O movimento feminista com frequência acusa Freud e a psicanálise de machistas. Freud seria um típico patriarca que inventa uma teoria machista, que supervaloriza o pai, o viril e o falo, deixando as mulheres e o feminino em segundo plano.
Ora, ora. O cidadão Freud nasce em 1853 e vive em plena era vitoriana, quando a cultura patriarcal atinge seu auge. A crítica mais sensata cabe à cultura da época, e isso ele faz com severa assiduidade, quando aborda, em diversas ocasiões, a moral sexual civilizada, para a qual o sexo só é permitido no âmbito do casamento monogâmico e para fins de procriação (tal como as religiões pregam, ainda hoje). É claro que os homens não se restringem a tais limites, o que configura moral sexual dupla. A repressão maior recai sobre as mulheres, que, além do mais, têm papel social secundário e são depreciadas, como portadoras de “debilidade mental fisiológica”. Freud discorda e atribui a inibição sexual das mulheres à repressão sexual. O futuro vem comprovar que ele está certo, e hoje, com a emancipação, para a qual a psicanálise contribui, mulheres desempenham bem papeis sociais, ao passo que homens padecem de “debilidade mental fisiológica”.
A investigação psicanalítica descobre que, no inconsciente, só há inscrição do sexo masculino, por meio do falo (função simbólica do pênis na dialética subjetiva), carregado de forte investimento narcísico. O contrário, ou seja, a falta dele, é vivida como castração, algo traumático. Acusar Freud de supervalorizar o falo é como querer matar o médico que diagnostica o câncer. A psicanálise faz o inverso daquilo que o feminismo a acusa: mostra que o poder atribuído ao falo é ilusório, e que a falta é estruturante.
Numa época em que o trabalho das mulheres não é valorizado, a psicanálise atrai grande número de profissionais do sexo feminino, que desde sempre estiveram lado a lado com os homens no movimento psicanalítico.
E, se o feminismo tem críticas à psicanálise, a psicanálise também tem críticas ao feminismo. A principal delas: ironicamente, o feminismo é falocêntrico! Ou seja, visa a trazer para as mulheres o poder atribuído aos homens! Nesse sentido, é um machismo de saias, que nasce da inveja do pênis.
Perspectiva inteiramente diferente é o que propõe o movimento gay e o movimento queer. Ser gay sempre esteve ligado a vergonha, humilhação, marginalidade, imoralidade, ilegalidade, etc. E o termo queer, na língua inglesa, também é altamente pejorativo. Os movimentos gay e queer, entretanto, não abrem mão de suas identificações, e procuram virar o jogo, fazer delas motivo de orgulho, de liberdade, de legitimidade!
Da mesma forma, um feminismo autêntico seria aquele que busca não uma masculinização, baseada no imaginário, mas o resgate e a exaltação daquilo que é a alma do feminino.