A luta de classes é a mola mestra da História?

 

A luta de classes como força motriz da História é considerada a tese mais importante da teoria marxista. Com efeito, assim começa o capítulo I do Manifesto do Partido Comunista: “A história de todas as sociedades que existiram até nossos dias tem sido a história da luta de classes”.

Um dos exemplos paradigmáticos interpretados nessa perspectiva é a Revolução Francesa. Dos servos da Idade Média nascem os burgueses livres das primeiras cidades. Com o desenvolvimento dos meios de transporte e de comunicação, há crescimento rápido dos mercados e do comércio colonial, multiplicando o capital dos burgueses e elevando seu ímpeto revolucionário na sociedade feudal em decomposição.

O Manifesto ressalta o papel revolucionário da burguesia. “Foi a primeira a provar o que pode realizar a atividade humana: criou maravilhas maiores que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos, as catedrais góticas”.

A burguesia revoluciona os meios de produção, e com isso, as relações de produção. Dissolvem-se relações sociais antigas, com seu cortejo de concepções secularmente veneradas. Tudo o que era sagrado é profanado, tudo o que era sólido e estável se esfuma.

A Revolução Francesa é essencialmente uma revolução burguesa, pois destroi as estruturas feudais para a construção da ordem capitalista, com a ascensão política da burguesia, que passa de classe dominada a classe dominante.

A nova sociedade simplifica os antagonismos de classe, divide-se cada vez mais em duas grandes classes diametralmente opostas: a burguesia e o proletariado. Na sociedade burguesa, o papel revolucionário que um dia a burguesia desempenhou cabe então à classe operária.

Agora, um contraponto à tese fundamental da teoria marxista: a força motriz da História é a luta entre si de classes dominantes diversas. Exemplo recente do que propõe essa tese são as duas Grandes Guerras, resultado não de luta de classes, mas de contradições entre diferentes classes dominantes capitalistas.

O Manifesto propõe a burguesia como classe dominada no feudalismo e como classe dominante no capitalismo. Objeção: a burguesia não é classe dominada no feudalismo, é classe dominante em ascensão. A classe dominada no feudalismo são os servos da gleba. A Revolução Francesa é o ponto culminante da luta entre uma classe dominante constituída e outra em ascensão, com vitória da última. No Reino Unido, a transição opera sem Revolução.

Marx considera a classe proletária como revolucionária, tanto é que assim termina o Manifesto: “Proletários de todos os paises, uni-vos!” A questão é que, entre dominados e dominantes, a luta é apenas uma das possibilidades. A outra, é a identificação de interesses e a idealização (“pobre de direita”). E proletários têm-se revelado não como revolucionários, mas como aspirantes à ascensão numa sociedade de classes.

2 Comentários

  • Entre os servos surgiram os artesãos e as oficinas, para atender as necessidades do feudo. Essa diversificação, esse broto, surgiu e cresceu e passou a ser diferente do sistema senhor e servos. Surgiram as ferramentas, a divisão do trabalho, a cooperação e a máquina à vapor. E assim surgiu o comércio e o mercado.. As ferramentas se tornaram parte importante da maquina. E energia humana e de outros animais passou a ser independente da energia de trabalho. humano..

    • Francisco Paes disse:

      Minha leitura é que os burgueses destacam-se da gleba não como classe dominada, mas como classe dominante em ascensão; tanto é que, no Reino Unido, com a Carta Magna, a transição feudalismo – capitalismo opera por continuidade, sem Revolução.

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