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	<title>Seção literária | Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
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		<title>O Evangelho segundo Judas Isacariotes</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 10 May 2026 13:28:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Fany Bullinger, de Zurique, herdeira de magnata da indústria farmacêutica suíça, fez de tudo o que gostaria de fazer na vida. Resta-lhe um sonho, ou, para ser mais preciso, <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-evangelho-segundo-judas-isacariotes/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O Evangelho segundo Judas Isacariotes</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Fany Bullinger, de Zurique, herdeira de magnata da indústria farmacêutica suíça, fez de tudo o que gostaria de fazer na vida. Resta-lhe um sonho, ou, para ser mais preciso, uma verdadeira obsessão. Cristã fervorosa, busca melhores provas para demonstrar, historicamente, a existência de Jesus Cristo. Investiga, com zelo e afinco, os caminhos que podem levar a isso.</p>
<p>Um dos Evangelhos mais antigos que se conhece é o de Judas Iscariotes, documento considerado autêntico e datado do século II ou III. Fany Bullinger interessa-se por ele. Foi descoberto no Egito, onde existem muitos cristãos coptas, descendentes dos antigos egípcios que se converteram ao cristianismo no século I. Consideram o evangelista São Marcos o fundador de sua Igreja, e cultivam velhas tradições religiosas. Será que poderiam acrescentar algo sobre a existência histórica de Cristo?</p>
<p>Uma visita a uma de suas autoridades está nos planos. Depois de acionar contatos, Fany Bullinger escolhe, como sua prioridade, o bispo copta Kyrillo, na cidade de Sharm El- Sheikh, na península do Sinai. Um diálogo, então, tem lugar.</p>
<p><em>Bullinger </em>—Senhor Bispo, dedico minha vida e meus recursos ao sonho de encontrar provas históricas da existência de Jesus Cristo. Se levarmos em conta que o povo copta se converteu ao cristianismo no primeiro século da era cristã, além de habitar região bem próxima ao que tudo aconteceu, creio não ser exagero da minha parte dirigir para cá a minha atenção.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Minha Senhora, farei o que estiver ao meu alcance. Seu interesse tem fundamento. O Evangelho de Judas Iscariotes foi descoberto no deserto de El Minya, no sul do Egito, onde vivem muitos coptas. Além disso, o apóstolo mencionado não é para nós, como para vocês, um traidor; muito pelo contrário, é o discípulo mais fiel de Jesus. Sim, para nós é São Judas Iscariotes, que cumpriu o plano divino de salvação.  Isso faz parte de nossa visão gnóstica.</p>
<p><em>Bullinger </em>—Sim, é uma visão diferente&#8230; e a simples existência desse Evangelho já é um dado. O documento encontrado, porém, está fragmentado, e tudo indica que algo se perdeu, que haveria uma parte perdida do Evangelho de Judas Iscariotes.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—É possível. Como lhe disse, nosso povo reverencia São Judas Iscariotes, ao contrário dos demais cristãos. E aqui no Egito, o contraste é muito maior, pois vivemos num país muçulmano, razão pela qual somos perseguidos, violentados, discriminados. Nossa religião nos torna um povo muito sofredor.</p>
<p>Nos dias seguintes, o bispo leva Fany Bullinger para conhecer igrejas e presenciar cultos. Conversam com vários fieis sobre experiências cotidianas de discriminação e de violência. No fim do dia, ao se despedirem, duas manifestações eloquentes.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Os coptas chegam a quase um quinto da população, distribuídos por quase todo o país. Uma coisa a senhora pode concluir: a simples existência de nosso povo é uma demonstração de que, um dia, Jesus Cristo existiu!</p>
<p><em>Bullinger </em>—Estou muito impressionada com o que vi e ouvi. E, de coração, gostaria de fazer uma doação financeira, um gesto que simboliza meu apoio à sobrevivência de vocês.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Ficaremos sensibilizados. Comunicarei a nossas autoridades, em Alexandria.</p>
<p><em>Bullinger</em>— Sim. E antes de ir-me embora, ainda nos veremos.</p>
<p>Ela mantém outros contatos, mas, nenhuma novidade importante. Chega, então, o dia do último encontro, que se faz com portas fechadas.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Senhora Bullinger, nossas autoridades estão vivamente impressionadas com sua generosidade, e pediram-me que eu lhes contasse a história de sua visita. Relatei com os mínimos detalhes, e eles ficaram muito pensativos. No dia seguinte, chamaram-me para que eu lhe fizesse uma proposta.</p>
<p><em>Bullinger </em>—Estou curiosa&#8230;</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Estamos dispostos a trazer-lhe um segredo nosso, um segredo que mantemos debaixo de sete chaves. Isso, porém, só acontecerá com uma condição: você deverá manter sigilo absoluto sobre o que ouvir aqui. Mediante juramento!</p>
<p><em>Bullinger </em>—Juro por tudo o que há de mais sagrado!</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Então, vamos ao que interessa. Você mencionou a parte perdida do Evangelho de Judas Iscariotes. Devo informar-lhe que essa parte não está mais perdida, ela está escondida. Foi descoberta no deserto de Matay, perto de onde foi encontrada a primeira parte do Evangelho, e em estado de melhor conservação. Foi entregue a um Conselho de sete sábios de minha Igreja, do qual faço parte, que se empenhou em traduzi-lo, pois está escrito em copta primitivo. Concluida a tradução, ficamos extremamente preocupados! O que fazer? O motivo é este: Judas se refere a Jesus como casado com Maria Madalena!</p>
<p>Um silêncio longo e pesado caiu sobre a sala. Foi interrompido pelo bispo.</p>
<p><em>Kyrillo</em>—Você deve antever porque esta parte do Evangelho está escondida. Sim, está num lugar secreto, em pleno deserto de Sinai, e só o Conselho de sábios tem conhecimento de sua existência. A primeira parte do Evangelho traz uma interpretação nova: Judas não é um traidor, mas o fiel cumpridor de um desígnio divino. Essa segunda parte, no entanto, traz um fato novo, e bastante perturbador!</p>
<p><em>Bullinger </em>—Sim, há uma diferença. O fato novo e perturbador é que Jesus não era um celibatário.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Veja o drama. Se o documento é considerado historicamente verídico, isso em nada vai mudar os mais de dois milênios de história do celibato no cristianismo. E tudo vai continuar exatamente como está. A segunda parte do Evangelho será tratada como falsa, ou como um manuscrito profanador. E os coptas, que descobriram e divulgaram o manuscrito, além de perseguidos pelos muçulmanos, passarão a ser perseguidos, também, pelos outros cristãos! O Conselho de Sábios não teve escolha: declarou que o documento encontrado era uma peça sem nenhuma importância histórica.</p>
<p><em>Bullinger </em>—E ordenou escondê-lo debaixo de sete chaves.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Exatamente.</p>
<p><em>Bullinger </em>—Fica claro, desse modo, o seguinte ponto: a verdade histórica interessa à História, mas, não, à Religião. Porquanto, para a Religião, o que importa é a narrativa básica, ainda que não tenha fundamento histórico ou factual.</p>
<p><em>Kyrillo </em>—Foi, também, a nossa conclusão. O alicerce da Religião, às vezes chamado de mito fundador, não tem base somente na história ou em fatos, nem se abala com descobertas científicas, e pode, inclusive, tentar invalidá-las. A divulgação da segunda parte do Evangelho de Judas Iscariotes não contribuiria em nada para nossa gnose mística, e ainda teria como consequência a fúria perseguidora dos outros cristãos sobre nós.</p>
<p><em>Bullinger </em>—Ora, o deserto do Sinai é um destino nobre&#8230;</p>
<p>Fany Bullinger retorna a Zurique com novos planos em mente. Um outro sonho, ou uma outra obsessão, povoa sua vida: a defesa dos direitos dos cristãos coptas. Falece muito tempo depois, tendo cumprido rigorosamente seu juramento: o de nunca revelar o segredo que lhe foi confiado pelas autoridades coptas.</p>
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		<title>Cruzeiro pelo rio São Francisco (1967)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 18:06:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Minha irmã, Maria Ignez Paes Barreto, hoje com 88 anos, fez parte, em 1967, de um cruzeiro pelo rio São Francisco, com onze dias de duração, de Pirapora (MG) <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/cruzeiro-pelo-rio-sao-francisco-1967/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Cruzeiro pelo rio São Francisco (1967)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Minha irmã, Maria Ignez Paes Barreto, hoje com 88 anos, fez parte, em 1967, de um cruzeiro pelo rio São Francisco, com onze dias de duração, de Pirapora (MG) a Juazeiro (BA). Experiência fascinante, que, entretanto, há muito não é mais possível. O rio, degradado, com o caudal diminuído, com o leito assoreado, cheio de bancos de areia, não mais permite navegação de embarcações de maior calado. Razão pela qual considero importante algum registro daquela aventura, que, talvez, possa interessar a quem ama esse rio, famoso por sua beleza e por sua importância histórica e cultural.</p>
<p>O registro será feito mediante perguntas e respostas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-664 size-full" src="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1.png" alt="" width="825" height="546" srcset="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1.png 825w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1-300x199.png 300w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1-130x86.png 130w" sizes="(max-width: 825px) 100vw, 825px" /></p>
<p>O Wenceslau Braz em 1967</p>
<p>(https://proteuseducacaopatrimonial.blogspot.com/2016/10/o-sertao-do-sao-francisco-ao-longodos.html)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Francisco Paes Barreto — Sua viagem pelo São Francisco aconteceu em 1967, de Pirapora a Juazeiro. Qual o nome do navio?</p>
<p>Maria Ignez Paes Barreto — Um navio-gaiola chamado Wenceslau Braz. Vários navios-gaiolas navegaram pelo São Francisco. O Wenceslau Braz era o mais apropriado para turismo.</p>
<p>FPB — Qual a duração da viagem?</p>
<p>MIPB — A duração da viagem seria de seis dias, mas, no final, foram onze dias.  Isso porque o vapor encalhou em bancos de areia algumas vezes, não me lembro quantas (já existiam, portanto, bancos de areia). Nessas ocasiões, precisou de reboque. A navegação era conduzida de maneira muito precária, por marinheiros práticos, sem ajuda de instrumentos adequados. Eles eram guiados apenas pelo conhecimento do rio, seja uma árvore, uma cidade ou uma pedreira.</p>
<p>FPB — Quantos passageiros, quantos tripulantes?</p>
<p>MIPB — Éramos cerca de 20 passageiros, de diferentes cidades do Brasil, a maioria de Belo Horizonte, São Paulo e Pomerode/SC. Os tripulantes consistiam no Comandante e seu auxiliar, no pessoal da cozinha e no da limpeza.</p>
<p>FPB — Como era o Wenceslau Braz?</p>
<p>MIPB— Um vapor muito simples, praticamente sem conforto. Muito bem cuidado, e com comida saborosa (com frequência, carne de sol e peixes). Bebida, somente caipirinha. O barulho que fazia não nos deixava dormir até muito tarde. Mas, ninguém se importava com isso. Dormir? Perder o espetáculo da beleza das margens, cada uma de um jeito, e que mudava sem parar? E, além disso: conversar, ouvir um belo violão, cantar&#8230; e até fomos brindados com um luar!</p>
<p>FPB — Qual foi o percurso do Wenceslau Braz?</p>
<p>MIPB — O vapor passou por numerosos municípios. Com auxílio do mapa, mencionarei alguns.</p>
<p>Em Minas Gerais: o ponto de partida foi Pirapora (margem direita). E ainda: Buritis (margem esquerda), Barra do Guaicuí (município de Várzea da Palma, na margem direita), Ibiaí (md), São Romão (me), São Francisco (md), Pedras de Maria da Cruz (md), Januária (me), Matias Cardoso (md), Manga (me).</p>
<p>Na Bahia: Carinhanha (me), Bom Jesus da Lapa (md), Paratinga (md), Ibotirama (md), Barra (me), Xique-Xique (md), Pilão Arcado (me), Remanso, (me), Piçarrão (md), Sobradinho (md), e, por fim, Juazeiro (md).</p>
<p>As cidades eram avistadas ao longe, e mesmo isso nem sempre acontecia. O navio parava apenas para abastecer de lenha e suprimentos. Nessas ocasiões, descíamos para pequeno passeio na localidade. Lembro-me, apenas, de Januária, Bom Jesus da Lapa e Remanso.</p>
<p>FPB — Como era o convívio com as pessoas durante a viagem e quais os principais programas?</p>
<p>MIPB — O Comandante era pessoa muito amável. Ficar a seu lado era um prazer, enquanto ele nos chamava a atenção para a beleza das margens ou para a dificuldade da condução do vapor pelos caminhos do rio. Com os demais tripulantes tínhamos pouco contato.</p>
<p>Estávamos num ambiente restrito e sem comunicação com o restante do mundo. Só restava nos divertir e esquecer de tudo lá fora&#8230; Eram poucas as exigências sociais no modo de bem vestir e de se cuidar. O que importava era a boa convivência e o desfrute da viagem.</p>
<p>A principal atração era a paisagem deslumbrante. De manhã, à tarde e nas noites de luar. O que não nos impedia de conversar, jogar baralho ou outros jogos, ouvir um violão e cantar!</p>
<p>Por duas vezes foi possível um banho com segurança, no Velho Chico.</p>
<p>Aventura inesquecível, da qual ficaram boas lembranças e uma grande saudade!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-665 size-full" src="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2.png" alt="" width="825" height="481" srcset="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2.png 825w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2-300x175.png 300w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2-130x76.png 130w" sizes="(max-width: 825px) 100vw, 825px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Banhistas se divertem durante o cruzeiro.</p>
<p>(https://www.instagram.com/juazeiro_/p/DF3G9Hypnzs/)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Wenceslau Braz sofreu naufrágio em 1968, na Cachoeira do Sobrado, onde hoje está localizada a barragem de Sobradinho. Foi desativado em1975, e em 1981 foi transformado em chata, para transportar carvão vegetal.</p>
<p>Dentre todos os navios-gaiolas do São Francisco, somente o Benjamim Guimarães, restaurado, continua navegando em pequenos passeios turísticos, a partir de Pirapora.</p>
<p>É o único vapor a lenha do mundo em navegação!</p>
<p>(https://tudoissoejanuaria.blogspot.com/2011/07/os-gaiolas-do-sao-francisco-quase.html)</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O primeiro Paes Barreto no Brasil</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/joao-paes-barreto-1544-1617-o-primeiro-paes-barreto-no-brasil/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Mar 2025 22:31:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; &#160;             João Paes Barreto (1544-1617) &#160; Olinda é fundada em 1535 por Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. João Paes Barreto <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/joao-paes-barreto-1544-1617-o-primeiro-paes-barreto-no-brasil/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O primeiro Paes Barreto no Brasil</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>            João Paes Barreto (1544-1617)</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Olinda é fundada em 1535 por Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. João Paes Barreto desembarca na região em 1560. Ainda adolescente (16 anos), vem em busca de oportunidades no Brasil-Colônia.</p>
<p><strong>            Antecedentes</strong></p>
<p>João Paes Velho Barreto nasce em 1544 em Viana do Castelo, situada no norte de Portugal, na fronteira com a Espanha, na foz do rio Lima. De família nobre, seu pai, Antônio Velho Barreto, é Cavaleiro da Ordem de Cristo e morgado de Bilheiras.</p>
<p>O morgadio é uma forma de organização familiar que, na época, em Portugal, privilegia o primogênito na herança dos bens. Antônio Velho Barreto possui dois filhos: Antônio Paes Velho Barreto e João Paes Velho Barreto. Com a morte do patriarca, o primogênito herda o título de morgado e toda a fortuna. Sobrou para o segundo filho apenas o suficiente para chegar ao Brasil.</p>
<p><strong>            Operações militares</strong></p>
<p>Em 1560, ao chegar, logo começa a trabalhar e em seguida entra para as milícias que ajudam a conquistar o sul da Capitania. Participa, como Capitão dos Cavalos, de várias campanhas contra os indígenas da Mata Sul. As terras, à medida em que são ocupadas, são repartidas entre portugueses com relevantes serviços prestados à Donataria de Pernambuco ou ao Reino de Portugal. Assim, em 1580, João Paes Barreto recebe terras férteis como sesmaria e funda o Morgado do Cabo de Santo Agostinho.</p>
<p>Em 1584 é lembrado como herói da batalha da Baía da Traição, na Paraíba, onde luta com seus 300 homens contra os índios potiguaras, após 05 dias de viagem.</p>
<p>E em 1592 é Comandante de um dos navios armados em guerra para a expulsão definitiva dos índios e franceses do Rio Grande do Norte.</p>
<p><strong>            Engenhos</strong></p>
<p>Ao casar-se com Inês Guardez de Andrade, João Paes Barreto recebe, como dote, o Engenho Guerra. Início de exitosa vida de empresário. Chega a possuir cerca de dez engenhos, tendo contribuído para o desenvolvimento da cultura açucareira na Capitania de Pernambuco. Foi considerado, em certo momento, o homem mais rico do Brasil.</p>
<p>Ele permanece como símbolo da força econômica e militar da elite pernambucana colonial. É o primeiro a deixar um engenho para cada filho. Seu legado sobrevive na aristocracia rural, apesar de as invasões holandesas levarem ao confisco de muitos bens de seus descendentes.</p>
<p>O casal deixa oito filhos: 1) João Paes Barreto. 2) Estêvão Paes Barreto. 3) Filipe Paes Barreto. 4) Cristóvão Paes Barreto. 5) Miguel Paes Barreto. 6) Diogo Paes Barreto. 7) Catarina Paes Barreto. 8) Maria Paes Barreto. Desses, Estêvão, Filipe, Cristóvão e Catarina deixam descendência. Ponto de partida de importantes troncos familiares no Brasil, cujos principais prenomes são: João, Francisco, Xavier.</p>
<p>João Paes Barreto destaca-se como benfeitor da Casa de Misericórdia de Olinda. Falece em 21 de maio de 1617 e está sepultado na Capela do Hospital da Santa Casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fonte principal: Noêmia Paes Barreto Brandão. “Paes Barreto de Rio Formoso. Solar de Mamucabas.” Rabaço Editora. 1992.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>            </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O Congresso (um conto mineiro sobre a doença mental)</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/o-congresso-um-conto-mineiro-sobre-a-doenca-mental/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 18:13:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Há não muitos e muitos anos, num país não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, os sábios e também os leigos estavam cada vez mais <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-congresso-um-conto-mineiro-sobre-a-doenca-mental/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O Congresso (um conto mineiro sobre a doença mental)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Há não muitos e muitos anos, num país não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, os sábios e também os leigos estavam cada vez mais preocupados com o aumento das doenças mentais, o que, segundo dados (idôneos) do governo, resultava num terrível, pavoroso, multinacional aumento do número de doentes mentais, que, além de abarrotarem os hospitais psiquiátricos e de serem por eles abarrotados, estavam ainda vicejando por todos os cantos nas monstrópoles.  Pois é.  Foi aí que decidiram, como era de praxe, realizar um Congresso, recrutando as maiores e mais afamadas autoridades, uma de cada área e uma de cada ária.  Um psiquiatra benigno, um psicólogo crível, um psicanalista loquaz, um parapsicólogo realista, um curandeiro honesto, um sacerdote casto e um distinto macumbeiro.  Em suma, sumidades que se somem.</p>
<p>–– Quem está melhor capacitado para curar o doente mental ––disse o psiquiatra durante o Congresso–– é o psiquiatra.  Somente um médico especializado pode compreender a influência do corpo sobre a mente, descobrir o distúrbio orgânico que causa a doença mental, e encontrar o remédio para essa moléstia.</p>
<p>–– Discordo ––aparteou o psicólogo–– porque a doença mental, como o próprio nome já indica, é uma doença da mente ––argumentou com a perspicácia de uma águia.  E concluiu:  ––  Sendo assim, só mesmo um psicólogo para sondar a insondável lógica do psiquismo humano e refrescar os seus males.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>–– Sinto muito, mas não posso endossar os psicolegas que me precederam ––sussurrou o psicanalista.  –– A doença mental não está no corpo nem na mente, mas numa região especial que começa num e acaba noutro: o inconsciente.  Mas lá quem chega é só eu.</p>
<p>–– Não está em nenhum desses lugares ––esbravejou o parapsicólogo.  –– Os sábios que falaram até agora estão se baseando em fenômenos normais, examinados através da percepção sensorial.  Para detectar as verdadeiras causas da doença mental, precisamos estudar os fenômenos paranormais, através da percepção extra-sensorial.  Disso, só a minha metapessoa é capaz.</p>
<p>–– Quá quá ––zombou o curandeiro.  –– Vocês olham tudo, mas não vêem o mais óbvio: a natureza.  É ela que influencia a cada segundo os organismos, levando-os à saúde ou à doença.  Eu, utilizando uma fórmula que tem por ingredientes algumas substâncias naturais, muita esperteza e uma pitada de fé, curo mais doentes mentais do que todos vocês reunidos.</p>
<p>–– Com exceção de mim, reagiu o sacerdote.  –– Por motivo muito simples: a causa primeira da doença mental não está no corpo nem na mente, não está na natureza nem no inconsciente, não está no mundo normal nem no paranormal.  Está é no outro mundo:  está em Deus, Ele é que tem a causa e a solução de todos os problemas.  E Ele é meu parceiro.</p>
<p>–– Mas infelizmente ––falou com ironia o macumbeiro–– isso só não basta.  O seu Oxalá é responsável apenas pelas boas coisas que existem no mundo.  As coisas más, devemo-las a Exu.  É necessário ter parte com Ambos, para obter o sucesso que só eu obtenho.</p>
<p>Resultado:  o Congresso viu-se em grave impasse.  E os sábios, profundamente deprimidos e angustiados, pois não chegaram ao consenso.  Num dado momento, um deles, não se sabe qual, mas o leitor já pode exercitar a sua preferência, um deles teve idéia genial:</p>
<p>–– Nossa dúvida é dilacerante, não chegamos a uma conclusão.  Antigamente, numa situação como essa, os sábios procuravam ouvir os conselhos dos mais velhos&#8230;  Por que não fazemos o mesmo ?  Eu conheço um ancião, um sábio que tem cem anos, mas com saúde de ferro e memória de elefante.  É muito respeitado e mora numa cidadezinha do interior, uma das poucas que ainda não foram beneficiadas pelo progresso.  Por que não vamos lá?</p>
<p>A sugestão foi unanimemente aceita.  Chegando lá, o psiquiatra iniciou o diálogo:</p>
<p>–– Ó Velho Sábio, vimos pedir-lhe ajuda.  Nossa cidade está, cada vez mais, infestada de doentes mentais.  Estamos alarmados, já não sabemos o que fazer.</p>
<p>–– Pois não, meus filhos.  Farei o que puder.  Expliquem-me, primeiro, uma coisa:  o que é um doente mental?  Não sei de que estão falando.</p>
<p>Perplexos, os sábios explicaram, cada um a seu modo, o que era um doente mental.</p>
<p>–– Serei sincero ––advertiu o Velho Sábio.  –– Estou muito velho para crer em teorias.  Se querem o meu auxílio, levem-me para conhecer a sua cidade e para ver essas pessoas, os doentes mentais.</p>
<p>O pedido foi realizado.  Os congressistas mostraram-lhe a cidade e dirigiram-se a um hospital psiquiátrico.  O psiquiatra foi lá dentro, buscou um paciente ––um senhor idoso–– e, apresentando-o ao ilustre visitante, disse-lhe:</p>
<p>–– Eis aqui um doente mental.  É um Processo de Demência Senil.</p>
<p>O Velho Sábio tomou o senhor pelas mãos, passeou e conversou com ele, e ao voltar concluiu:</p>
<p>–– Um indivíduo caduco.  Na minha terra os caducos são tratados por suas próprias famílias, com paciência e carinho.  Parece que vocês não têm tempo para isso, não é mesmo?</p>
<p>–– Agora, sim, um doente mental.  Um Oligofrênico.</p>
<p>Após nova conversa, o Velho Sábio exclamou:</p>
<p>–– É um menino retardado.  Na minha cidade existem alguns.  Não são inteligentes, mas ajudam na lavoura, ou, na pior das hipóteses, brincam com algazarra nos quintais das casas.  Mas a cidade de vocês é engraçada&#8230;  Vocês constroem as casas umas em cima das outras&#8230;</p>
<p>–– O protótipo de um doente mental:  um genuíno Esquizofrênico Paranóide!</p>
<p>Não demorou muito&#8230;</p>
<p>–– O louco é figura muito característica.  Conheço um que vive envolto em suas crenças e em suas cismas.  As pessoas não conseguem entendê-lo, mas deixam-no à vontade.  Os loucos só se tornam perigosos quando violentados.  A cidade de vocês é muito violenta.  Eu acho que&#8230;</p>
<p>–– Converse com este, mas cuidado: é muito perigoso.  Uma bela Personalidade Psicopática.</p>
<p>O veredicto confirmou:</p>
<p>–– Sujeito realmente perigoso.  Eu diria que é um mau elemento.  Na minha cidade existem poucos.  Aqui, não é de se estranhar que existam muitos.  Os casebres dão nojo a um porco e os palacetes nem mesmo um pavão&#8230;</p>
<p>–– Uma Toxicomania ––garantiu-lhe o psiquiatra.  ––Esta doença mental tem sido um pesadelo para nós.</p>
<p>–– Mas por que só esta pessoa foi internada?  Lá fora fuma-se desbragadamente, entope-se de bebidas alcoólicas, o ar está cheio de gases tóxicos, os alimentos carregados de venenos, os rios são um bueiro fedorento e sem vida&#8230;</p>
<p>Quando o psiquiatra apresentou-lhe o Alcoólatra, o Velho Sábio não se conteve:</p>
<p>–– O senhor jé me trouxe um caduco, um retardado, um louco, um mau elemento, um viciado e agora me traz um bêbado.  São figuras típicas em qualquer lugar, mas nada têm umas com as outras.  Ainda não sei o que é um doente mental.  É todo pobre diabo que perturba a vida de sua grande cidade?</p>
<p>Muito impressionado, o psiquiatra propôs:</p>
<p>–– Vamos retirar-nos por alguns instantes, Velho Sábio.  Precisamos meditar sobre suas graves palavras.  Aguarde-nos aqui.</p>
<p>Os sábios congressistas reuniram-se e, após pesado silêncio, cada um deu a sua opinião.</p>
<p>O psiquiatra afirmou:</p>
<p>–– O cérebro do Velho Sábio dá mostras de grave lesão.</p>
<p>O psicólogo advertiu:</p>
<p>–– Sua mente é um retrato vivo da morbidez.</p>
<p>O psicanalista exclamou:</p>
<p>–– Seu inconsciente está à flor da pele.</p>
<p>O parapsicólogo garantiu:</p>
<p>–– Influências paranormais ali se concentram.</p>
<p>O curandeiro percebeu:</p>
<p>–– A natureza fustigou esse velho organismo.</p>
<p>O sacerdote salientou:</p>
<p>–– Deus aplicou-lhe as mais árduas provações.</p>
<p>O macumbeiro finalizou:</p>
<p>–– E Exu não lhe dá um só minuto de trégua.</p>
<p>O psiquiatra ficou encarregado de comunicar-lhe o resultado:</p>
<p>–– Escuta aqui, ó, vovô:  tenho boa notícia.  Para o seu próprio bem, você vai ficar internado neste hospital, fazendo um tratamento.</p>
<p>E foi assim que, num tempo que não se sabe quando, e num lugar que não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, encerrou-se melancolicamente um inglório Congresso, que nada deixou para a posteridade.  Aliás, minto.  Deixou nota lacônica.</p>
<p>“Nós, os congressistas abaixo assinados, não conseguimos chegar a um acordo quanto ao desafio que representa o aumento das doenças e dos doentes mentais.  Nossa única esperança é a de que a Misericórdia de Deus ou as Luzes da Ciência venham abrir os corações e as mentes dos homens, tornando-os capazes de resolver este grave problema, que tem transformado a vida em sociedade numa trajetória tão sofrida e espinhosa”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Publicado em Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, Itatiaia, 1999)</p>
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