Freud, em O futuro de uma ilusão, afirma que a religião nasce do sentimento de desamparo fundamental do ser humano, que, biologicamente, é um prematuro, e deriva do complexo paterno: Deus, como grande pai, a santa madre Igreja e os fieis, como irmãos. E, em certo momento, ele afirma: “A religião é uma neurose obsessiva universal, e a neurose obsessiva é uma religião individual”.
Romain Rolland, citado por Freud em O mal-estar na civilização, concorda que a religião é uma ilusão, mas, para ele, a fonte da religiosidade é outra: o sentimento oceânico, um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras. É possível que ambos estejam certos. O complexo paterno elucida as religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo), com seu Deus humanizado, ao passo que o sentimento oceânico se aplica melhor às religiões orientais (budismo, confucionismo, xintoísmo). Nesse último caso, a figura de Deus é apagada, prevalecem homens divinizados (Buda, Confúcio, Lao-Tsé) e, em vez de uma ética transcendental, que visa à vida eterna, uma ética imanente, que visa à vida terrena, ou à relação com a natureza e com a sociedade.
O cientista Richard Dawkins, em seu livro Deus, um delírio, rebate todos os argumentos a favor da existência de Deus, e conclui: do ponto de vista racional, é impossível provar a existência de Deus, que depende exclusivamente de fé. Ou seja, Deus só existe para quem acredita nele. Um extremo é Jung, quando afirma: “Eu não acredito em Deus, eu tenho certeza”. Certeza que nasce da fé, para impor uma realidade, o que dificilmente é modificado por argumentos ou por fatos. Nesse sentido, Deus é um delírio, e como tal, tem um conteúdo, um enredo. No caso do cristianismo é, aproximadamente, o que se segue.
“Um homem nasceu de mãe virgem, sem pai biológico envolvido. Clamou a um amigo Lázaro, morto há bastante tempo para cheirar mal, e ele voltou à vida. O próprio homem voltou à vida, depois de três dias morto e enterrado. E, do topo de uma montanha, subiu aos céus. O homem sem pai e seu “pai” (que também é ele mesmo) é capaz agora de ouvir os pensamentos de todas as pessoas. Você pode ser recompensado ou punido. A mãe virgem foi transportada em vida para o céu. Pão e vinho, abençoados por um padre (é preciso testículos), transformam-se em corpo e sangue do homem”.
O que poucos sabem é que a certeza da não existência de Deus também é uma crença. E, se a crença em Deus gera religiões, o ateísmo, que postula peremptoriamente a não existência de Deus, também gera, pelo menos, uma religião: a Religião da Humanidade (positivismo religioso), fundada por Auguste Comte, em 1854. Religião ateia com templos, doutrina, moral, regime, sacramentos e cultos. Há muito, conta com forte presença no Brasil, tendo, inclusive, seu lema Ordem e Progresso impresso em nossa bandeira.