a versão contemporânea do tratamento moral, a sua reedição. É uma perspectiva que põe como imperativo o <em>todos iguais.</em> Uma perspectiva que visa à anulação da <em>diferença.</em> Ora, assim como tantos outros transtornados ou sofredores, o louco é irredutivelmente diferente; vê-se então, com clareza, o impasse no qual desemboca uma diretriz como essa.</p>
<p>A saúde mental trabalha para a normalização e por definição é ordem social. Por conseguinte, ainda que tenha contribuído para reduzir a segregação no nível dos hospícios, ela pode contribuir para reforçá-la, em outros níveis: é o que se chama de neo-segregação</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Uma perspectiva psicanalítica</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O que foi apresentado até o presente momento permite a seguinte conclusão: a psiquiatria e a saúde mental definem o normal e o patológico em bases diferentes daquelas que fundamentam a diferenciação levada a termo pela medicina. Farei considerações, agora, sobre a abordagem psicanalítica do tema.</p>
<p>Em primeiro lugar, situarei alguns equívocos. A psiquiatria contemporânea, rigidamente biologicista, tem tratado os transtornos mentais e do comportamento como distúrbios em última análise cerebrais, cuja determinação seria genética, além de considerar o homem um animal como qualquer outro, com um cérebro mais desenvolvido e um genoma mais complexo. E a psicanálise tem sido criticada por simplesmente desconhecer tudo isso.</p>
<p>Não se trata de desconhecimento, mas de discordância. A psicanálise conhece o condicionamento biológico do sujeito. Ela sabe que <em>todos</em> os atos do sujeito — e não apenas os chamados “patológicos” — têm assento no cérebro. E sabe que todas as tendências são influenciadas por maior ou menor <em>predisposição</em> genética.</p>
<p>A psicanálise conhece, ainda, a posição do homem na escala evolutiva. Enfim, embora não seja uma ciência (por uma boa razão: ela trata de singularidades não compatíveis com o método estatístico da ciência), é herdeira da tradição racionalista do iluminismo.</p>
<p>Passo agora às discordâncias. A psicanálise não concorda que determinada vivência seja considerada uma doença pelo simples fato de ter uma base biológica. Nesse ritmo, toda vivência seria uma doença, pois toda vivência tem uma base biológica.</p>
<p>Por outro lado, também não é sustentável utilizar a gravidade de uma vivência como critério para defini-la como doença. Em certa ocasião, ouvi um psiquiatra biológico afirmar: “a depressão mata, a depressão é uma doença”. Ora, nem toda doença verdadeira é grave, e nem tudo que é grave é doença. A miséria, a corrupção e a violência urbana são graves, e matam, mas não são doenças. A não ser que se utilize o termo doença como expressão metafórica tão ampla que perca totalmente o valor de conceito.</p>
<p>Além disso, por mais que as neurociências avancem, o estudo biológico do cérebro jamais esgotará a complexidade das questões estudadas. No nível do sujeito, existem outros princípios e outras leis. Farei um paralelo que tem limites sérios, mas que tem seu alcance. Mesmo num sistema muito mais simples, como o computador, <em>software</em> é inteiramente condicionado pelo <em>hardware;</em> mas uma coisa é estudar o <em>hardware, </em>outra coisa são as infinitas possibilidades que se abrem no <em>software.</em></p>
<p>No que se refere à herança genética, pode-se dizer: nenhum dos chamados transtornos mentais e do comportamento tem <em>determinação</em> genética. O que existe é <em>predisposição </em>genética<em>. </em>O que se herda é o terreno. Tome-se o mais grave dos mencionados distúrbios: a esquizofrenia. Pesquisas com gêmeos monozigóticos (que têm, portanto, a mesma carga genética) mostram que, quando um deles fica esquizofrênico, em 50% dos casos o outro também fica. Índice tão alto é utilizado para mostrar a etiologia genética. A mesma pesquisa, porém, serve para demonstrar que não há <em>determinação</em> genética, pois 50% dos casos <em>não</em> se tornaram esquizofrênicos.<a href="#_edn18" name="_ednref18">[18]</a> Se houvesse determinação, a cifra seria 100%.</p>
<p>A última discordância é a consideração do homem simplesmente como um animal com o cérebro mais desenvolvido e o genoma mais complexo. Existe uma abordagem contemporânea que busca “esclarecer” a conduta humana a partir da comparação com a conduta de outros animais. Para a psicanálise, tal perspectiva é ingênua e simplista.</p>
<p>O genoma do homem é mais complexo e o seu cérebro é mais desenvolvido: o problema crucial, porém, não está aí. Para a psicanálise o homem é um animal, sim, mas um animal político. Entre o humano e o animal existe continuidade, mas existe, sobretudo, ruptura. Ou seja, é a ruptura, e não a continuidade, que marca a relação do humano com o animal. A que se deve tal ruptura? A resposta é precisa: à linguagem. O humano, por  excelência, é o reino da linguagem, matriz do sujeito, de sua cidade, de sua cultura.</p>
<p>Para encerrar tema tão amplo, darei um exemplo. Com a invenção dos métodos anticoncepcionais, a sexualidade ficou desvinculada da reprodução, o que contribuiu para a liberação dos costumes. Em seguida, com a reprodução assistida, criou-se a reprodução separada da sexualidade. É a subversão da biologia realizada pelo falante.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>Abordagem psicanalítica dos conceitos de normal e de patológico</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>            </strong>A fundamentação médica para a definição do normal e do patológico é consistente, e o termo <em>doença,</em> a rigor, deveria restringir-se ao sentido médico. Entretanto, mesmo para a medicina, a questão se complica quando se percebe <em>que há um sujeito no doente.<a href="#_edn19" name="_ednref19"><strong>[19]</strong></a></em> Em poucas palavras, no caso único, a doença não se reduz à lesão e disfunção do corpo-máquina.</p>
<p><em>            </em>A definição do normal e do patológico em termos biológicos é apenas parte da questão. A medicina vai além, quando se define por prevenir ou corrigir o patológico, visando à normalidade. Está em jogo uma posição ética, e mesmo uma posição política. A cientificidade está presente, também, na composição dos tratamentos, que se sucedem a tal escolha.</p>
<p>Na época contemporânea, a medicina como prática social está longe de se restringir às suas finalidades terapêuticas. Há um imenso capítulo relativo à medicalização dos costumes, que aqui será apenas lembrado.</p>
<p>A psicanálise discorda da psiquiatria e da saúde mental por tratarem os transtornos mentais e do comportamento como doenças, sendo que a grande maioria deles não é caracterizável como tais.</p>
<p>Por outro lado, tratá-los visando sumariamente à eliminação dos sintomas é adotar uma perspectiva normalizadora, que pressupõe um ideal (a saúde mental)<a href="#_edn20" name="_ednref20">[20]</a> e que contribui para o conformismo e para a adaptação social. Qual o problema? O que a psicanálise tem contra a normalização e contra a adaptação social?</p>
<p>É importante ressaltar, com Miller, que, “embora extraída da estatística, decidir conformar-se à norma, fazer da norma a lei, é uma escolha política”.<a href="#_edn21" name="_ednref21">[21]</a> Pode-se acrescentar: é uma escolha ética.</p>
<p>Ora, o problema não é o de fazer tal escolha, eventualmente. Todo o problema é este: fazer da normalização uma regra, por meio do leito de Procusto dos protocolos terapêuticos. Isto é que é totalmente inaceitável para a psicanálise, por uma série de razões.</p>
<p>Como é que a psicanálise lida com o tema? Se não há normal e patológico, o que há?</p>
<p>Um ponto é comum: também para a psicanálise, o começo passa pelo sintoma. E, também para a psicanálise, o sintoma tem os dois aspectos: disfunção e sofrimento. Com efeito, só há indicação de análise quando há sofrimento. O sujeito vem pela sua disfunção e pelo seu sofrimento. E, como foi dito, o sintoma anda na contramão do que está prescrito pelo discurso de nosso tempo; ele não permite ao sujeito trafegar pelas vias da normalidade social.  Simplesmente curá-lo é desconhecer tal aspecto. Se o desvio é um problema, sua correção a todo custo pode apenas ser outro problema.</p>
<p>Além de disfunção e de sofrimento, por conseguinte, há um terceiro ponto: o sintoma é mensagem, ou seja, o sintoma quer dizer alguma coisa, embora o sujeito não saiba o quê, e considere isso um enigma. A outra condição de análise é esta: é necessário que o sujeito queira saber sobre o sintoma, e que suponha que o analista saiba sobre isso (transferência).</p>
<p>Para a psicanálise, não há eliminação de sintoma, há transmutação de sintoma. Quando um desaparece, outro entra em cena, em maior ou menor sintonia com o sujeito. Nesse sentido, é verdade que a psicanálise não cura&#8230; e que o chamado sujeito normal é apenas aquele que está em sintonia com seu sintoma.</p>
<p>A psicanálise leva a sério a mensagem contida no sintoma, o que exige o exame da relação do sujeito com seu desejo e com seu gozo (fantasia). Aqui, várias possibilidades se apresentam. Não são doenças, são estruturas clínicas. Cada sujeito, sem exceção, está inscrito numa das três estruturas clínicas: <em>neurose </em>(cuja operação estruturante é o <em>recalque), perversão </em>(cuja operação estruturante é o <em>desmentido)</em> e <em>psicose </em>(cuja operação estruturante é a <em>forclusão).</em> Quando se diz, por exemplo, que se trata de um psicótico, isso não quer dizer que o sujeito <em>está </em>psicótico, isso quer dizer que ele <em>é </em>psicótico. Pode ser uma psicose não desencadeada, ou uma desencadeada, ou uma estabilizada, mas é sempre uma psicose. O mesmo se aplica às outras estruturas.</p>
<p>As estruturas clínicas, portanto, talvez fossem melhor denominadas <em>estruturas existenciais,</em> e cada uma delas comportaria várias vicissitudes possíveis, dependendo da constituição de cada sujeito, de seus tropeços e das soluções encontradas para os seus impasses. Na primeira parte de seu ensino, Lacan salientou a descontinuidade entre as estruturas, a partir das diferentes operações fundadoras. Na última parte de seu ensino, Lacan evidenciou a continuidade entre as estruturas, a partir das compensações e das soluções que cada um pode construir. A maioria das soluções é autoconstruída.</p>
<p>O uso de medicamentos pode ser considerado uma solução de outro tipo: prótese química, ou moderador de gozo, que traz efeitos, mas não traz respostas, não inclui uma elaboração subjetiva. Não se trata, de maneira alguma, de invalidar o emprego de psicofármacos. O que se pretende é apontar os seus limites. E, o que é mais importante: eles podem estar a serviço de outra ética e de outra política, diferente da que está implicada na perspectiva de normalização e de adaptação social, ou na medicalização de experiências existenciais.</p>
<p>Talvez seja melhor, então, restringir o uso do termo <em>patológico, </em>ou de seu substantivo <em>patologia,</em> à linguagem estritamente médica. Ou, conforme propõe Jacques-Alain Miller, utilizá-lo de maneira forçada, numa catacrese: <em>patologia da ética.<a href="#_edn22" name="_ednref22"><strong>[22]</strong></a></em></p>
<p>Resumindo: a psicanálise, embora tenha também como ponto de partida o sintoma, trabalha visando não à sua eliminação, mas certa reconciliação do sujeito com o sintoma. Em vez de tratamento do sintoma, tratamento pelo sintoma. O que implica uma mudança da relação do sujeito com o seu gozo, numa perspectiva ética que se realiza no caso a caso e em que a exigência não é adequar-se à norma social, mas, sim, não ceder de seu desejo.</p>
<p>Nas condições reinantes em nossos serviços de saúde, não se pode falar em psicanálise pura, mas em psicanálise aplicada. Qual a diferença?       “A psicanálise pura é a psicanálise na medida em que ela conduz ao passe do sujeito, na medida em que ela se conclui pelo passe. A psicanálise aplicada é a que concerne o sintoma, é a psicanálise enquanto aplicada ao sintoma”.<a href="#_edn23" name="_ednref23">[23]</a> Ou seja, a psicanálise aplicada visa à construção ou à transmutação do sintoma, aliada a alguma modalidade de mudança subjetiva.</p>
<p>A psicanálise pura ou aplicada acontece sob outra ética e sob outra política. Pretende um acordo não do sujeito com a sociedade, mas do sujeito consigo mesmo. E pretende não uma adaptação social, mas um laço social a partir de uma singularidade irredutível.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>NOTAS</strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><a href="#_ednref1" name="_edn1">[1]</a> Publicado em <a href="http://WWW.franciscopaesbarreto.com">WWW.franciscopaesbarreto.com</a> em 09 de maio de 2012 e no livro <em>O bem-estar na civilização</em> (CRV, 2016).</p>
<p><a href="#_ednref2" name="_edn2">[2]</a> Foucault M. (1987) <em>O nascimento da clínica</em>. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, (cc. VII e X).</p>
<p><a href="#_ednref3" name="_edn3">[3]</a> Canguilhem, G. (1990) <em>O Normal e o Patológico, </em>3ª ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, p. 183.</p>
<p><a href="#_ednref4" name="_edn4">[4]</a> Idem, p. 188.</p>
<p><a href="#_ednref5" name="_edn5">[5]</a> Lacan, J. (1985) <em>Psicoanálisis y medicina (1966). In: Intervenciones y Textos. </em>Buenos Aires: Manantial, p. 92.</p>
<p><a href="#_ednref6" name="_edn6">[6]</a> Idem, p. 91.</p>
<p><a href="#_ednref7" name="_edn7">[7]</a> Ibidem, p. 92.</p>
<p><a href="#_ednref8" name="_edn8">[8]</a> Foucault M. (1987) <em>O nascimento da clínica. </em> 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, (cc. VII e X).</p>
<p><a href="#_ednref9" name="_edn9">[9]</a> : “&#8230;Nous devons toujours voir avant tout dans les maladies mentales une affection du cerveau.”  In: Griesinger, W. (1865) <em>Traité des Maladies Mentales.</em><strong>  </strong>Paris: Adrien Delahaye, Libraire-Editeur, p. 1.</p>
<p><a href="#_ednref10" name="_edn10">[10]</a> Bercherie, P. (1989) <em>Os Fundamentos da Clínica.  História e estrutura do saber psiquiátrico. </em><strong> </strong>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, c. 8.</p>
<p><a href="#_ednref11" name="_edn11">[11]</a> Alonso-Fernandez, F. (1968) <em>Fundamentos de la Psiquiatria Actual. Tomo I.</em> Madrid: Editorial Paz Montalvo, p. 26 e 27.</p>
<p><a href="#_ednref12" name="_edn12">[12]</a> <em>Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10.</em> Organização Mundial de Saúde. (1993) Porto Alegre: Artes Médicas, p. 5.</p>
<p><a href="#_ednref13" name="_edn13">[13]</a> Soler C. (1996) <em>El sintoma em la civilización . </em><em>In: Diversidad del síntoma.</em> Buenos Aires: EOL, p. 95.</p>
<p><a href="#_ednref14" name="_edn14">[14]</a> Birman J. (1978) <em>A psiquiatria como discurso da moralidade</em>. Rio de Janeiro: Graal, p 344 e sgtes..</p>
<p><a href="#_ednref15" name="_edn15">[15]</a> <em>Saúde Mental: Nova Concepção, Nova Esperança. Relatório Sobre a Saúde no Mundo (2001). </em>Organização Pan-Americana de Saúde e Organização Mundial de Saúde.</p>
<p><a href="#_ednref16" name="_edn16">[16]</a> Miller, J.-A. (1999) <em>Saúde Mental e Ordem Pública</em> (p. 20 e 21). In: <em>Curinga, nº 13</em>. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise – MG.</p>
<p><a href="#_ednref17" name="_edn17">[17]</a> Lacan, J. (1993) <em>Televisão (1974). </em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, p. 29.</p>
<p><a href="#_ednref18" name="_edn18">[18]</a> Vallada Filho, H. P. <em>Genética e Psiquiatria. Uma Visão Panorâmica. In:Médicos, Ano II, nº 6. </em>São Paulo: HC-FMUSP, p. 28-31, jan/fev 1999.</p>
<p><a href="#_ednref19" name="_edn19">[19]</a>Laurent, E. (1989) <em>Entrevista sobre a apresentação de pacientes. In: Clínica Lacaniana nº 3.</em> São Paulo: UNICOPI, p. 151.</p>
<p><a href="#_ednref20" name="_edn20">[20]</a> Viganò, C. (2010) <em>A Psicanálise Cura a Saúde Mental. In: Novas Conferências. </em>Belo Horizonte: Clinicaps, p. 35.</p>
<p><a href="#_ednref21" name="_edn21">[21]</a> Miller, J.-A (2005) <em>A era do homem sem qualidades</em>. In: <em>Opção Lacaniana online, março de 2005, p. 2. </em></p>
<p><a href="#_ednref22" name="_edn22">[22]</a> Miller, J.-A. (1997) <em>Patologia da Ética. In: Lacan Elucidado. </em>Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.</p>
<p><a href="#_ednref23" name="_edn23">[23]</a> Miller, J.-A . <em>Psicanálise pura, psicanálise aplicada &amp; psicoterapia. In: Phoenix, nº 3. </em>Curitiba: Escola Brasileira de Psicanálise – Delegação Paraná, setembro 2001, p. 29.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O real sem lei da ciência</title>
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		<pubDate>Tue, 14 Nov 2017 11:35:03 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise: Matemas]]></category>
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					<description><![CDATA[Por que este artigo no Blog? Publicado nos Papers nª 6, dezembro de 2013, da Escola Una, da Associação Mundial de Psicanálise, numa edição que foi traduzida para o francês, <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-real-sem-lei-da-ciencia/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O real sem lei da ciência</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p class="p1"><span class="s1"><b>Por que este artigo no <i>Blog?</i></b></span></p>
<p class="p2"><span class="s1">Publicado nos <i>Papers nª 6,</i> dezembro de 2013, da Escola Una, da Associação Mundial de Psicanálise, numa edição que foi traduzida para o francês, para o italiano, para o espanhol e para o inglês.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p1"><span class="s1"><b>O real sem lei da ciência</b></span></p>
<p class="p5"><span class="s1"><b>O real da psicanálise</b></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Se Schelling, num certo momento, situa a pergunta <i>O que, no final, é o real?</i> como a grande questão da filosofia, a mesma pergunta pode ser tomada como mola mestra do ensino de Lacan. Na leitura que Miller faz do tema é possível encontrar várias respostas nesse percurso de mais de trinta anos. Algum destaque será dado à primeira e à última.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Primeira resposta: o real é o simbólico. Ora, se o que Lacan chama de real, nessa época, está excluído da análise, o que se isola como sendo real na experiência é o núcleo do simbólico. Trata-se de abordagem que prevalece nos seis primeiros seminários, e que implica uma pertinência conceitual entre o real e a causa. O real é causa, causa de certo número de efeitos, e é preciso intervir onde isso se desenrola, para obter efeitos de transformação.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Nesse momento, Lacan admite uma equação entre o racional e o real; o real que é causa e que tem efeitos pode ser traduzido na proposição segundo a qual <i>há saber no real.</i> É a posição do discurso da ciência, que, desde Galileu, admite a natureza escrita com signos matemáticos.<span class="Apple-converted-space">  </span>Sendo assim, “O inconsciente para Lacan é uma estrutura, ou seja, um saber no real.” Enfim, a estrutura, para Lacan, é um dos nomes do real; o real é a estrutura da linguagem.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Ao mesmo tempo em que se verifica uma mudança incessante ao longo do ensino lacaniano, é possível também observar que algumas linhas se conservam do início até o fim. Uma delas é a importância atribuída à idéia de estrutura, cujo peso se mantém durante todo o tempo. No início, porém, estrutura é a estrutura da linguagem, depois, torna-se a estrutura lógica e, finalmente, estrutura passa a equivaler à estrutura topológica, ou ao nó borromeu.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Miller comenta que as fórmulas da sexuação constituem uma tentativa heróica para fazer da psicanálise uma ciência do real, tal como a lógica-matemática. A partir do <i>Seminário 23 </i>sobre <i>O sinthoma,</i> porém, quando se ingressa no ultimíssimo ensino de Lacan, tudo muda inteiramente. Mudança que pode ser resumida na fórmula <i>o real é sem lei, </i>cujo corolário pode ser: não há ciência do real. É importante dizer um pouco mais a esse respeito.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Afinal, o que quer dizer a fórmula <i>o real é sem lei? </i>A lei de que se trata é a lei natural, aquela que rege a natureza e que pode ser escrita com linguagem matemática. A lei natural pressupõe a relação de causa e efeito, o princípio da causalidade. Torna-se imprescindível assinalar, então, que “A relação de causa e efeito não vale no âmbito do real sem lei, ela só vale como ruptura entre a causa e o efeito.” Em outros termos, o real sem lei não é da ordem da causalidade, mas, sim, da ordem do acaso. Se a causalidade está do lado da necessidade, o acaso ou casualidade está do lado da contingência. Para concluir esta parte, a oposição entre a primeira e a última concepção de real em Lacan releva, no primeiro caso, um saber no real, e no último, um real sem saber.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p6"><span class="s1"> <b>O real da ciência</b></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"><b> </b>É preciso, inicialmente, dizer de que ciência se trata. Refere-se àquela iniciada por Galileu e por Newton e que tem como paradigma a física-matemática. É célebre a afirmação de Galileu segundo a qual a natureza está escrita com signos matemáticos, e regida, portanto, por leis que cabe à ciência desvendar. Quando se observa que Galileu morreu no mesmo ano em que Newton nasceu, há algo mais do que um registro curioso. Pois foi exatamente Newton aquele que começou a trazer à luz as leis importantes da nova ciência.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Formulada nesses termos, a lei natural pressupõe o princípio da causalidade, e é da ordem da necessidade, pois não há efeito sem causa. A existência da lei natural implica a existência de saber no real e alimenta o sonho da ciência de um saber completo sobre o real.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> O saber no real está em consonância com a fórmula de Descartes de um <i>Deus que não engana,</i> garantidor da ciência. Ou, para empregar expressão mais recente, igualmente famosa, <i>Deus não joga dados,</i> conforme assevera Einstein. Com isso o inventor da Teoria da Relatividade quis deixar bem assinalado que não é o acaso que rege o universo. Ou, o que é a mesma coisa, o real da ciência não é sem lei. </span></p>
<table class="t1" cellspacing="0" cellpadding="0">
<tbody>
<tr>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1"><b>REAL DA CIÊNCIA</b></span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1"><b>REAL DA PSICANÁLISE</b></span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Causalidade</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Acaso</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Necessidade</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Contingência</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Lei natural</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Sem lei</span></p>
</td>
</tr>
<tr>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Saber no real</span></p>
</td>
<td class="td2" valign="top">
<p class="p8"><span class="s1">Real sem saber</span></p>
</td>
</tr>
</tbody>
</table>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p6"><span class="s1"><b> O real sem lei da mecânica quântica</b></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Quando as questões são colocadas nesses termos —e são nesses termos que elas são colocadas— fica de fora um aspecto verdadeiramente crucial do debate científico. Para expor o problema, um bom caminho é retomar a fórmula de Einstein, <i>Deus não joga dados, </i>para fazer a contextualização do argumento. Em que circunstâncias isso foi dito? Tudo aconteceu em 1930, em Bruxelas, durante uma das Conferências Solvay, as mais concorridas da física na primeira metade do século XX, quando de um ataque de Einstein contra a física quântica, defendida pelo dinamarquês Bohr. Sua intenção era derrubar o princípio da incerteza, proposto pelo físico alemão Heisenberg em 1927, segundo o qual não se pode medir com precisão, simultaneamente, a energia e o tempo dos processos físicos.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> O debate aberto por Einstein e Bohr está longe, muito longe de terminar. A esse respeito, pode-se citar Hawking.</span></p>
<p class="p10"><span class="s1">Atualmente os cientistas descrevem o universo através de duas teorias parciais básicas: a teoria geral da relatividade e a mecânica quântica, que são as duas grandes contribuições intelectuais da primeira metade deste século. A teoria geral da relatividade descreve a força da gravidade e a macroestrutura do universo, ou seja, a estrutura em escalas de apenas poucos quilômetros para um tamanho tão grande quanto um setilhão de quilômetros, que é o tamanho do universo observável. A mecânica quântica, por outro lado, lida com fenômenos em escalas extremamente pequenas, tais como um trilionésimo de centímetro. Infelizmente, entretanto, sabe-se que estas duas teorias são incompatíveis entre si; não podem ser ambas corretas. (HAWKING, 1991, p. 31-2)</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> O que está em jogo? Nada menos que os próprios fundamentos da ciência. Einstein faz a defesa da causalidade determinista e ataca as leis puramente probabilistas da mecânica quântica, da qual Bohr é um dos fundadores. Eis o cerne da questão.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> A mecânica quântica é o ramo da física que estuda o átomo e as partículas subatômicas. Nenhuma teoria científica conhece maior número de aplicações práticas, que vão desde a bomba atômica até incontáveis aparelhos domésticos, como televisores e computadores, ou instrumentos refinados, como radares e microscópios eletrônicos.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Mais que qualquer outro ramo da ciência, a mecânica quântica representou o rompimento com as experiências dos sentidos e com as certezas tradicionais de seu campo, tendo balançado inclusive alguns baluartes metodológicos. </span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Qual o ponto de partida? Formulada, em 1900, pelo físico alemão Max Planck, a Teoria dos Quanta afirma que a emissão e a absorção de energia eletromagnética pelos corpos se fazem por meio de quantidades fixas ou “pacotes” contínuos de energia, e não por distribuição uniforme de energia através de ondas. Em 1911, houve a descoberta do núcleo atômico, pelo britânico Rutherford, e em seguida a criação do modelo atômico, a base da moderna física nuclear: elétrons em órbita em torno do núcleo, tal como um sistema solar miniaturizado. Foi considerado inteiramente absurdo e irracional, pois, de acordo com a física newtoniana, o elétron, ao girar, perderia energia, e cairia para dentro do núcleo. Entretanto, em 1923, Bohr, que sabia dos “quanta” de Max Planck, estudou a órbita dos elétrons e encontrou a solução para o problema. No modelo de Bohr, os elétrons saltam aleatoriamente de uma órbita para outra, e, de acordo com o que a teoria ensina a calcular, a probabilidade de perder energia é zero. Graças a isso os átomos ficam inteiros. Entram em cena, desse modo, saltos que se fazem inteiramente ao acaso.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> De várias maneiras a mecânica quântica mostrou-se subversiva. Tornou-se claro, por exemplo, que o próprio processo de observar fenômenos no nível subatômico, na verdade, os modificava. Um pesquisador assim se manifestou a respeito da investigação detalhada para descobrir onde estava “realmente” um elétron: “Olhá-lo é derrubá-lo”.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> A mecânica quântica permitiu solucionar o problema da natureza da luz. Havia duas teorias, a corpuscular e a ondulatória, cada uma com excelentes e irrefutáveis argumentos. Em 1927 o dilema foi resolvido com o recurso a estados quânticos —os fótons— que se manifestavam potencialmente como onda ou partícula, ou como ambas. </span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> O acaso ou a ausência de causa nos fenômenos quânticos torna complexa a questão da previsibilidade. O processo aleatório não descreve, obviamente, um padrão determinístico, mas segue uma distribuição de probabilidades, que permite cálculos precisos. Num aspecto a mecânica quântica foi semelhante à outra parte da física: o século XX foi o século dos teóricos dizendo aos práticos o que buscar à luz de suas teorias, com as equações em pranchetas de papel precedendo às experiências de laboratório. Foi o século dos matemáticos. Para dar um exemplo famoso e que teve desfecho recente: o bóson de Higgs, predito pelo físico britânico em 1964, e encontrado em 2012.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">A Equação de Schrödinger, proposta por este físico austríaco em 1925, está para a mecânica quântica assim como a segunda Lei de Newton está para a mecânica clássica. É a fórmula mais importante da teoria, mas ela trata apenas de probabilidades, ou seja, de números abstratos. Schrödinger disse, em 1935, que para levar a sério as leis da quântica, seria preciso acreditar em mortos-vivos. Para ilustrar, imaginou uma experiência na qual um gato era trancado numa caixa de metal junto com um vidro de veneno e um pedaço de metal radioativo. Depois de uma hora, o que seria do animal? A resposta dependia do metal. Se emitisse radiação, e a probabilidade era de 50%, faria o vidro quebrar e o veneno liquidaria o gato. Se não, o felino passaria incólume pela armadilha. Como, para as regras quânticas, nenhuma das duas possibilidades poderia ser excluída, enquanto a caixa estivesse fechada e ninguém olhasse lá dentro, o gato permaneceria num estado indefinido, vivo e morto ao mesmo tempo.</span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Poderiam os físicos aprender a viver com a permanente contradição? Para Bohr, poderiam e deveriam. A totalidade da matéria não cabe numa descrição única, dada a natureza da linguagem humana. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Como então conciliar a Teoria da Relatividade com a mecânica quântica, ou as duas com a velha física newtoniana? Ninguém sabe.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> “Posso dizer sem me enganar que ninguém compreende a mecânica quântica”, escreveu o americano Feynman, um dos cientistas mais brilhantes do século passado.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> A freqüente perplexidade não impede que as pesquisas avancem, cada vez mais ambiciosas. Em 1996, os físicos americanos Wineland e Monroe conseguiram fazer um átomo aparecer em dois pontos diferentes do espaço no mesmo e exato instante. Já se sabia que as partículas subatômicas eram capazes desse tipo de proeza, mas ninguém tinha demonstrado que o efeito alcançava um átomo inteiro. Para os autores, as equações não deveriam ficar confinadas ao campo das coisas extremamente pequenas: “No centro dessa questão histórica está a universalidade da mecânica quântica.”</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p6"><span class="s1"> <b>Conclusão</b></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> É hora de concluir. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Com base no exposto, não resulta razoável opor <i>o saber no real</i> da ciência ao <i>real sem lei</i> da psicanálise. </span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> Seria mais sensato fazer duas aproximações. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1">A) Entre o real do primeiro ensino de Lacan e o real da física newtoniana ou einsteiniana. </span></p>
<p class="p11"><span class="s1">B) Entre o real do último ensino de Lacan e o real da mecânica quântica. </span></p>
<p class="p5"><span class="s1">Finalmente, dois apelos.</span></p>
<p class="p6"><span class="s1"> O primeiro, para Einstein. Esteja onde estiver, que ele ouça: <i>Deus, sim, joga dados.</i></span></p>
<p class="p6"><span class="s1"><i> </i>O segundo, para os psicanalistas de orientação lacaniana. Que eles saibam: antes, muito antes da psicanálise, a ciência já cogitava de um real sem lei.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p class="p6">
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