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	<title>Seção literária | Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
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		<title>Cruzeiro pelo rio São Francisco (1967)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 27 Apr 2025 18:06:35 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Minha irmã, Maria Ignez Paes Barreto, hoje com 88 anos, fez parte, em 1967, de um cruzeiro pelo rio São Francisco, com onze dias de duração, de Pirapora (MG) <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/cruzeiro-pelo-rio-sao-francisco-1967/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Cruzeiro pelo rio São Francisco (1967)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Minha irmã, Maria Ignez Paes Barreto, hoje com 88 anos, fez parte, em 1967, de um cruzeiro pelo rio São Francisco, com onze dias de duração, de Pirapora (MG) a Juazeiro (BA). Experiência fascinante, que, entretanto, há muito não é mais possível. O rio, degradado, com o caudal diminuído, com o leito assoreado, cheio de bancos de areia, não mais permite navegação de embarcações de maior calado. Razão pela qual considero importante algum registro daquela aventura, que, talvez, possa interessar a quem ama esse rio, famoso por sua beleza e por sua importância histórica e cultural.</p>
<p>O registro será feito mediante perguntas e respostas.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img fetchpriority="high" decoding="async" class="aligncenter wp-image-664 size-full" src="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1.png" alt="" width="825" height="546" srcset="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1.png 825w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1-300x199.png 300w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-1-130x86.png 130w" sizes="(max-width: 825px) 100vw, 825px" /></p>
<p>O Wenceslau Braz em 1967</p>
<p>(https://proteuseducacaopatrimonial.blogspot.com/2016/10/o-sertao-do-sao-francisco-ao-longodos.html)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Francisco Paes Barreto — Sua viagem pelo São Francisco aconteceu em 1967, de Pirapora a Juazeiro. Qual o nome do navio?</p>
<p>Maria Ignez Paes Barreto — Um navio-gaiola chamado Wenceslau Braz. Vários navios-gaiolas navegaram pelo São Francisco. O Wenceslau Braz era o mais apropriado para turismo.</p>
<p>FPB — Qual a duração da viagem?</p>
<p>MIPB — A duração da viagem seria de seis dias, mas, no final, foram onze dias.  Isso porque o vapor encalhou em bancos de areia algumas vezes, não me lembro quantas (já existiam, portanto, bancos de areia). Nessas ocasiões, precisou de reboque. A navegação era conduzida de maneira muito precária, por marinheiros práticos, sem ajuda de instrumentos adequados. Eles eram guiados apenas pelo conhecimento do rio, seja uma árvore, uma cidade ou uma pedreira.</p>
<p>FPB — Quantos passageiros, quantos tripulantes?</p>
<p>MIPB — Éramos cerca de 20 passageiros, de diferentes cidades do Brasil, a maioria de Belo Horizonte, São Paulo e Pomerode/SC. Os tripulantes consistiam no Comandante e seu auxiliar, no pessoal da cozinha e no da limpeza.</p>
<p>FPB — Como era o Wenceslau Braz?</p>
<p>MIPB— Um vapor muito simples, praticamente sem conforto. Muito bem cuidado, e com comida saborosa (com frequência, carne de sol e peixes). Bebida, somente caipirinha. O barulho que fazia não nos deixava dormir até muito tarde. Mas, ninguém se importava com isso. Dormir? Perder o espetáculo da beleza das margens, cada uma de um jeito, e que mudava sem parar? E, além disso: conversar, ouvir um belo violão, cantar&#8230; e até fomos brindados com um luar!</p>
<p>FPB — Qual foi o percurso do Wenceslau Braz?</p>
<p>MIPB — O vapor passou por numerosos municípios. Com auxílio do mapa, mencionarei alguns.</p>
<p>Em Minas Gerais: o ponto de partida foi Pirapora (margem direita). E ainda: Buritis (margem esquerda), Barra do Guaicuí (município de Várzea da Palma, na margem direita), Ibiaí (md), São Romão (me), São Francisco (md), Pedras de Maria da Cruz (md), Januária (me), Matias Cardoso (md), Manga (me).</p>
<p>Na Bahia: Carinhanha (me), Bom Jesus da Lapa (md), Paratinga (md), Ibotirama (md), Barra (me), Xique-Xique (md), Pilão Arcado (me), Remanso, (me), Piçarrão (md), Sobradinho (md), e, por fim, Juazeiro (md).</p>
<p>As cidades eram avistadas ao longe, e mesmo isso nem sempre acontecia. O navio parava apenas para abastecer de lenha e suprimentos. Nessas ocasiões, descíamos para pequeno passeio na localidade. Lembro-me, apenas, de Januária, Bom Jesus da Lapa e Remanso.</p>
<p>FPB — Como era o convívio com as pessoas durante a viagem e quais os principais programas?</p>
<p>MIPB — O Comandante era pessoa muito amável. Ficar a seu lado era um prazer, enquanto ele nos chamava a atenção para a beleza das margens ou para a dificuldade da condução do vapor pelos caminhos do rio. Com os demais tripulantes tínhamos pouco contato.</p>
<p>Estávamos num ambiente restrito e sem comunicação com o restante do mundo. Só restava nos divertir e esquecer de tudo lá fora&#8230; Eram poucas as exigências sociais no modo de bem vestir e de se cuidar. O que importava era a boa convivência e o desfrute da viagem.</p>
<p>A principal atração era a paisagem deslumbrante. De manhã, à tarde e nas noites de luar. O que não nos impedia de conversar, jogar baralho ou outros jogos, ouvir um violão e cantar!</p>
<p>Por duas vezes foi possível um banho com segurança, no Velho Chico.</p>
<p>Aventura inesquecível, da qual ficaram boas lembranças e uma grande saudade!</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><img decoding="async" class="aligncenter wp-image-665 size-full" src="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2.png" alt="" width="825" height="481" srcset="https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2.png 825w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2-300x175.png 300w, https://www.franciscopaesbarreto.com/wp-content/uploads/2025/04/Wenceslau-2-130x76.png 130w" sizes="(max-width: 825px) 100vw, 825px" /></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Banhistas se divertem durante o cruzeiro.</p>
<p>(https://www.instagram.com/juazeiro_/p/DF3G9Hypnzs/)</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>O Wenceslau Braz sofreu naufrágio em 1968, na Cachoeira do Sobrado, onde hoje está localizada a barragem de Sobradinho. Foi desativado em1975, e em 1981 foi transformado em chata, para transportar carvão vegetal.</p>
<p>Dentre todos os navios-gaiolas do São Francisco, somente o Benjamim Guimarães, restaurado, continua navegando em pequenos passeios turísticos, a partir de Pirapora.</p>
<p>É o único vapor a lenha do mundo em navegação!</p>
<p>(https://tudoissoejanuaria.blogspot.com/2011/07/os-gaiolas-do-sao-francisco-quase.html)</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O primeiro Paes Barreto no Brasil</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 25 Mar 2025 22:31:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; &#160;             João Paes Barreto (1544-1617) &#160; Olinda é fundada em 1535 por Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. João Paes Barreto <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/joao-paes-barreto-1544-1617-o-primeiro-paes-barreto-no-brasil/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O primeiro Paes Barreto no Brasil</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong>            João Paes Barreto (1544-1617)</strong></p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Olinda é fundada em 1535 por Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco. João Paes Barreto desembarca na região em 1560. Ainda adolescente (16 anos), vem em busca de oportunidades no Brasil-Colônia.</p>
<p><strong>            Antecedentes</strong></p>
<p>João Paes Velho Barreto nasce em 1544 em Viana do Castelo, situada no norte de Portugal, na fronteira com a Espanha, na foz do rio Lima. De família nobre, seu pai, Antônio Velho Barreto, é Cavaleiro da Ordem de Cristo e morgado de Bilheiras.</p>
<p>O morgadio é uma forma de organização familiar que, na época, em Portugal, privilegia o primogênito na herança dos bens. Antônio Velho Barreto possui dois filhos: Antônio Paes Velho Barreto e João Paes Velho Barreto. Com a morte do patriarca, o primogênito herda o título de morgado e toda a fortuna. Sobrou para o segundo filho apenas o suficiente para chegar ao Brasil.</p>
<p><strong>            Operações militares</strong></p>
<p>Em 1560, ao chegar, logo começa a trabalhar e em seguida entra para as milícias que ajudam a conquistar o sul da Capitania. Participa, como Capitão dos Cavalos, de várias campanhas contra os indígenas da Mata Sul. As terras, à medida em que são ocupadas, são repartidas entre portugueses com relevantes serviços prestados à Donataria de Pernambuco ou ao Reino de Portugal. Assim, em 1580, João Paes Barreto recebe terras férteis como sesmaria e funda o Morgado do Cabo de Santo Agostinho.</p>
<p>Em 1584 é lembrado como herói da batalha da Baía da Traição, na Paraíba, onde luta com seus 300 homens contra os índios potiguaras, após 05 dias de viagem.</p>
<p>E em 1592 é Comandante de um dos navios armados em guerra para a expulsão definitiva dos índios e franceses do Rio Grande do Norte.</p>
<p><strong>            Engenhos</strong></p>
<p>Ao casar-se com Inês Guardez de Andrade, João Paes Barreto recebe, como dote, o Engenho Guerra. Início de exitosa vida de empresário. Chega a possuir cerca de dez engenhos, tendo contribuído para o desenvolvimento da cultura açucareira na Capitania de Pernambuco. Foi considerado, em certo momento, o homem mais rico do Brasil.</p>
<p>Ele permanece como símbolo da força econômica e militar da elite pernambucana colonial. É o primeiro a deixar um engenho para cada filho. Seu legado sobrevive na aristocracia rural, apesar de as invasões holandesas levarem ao confisco de muitos bens de seus descendentes.</p>
<p>O casal deixa oito filhos: 1) João Paes Barreto. 2) Estêvão Paes Barreto. 3) Filipe Paes Barreto. 4) Cristóvão Paes Barreto. 5) Miguel Paes Barreto. 6) Diogo Paes Barreto. 7) Catarina Paes Barreto. 8) Maria Paes Barreto. Desses, Estêvão, Filipe, Cristóvão e Catarina deixam descendência. Ponto de partida de importantes troncos familiares no Brasil, cujos principais prenomes são: João, Francisco, Xavier.</p>
<p>João Paes Barreto destaca-se como benfeitor da Casa de Misericórdia de Olinda. Falece em 21 de maio de 1617 e está sepultado na Capela do Hospital da Santa Casa.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>Fonte principal: Noêmia Paes Barreto Brandão. “Paes Barreto de Rio Formoso. Solar de Mamucabas.” Rabaço Editora. 1992.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>            </strong></p>
<p>&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O Congresso (um conto mineiro sobre a doença mental)</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/o-congresso-um-conto-mineiro-sobre-a-doenca-mental/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 Nov 2024 18:13:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Há não muitos e muitos anos, num país não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, os sábios e também os leigos estavam cada vez mais <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-congresso-um-conto-mineiro-sobre-a-doenca-mental/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O Congresso (um conto mineiro sobre a doença mental)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Há não muitos e muitos anos, num país não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, os sábios e também os leigos estavam cada vez mais preocupados com o aumento das doenças mentais, o que, segundo dados (idôneos) do governo, resultava num terrível, pavoroso, multinacional aumento do número de doentes mentais, que, além de abarrotarem os hospitais psiquiátricos e de serem por eles abarrotados, estavam ainda vicejando por todos os cantos nas monstrópoles.  Pois é.  Foi aí que decidiram, como era de praxe, realizar um Congresso, recrutando as maiores e mais afamadas autoridades, uma de cada área e uma de cada ária.  Um psiquiatra benigno, um psicólogo crível, um psicanalista loquaz, um parapsicólogo realista, um curandeiro honesto, um sacerdote casto e um distinto macumbeiro.  Em suma, sumidades que se somem.</p>
<p>–– Quem está melhor capacitado para curar o doente mental ––disse o psiquiatra durante o Congresso–– é o psiquiatra.  Somente um médico especializado pode compreender a influência do corpo sobre a mente, descobrir o distúrbio orgânico que causa a doença mental, e encontrar o remédio para essa moléstia.</p>
<p>–– Discordo ––aparteou o psicólogo–– porque a doença mental, como o próprio nome já indica, é uma doença da mente ––argumentou com a perspicácia de uma águia.  E concluiu:  ––  Sendo assim, só mesmo um psicólogo para sondar a insondável lógica do psiquismo humano e refrescar os seus males.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>–– Sinto muito, mas não posso endossar os psicolegas que me precederam ––sussurrou o psicanalista.  –– A doença mental não está no corpo nem na mente, mas numa região especial que começa num e acaba noutro: o inconsciente.  Mas lá quem chega é só eu.</p>
<p>–– Não está em nenhum desses lugares ––esbravejou o parapsicólogo.  –– Os sábios que falaram até agora estão se baseando em fenômenos normais, examinados através da percepção sensorial.  Para detectar as verdadeiras causas da doença mental, precisamos estudar os fenômenos paranormais, através da percepção extra-sensorial.  Disso, só a minha metapessoa é capaz.</p>
<p>–– Quá quá ––zombou o curandeiro.  –– Vocês olham tudo, mas não vêem o mais óbvio: a natureza.  É ela que influencia a cada segundo os organismos, levando-os à saúde ou à doença.  Eu, utilizando uma fórmula que tem por ingredientes algumas substâncias naturais, muita esperteza e uma pitada de fé, curo mais doentes mentais do que todos vocês reunidos.</p>
<p>–– Com exceção de mim, reagiu o sacerdote.  –– Por motivo muito simples: a causa primeira da doença mental não está no corpo nem na mente, não está na natureza nem no inconsciente, não está no mundo normal nem no paranormal.  Está é no outro mundo:  está em Deus, Ele é que tem a causa e a solução de todos os problemas.  E Ele é meu parceiro.</p>
<p>–– Mas infelizmente ––falou com ironia o macumbeiro–– isso só não basta.  O seu Oxalá é responsável apenas pelas boas coisas que existem no mundo.  As coisas más, devemo-las a Exu.  É necessário ter parte com Ambos, para obter o sucesso que só eu obtenho.</p>
<p>Resultado:  o Congresso viu-se em grave impasse.  E os sábios, profundamente deprimidos e angustiados, pois não chegaram ao consenso.  Num dado momento, um deles, não se sabe qual, mas o leitor já pode exercitar a sua preferência, um deles teve idéia genial:</p>
<p>–– Nossa dúvida é dilacerante, não chegamos a uma conclusão.  Antigamente, numa situação como essa, os sábios procuravam ouvir os conselhos dos mais velhos&#8230;  Por que não fazemos o mesmo ?  Eu conheço um ancião, um sábio que tem cem anos, mas com saúde de ferro e memória de elefante.  É muito respeitado e mora numa cidadezinha do interior, uma das poucas que ainda não foram beneficiadas pelo progresso.  Por que não vamos lá?</p>
<p>A sugestão foi unanimemente aceita.  Chegando lá, o psiquiatra iniciou o diálogo:</p>
<p>–– Ó Velho Sábio, vimos pedir-lhe ajuda.  Nossa cidade está, cada vez mais, infestada de doentes mentais.  Estamos alarmados, já não sabemos o que fazer.</p>
<p>–– Pois não, meus filhos.  Farei o que puder.  Expliquem-me, primeiro, uma coisa:  o que é um doente mental?  Não sei de que estão falando.</p>
<p>Perplexos, os sábios explicaram, cada um a seu modo, o que era um doente mental.</p>
<p>–– Serei sincero ––advertiu o Velho Sábio.  –– Estou muito velho para crer em teorias.  Se querem o meu auxílio, levem-me para conhecer a sua cidade e para ver essas pessoas, os doentes mentais.</p>
<p>O pedido foi realizado.  Os congressistas mostraram-lhe a cidade e dirigiram-se a um hospital psiquiátrico.  O psiquiatra foi lá dentro, buscou um paciente ––um senhor idoso–– e, apresentando-o ao ilustre visitante, disse-lhe:</p>
<p>–– Eis aqui um doente mental.  É um Processo de Demência Senil.</p>
<p>O Velho Sábio tomou o senhor pelas mãos, passeou e conversou com ele, e ao voltar concluiu:</p>
<p>–– Um indivíduo caduco.  Na minha terra os caducos são tratados por suas próprias famílias, com paciência e carinho.  Parece que vocês não têm tempo para isso, não é mesmo?</p>
<p>–– Agora, sim, um doente mental.  Um Oligofrênico.</p>
<p>Após nova conversa, o Velho Sábio exclamou:</p>
<p>–– É um menino retardado.  Na minha cidade existem alguns.  Não são inteligentes, mas ajudam na lavoura, ou, na pior das hipóteses, brincam com algazarra nos quintais das casas.  Mas a cidade de vocês é engraçada&#8230;  Vocês constroem as casas umas em cima das outras&#8230;</p>
<p>–– O protótipo de um doente mental:  um genuíno Esquizofrênico Paranóide!</p>
<p>Não demorou muito&#8230;</p>
<p>–– O louco é figura muito característica.  Conheço um que vive envolto em suas crenças e em suas cismas.  As pessoas não conseguem entendê-lo, mas deixam-no à vontade.  Os loucos só se tornam perigosos quando violentados.  A cidade de vocês é muito violenta.  Eu acho que&#8230;</p>
<p>–– Converse com este, mas cuidado: é muito perigoso.  Uma bela Personalidade Psicopática.</p>
<p>O veredicto confirmou:</p>
<p>–– Sujeito realmente perigoso.  Eu diria que é um mau elemento.  Na minha cidade existem poucos.  Aqui, não é de se estranhar que existam muitos.  Os casebres dão nojo a um porco e os palacetes nem mesmo um pavão&#8230;</p>
<p>–– Uma Toxicomania ––garantiu-lhe o psiquiatra.  ––Esta doença mental tem sido um pesadelo para nós.</p>
<p>–– Mas por que só esta pessoa foi internada?  Lá fora fuma-se desbragadamente, entope-se de bebidas alcoólicas, o ar está cheio de gases tóxicos, os alimentos carregados de venenos, os rios são um bueiro fedorento e sem vida&#8230;</p>
<p>Quando o psiquiatra apresentou-lhe o Alcoólatra, o Velho Sábio não se conteve:</p>
<p>–– O senhor jé me trouxe um caduco, um retardado, um louco, um mau elemento, um viciado e agora me traz um bêbado.  São figuras típicas em qualquer lugar, mas nada têm umas com as outras.  Ainda não sei o que é um doente mental.  É todo pobre diabo que perturba a vida de sua grande cidade?</p>
<p>Muito impressionado, o psiquiatra propôs:</p>
<p>–– Vamos retirar-nos por alguns instantes, Velho Sábio.  Precisamos meditar sobre suas graves palavras.  Aguarde-nos aqui.</p>
<p>Os sábios congressistas reuniram-se e, após pesado silêncio, cada um deu a sua opinião.</p>
<p>O psiquiatra afirmou:</p>
<p>–– O cérebro do Velho Sábio dá mostras de grave lesão.</p>
<p>O psicólogo advertiu:</p>
<p>–– Sua mente é um retrato vivo da morbidez.</p>
<p>O psicanalista exclamou:</p>
<p>–– Seu inconsciente está à flor da pele.</p>
<p>O parapsicólogo garantiu:</p>
<p>–– Influências paranormais ali se concentram.</p>
<p>O curandeiro percebeu:</p>
<p>–– A natureza fustigou esse velho organismo.</p>
<p>O sacerdote salientou:</p>
<p>–– Deus aplicou-lhe as mais árduas provações.</p>
<p>O macumbeiro finalizou:</p>
<p>–– E Exu não lhe dá um só minuto de trégua.</p>
<p>O psiquiatra ficou encarregado de comunicar-lhe o resultado:</p>
<p>–– Escuta aqui, ó, vovô:  tenho boa notícia.  Para o seu próprio bem, você vai ficar internado neste hospital, fazendo um tratamento.</p>
<p>E foi assim que, num tempo que não se sabe quando, e num lugar que não se sabe onde, mas que se presume não muito distante, encerrou-se melancolicamente um inglório Congresso, que nada deixou para a posteridade.  Aliás, minto.  Deixou nota lacônica.</p>
<p>“Nós, os congressistas abaixo assinados, não conseguimos chegar a um acordo quanto ao desafio que representa o aumento das doenças e dos doentes mentais.  Nossa única esperança é a de que a Misericórdia de Deus ou as Luzes da Ciência venham abrir os corações e as mentes dos homens, tornando-os capazes de resolver este grave problema, que tem transformado a vida em sociedade numa trajetória tão sofrida e espinhosa”.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>(Publicado em Reforma Psiquiátrica e Movimento Lacaniano, Itatiaia, 1999)</p>
]]></content:encoded>
					
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		<item>
		<title>O macaco das savanas (ficção?)</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/o-macaco-das-savanas-ficcao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 17 Sep 2024 19:46:01 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Seção literária]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; O humano é o macaco das savanas. Na escala evolutiva, os primatas que precederam o homem eram macacos quadrúpedes que habitavam florestas. O surgimento de nossa linhagem, há mais <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-macaco-das-savanas-ficcao/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O macaco das savanas (ficção?)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>O humano é o macaco das savanas.</p>
<p>Na escala evolutiva, os primatas que precederam o homem eram macacos quadrúpedes que habitavam florestas. O surgimento de nossa linhagem, há mais de dois milhões de anos, é marcado por aspectos que é importante destacar.</p>
<p>Cabe, primeiramente, assinalar a posição ereta. O humano é bípede. Isso libera suas mãos, o que tem consequências impressionantes.</p>
<p>Em vez de florestas, habita savanas, bioma com predomínio de pastos e árvores pequenas. Prefere morar em cavernas.</p>
<p>Durante milhões de anos, um animal insignificante, que sobreviveu a duras penas, com a colheita de frutos e a caça de pequenos animais.</p>
<p>O historiador Harari comenta: ocupava o fim da cadeia alimentar. Sua primeira invenção foi o machado de pedra. Se um leão matava uma girafa, comia à vontade e abandonava a carcaça. Era então a vez das hienas e dos chacais. Depois de todos, chegava o homem, cuidadoso, com seu machado de pedra, e comia a única coisa que restava: o tutano de dentro dos ossos.</p>
<p>Um dia, porém, há cerca de 300 mil anos, tudo começa a mudar. É quando o humano aprende a controlar o fogo. A partir daí, consegue defender-se melhor de seus agressores. Aumenta seu cardápio, cozinhando vegetais e animais. E, sobretudo, multiplica seu poder de caça. Sim, desde então, o fogo é usado para cercar e matar animais de grande porte.</p>
<p>Por volta de 200 mil anos atrás, na África Oriental, surge nossa espécie, o <em>Homo sapiens. </em>Dali, espalha-se pelos outros continentes. E algo nele passa a diferenciá-lo dos outros animais: o desenvolvimento de sua linguagem. Como isso acontece? Enigma.</p>
<p>Anaxágoras, filósofo grego, traz frase plena de mistério: “O homem pensa porque tem mãos”. Pois bem. Aqui será feita a seguinte leitura: quando se tornou bípede e liberou suas mãos, isso permitiu ao humano aprimorar sua linguagem, inicialmente pela fala e depois pela escrita. Síntese rápida demais, tudo se deu em vários milênios.</p>
<p>Outro aspecto fundamental é o tamanho do cérebro, muito maior do que o dos outros animais. Não se sabe se isso antecede à evolução da linguagem ou se é causado por ela. Pode, também, ser ambas as coisas.</p>
<p>Não existe no humano um sistema responsável pela linguagem, apesar da magnitude de sua função. Ela se vale de todos os sistemas, ela parasita todos eles. É mais um dado curioso dessa complexa questão.</p>
<p>Com a agricultura e a pecuária, nascem os transportes, o comércio, as comunicações, as cidades. A explosão populacional traz nova utilidade para o fogo: destruir florestas e aumentar savanas. Sim, para o macaco humano a floresta é inabitável, enquanto que a savana é seu paraíso. É ali que ele cria gado, faz suas culturas, constrói suas habitações.</p>
<p>Isso está no DNA do macaco das savanas. Incêndios florestais sempre ocorreram e ocorrem no mundo inteiro. Em todas as épocas, em todos os continentes. Os indígenas brasileiros, por exemplo, conhecem bem a coivara. Na atualidade, pode-se mencionar, de passagem, os mais recentes e divulgados: na Califórnia, no Canadá, em Portugal, na Grécia, na Rússia, na Indonésia, na Austrália.</p>
<p>De propósito, o Brasil fica por último. O que acontece? Em 2024, o Rio Grande do Sul é devastado por inundações, e o resto do país pelo fogo.</p>
<p>Que futuro teremos? O macaco humano produzirá uma savana global? Sua razão conseguirá domesticar seu DNA?</p>
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