Paradigma: um método de avaliação

O método de validação da ciência é o método estatístico.

A psicanálise lida com singularidades. Cada sujeito é único, é diferente de todo outro sujeito. Cada caso clínico, a mesma coisa. Ora, não se faz estatística com singularidades. Motivo pelo qual a psicanálise muitas vezes não é considerada uma ciência.

A psicanálise não segue o método estatístico, mas tem seu próprio método de validação. Chama-se: paradigma. O que é um paradigma? É um único caso, cuja análise tem validade geral, por revelar uma estrutura lógica. Estrutura lógica que se revela também em vários outros casos do tipo, ou mesmo, em várias outras situações típicas.

Lacan, certa feita, diz: “Tudo o que sabemos de neurose obsessiva se deve à análise que Freud fez do homem dos ratos”. Ou seja, o homem dos ratos é o paradigma da neurose obsessiva.

É possível dar outro exemplo, fora da psicanálise, dentro do campo da geopolítica, que tem sido abordado aqui em recentes artigos.

Durante o primeiro governo Obama, um documentário passado nos Estados Unidos mostra várias famílias acampadas debaixo de uma floresta e morando ali. A repórter pergunta a razão daquela decisão drástica. A resposta: “Tínhamos uma loja de presentes e vivíamos dela. Abriram ao nosso lado outra loja, vendendo quase que os mesmos produtos, só que: procedentes da China”.

A pequena notícia acima pode ser tratada como paradigma, por revelar uma estrutura lógica. Produtos importados da China, mais baratos, são mais competitivos do que os nacionais. A loja de produtos nacionais fecha, causa desemprego. Desempregados que vivem como sem-teto. Tal estrutura se repete em várias partes dos Estados Unidos e em muitíssimas outras partes de todo o mundo.

O paradigma pode dar origem a reflexões ampliadas. Os produtos importados da China procedem de empresas norte-americanas que para lá se mudaram, porque o custo-EUA (mão-de-obra, obrigações sociais, impostos, burocracia, etc.) é muito maior do que o custo-China. Donde se conclui que, com a globalização, o trabalhador chinês concorre com o norte-americano, assim como o comércio.

A reflexão pode ser ainda mais ampla. A globalização tem favorecido a China, em detrimento dos EUA. Conclusão que, na realidade, chega a concretizar-se politicamente, com desdobramentos. Depois de Obama, é eleito Trump, claramente anti-globalista, que abre confronto com a China.

Pela validação lógica, é possível caminhar rápido. Muito mais vagarosa é a evolução vivencial da experiência humana. Razão pela qual a psicanálise pode ser definida como “o lento caminho para o óbvio”.

Por outro lado, na questão sócioeconômica que está sendo focada, o Ocidente custa a perceber a extensão do problema. Enquanto isso, a China caminha rápido demais, numa velocidade verdadeiramente incomum para sociedades humanas.

Quando o Ocidente desperta e a globalização é contida, a China já está em outro patamar.

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