Existem correntes de pensamento que pressupõem uma continuidade entre o reino animal e a espécie humana. Para a psicanálise, entretanto, o que há é da ordem da ruptura, determinada pelo advento da linguagem específica do ser humano. Linguagem que constitui um desfile de significantes (cadeia significante), regidos por duas operações fundamentais (metáfora e metonímia), ou seja, algo completamente diferente das leis da biologia.
Consequências fundamentais devem ser assinaladas. A primeira é que não se deve falar de instintos no humano. O objeto e a satisfação dos instintos são relativamente fixos, rígidos. No humano deve-se falar de pulsões: há maior flexibilidade, maior liberdade, tanto em relação ao objeto, como em ralação à satisfação. Liberdade tem sempre preço elevado, a ponto de Freud falar de maldição do sexo na espécie humana.
Outra consequência: a linguagem cria nova espécie de herança, a herança simbólica. Algo que não se passa pela via da hereditariedade genética, mas pela via do significante, pela cultura. Para exemplificar, uma criança que nasce de uma família em Tóquio e outra de uma família numa aldeia de esquimós, recebem heranças simbólicas muito distintas.
Não é só a psicanálise que admite a mencionada ruptura. O historiador Harari, em seu livro Sapiens, uma breve história da humanidade, chama o advento da linguagem de Revolução Cognitiva, e se refere a ela como “o ponto que a história declarou independência da biologia”. Para ele, Homo sapiens surge há cerca de 200.000 anos, e a Revolução Cognitiva acontece há cerca de 70.000 anos. A partir daí, “narrativas históricas substituem narrativas biológicas como nosso principal meio de explicar o desenvolvimento do Homo sapiens. Para entender a ascensão do cristianismo ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação entre genes, hormônios e organismos. É necessário, também, levar em consideração a interação entre ideias, imagens e fantasias”. Com linguagem específica, a espécie humana constroi sua cultura, matriz onde tudo acontece, tudo avança, e que distingue inteiramente o humano dos outros animais.
Como surge a linguagem humana? Ninguém sabe, e talvez nunca será possível saber. É curioso, porém, apontar alguns aspectos. Não existe sistema fonador. A linguagem se aproveita de todos os sistemas do corpo humano, e, com frequência, trazendo perturbações. Razão pela qual se fala em parasita linguageiro.
Observação paleontológica ressalta que a posição ereta, ao liberar membros superiores da atividade de locomoção, pode facilitar a comunicação. O que pode elucidar a máxima de Anaxágoras, segundo a qual “O homem pensa porque tem mãos”, quando aplicada ao macaco das savanas.
Não importa, por conseguinte, a origem da linguagem humana. O que é possível concluir, com forte embasamento, é que o habitat do humano se torna o reino da linguagem.