O conflito judeus x palestinos e um devaneio sobre o tema

 

Logo de início, devo confessar um preconceito. Minha veneração tanto pelo povo judeu como pelo povo árabe.

Admiro o povo judeu e gosto dele, por sua cultura, por sua história, por suas contribuições à humanidade, por sua errância milenar terrivelmente sofrida. Concordo com seu direito a uma pátria —uma pátria um dia perdida— tal como uma casa que possam considerar como sua. Por ser psicanalista, pesa na minha balança, é claro, o judeu Freud, assim como tantos outros psicanalistas, assim como vários amigos judeus que preservo.

Venero o povo árabe por motivos, em parte, semelhantes: cultura, história, contribuições à humanidade. O psicanalista Jacques-Alain Miller comenta, certa feita, ao visitar o sul da Espanha, que nunca havia presenciado isso: um povo, o espanhol da região, ter orgulho de sua colonização, no caso, longa colonização árabe. Com efeito, não foi uma espoliação. Pelo contrário, os árabes deixaram rico legado, facilmente perceptível para quem visita cidades como Sevilha, Granada, Córdoba e tantas outras. Noutro plano, mais pessoal, assinalo a imigração sírio-libanesa, presente em quase todo o Brasil, responsável, entre outras coisas, por bom número de meus amigos. Sem contar que me casei com uma descendente de libaneses, com a qual tenho três filhas.

Posso chamá-lo de preconceito positivo. Ele indica, com antecedência, a inclinação do presente escrito. Busca de conciliação. Além do mais, como tenho amigos judeus e árabes que convivem, isso acende, para mim, uma luz.

Em 2011, visito Israel. Viagem surpreendente e encantadora, sob vários aspectos. Depois dela, fico pensativo, com a cabeça girando principalmente em torno do conflito entre judeus e palestinos. Construo, então, um devaneio sobre o tema, que passo a relatar.

Não vou entrar na discussão de quem merece aquelas terras. Isso não leva a nada. Tanto judeus como palestinos têm fortes argumentos, mas as presenças de ambos na região é fato consumado. Partir daí é o propósito que assumo.

Todas as reflexões partem de minha viagem. A hipótese principal é que certas observações têm valor paradigmático. Isso é: pequenos esclarecimentos podem levar a conclusões muito abrangentes.

Em Nazaré observo, numa praça central, próxima à Igreja da Anunciação, uma casa onde está escrito: Partido Socialista Árabe (Hadash). Penso comigo mesmo: em Israel existe um Partido Socialista Árabe! Isso quer dizer muito. Os árabes que ali vivem, cerca de vinte por cento da população, podem se organizar, se representar e lutar por meio do caminho democrático!

Von Clausewitz diz que “a guerra é uma continuação da política por outros meios”. Vou, agora, invertê-lo: a política é uma continuação da guerra por outros meios. Sim. Eis uma proposição: trazer o conflito entre judeus e palestinos para o plano da política. Diferenças e divergências existem, o que muda é a maneira de tratá-las.

Não é preciso reinventar a roda. A roda existe e está aí: chama-se democracia. A democracia como as regras do jogo, conforme ressalta Bobbio.

Tal é a primeira peça de meu devaneio. Mas, existem motivações para conduzir a questões desse modo? Se dois povos lutam ferozmente por pequena faixa de terra, o que daria sustentação a uma quimera democrática?

Avistar Jerusalém do alto, antes de adentrar a cidade, é uma experiência deslumbrante. Não esperava ser tocado por tamanha emoção. A muralha. O Muro das Lamentações. O Monte das Oliveiras. A Cúpula da Rocha. É como se, num relance, uma síntese da história de nossa civilização se apresentasse ali, elegante e bela. A visita prossegue. Cada recanto evoca longa narrativa, repleta de misticismo e religiosidade. E traz uma multidão de pessoas, de vários credos, de várias etnias, de várias categorias sociais.

De Jerusalém, no Estado de Israel, o ônibus conduz-nos a Belém, no território palestino. Durante o trajeto, observo numerosas pessoas caminhando pelas laterais da estrada; muitos em direção a Jerusalém, outros, em sentido contrário. Pergunto à nossa guia o que é aquilo. São palestinos, indo ou vindo de seu trabalho.

Minha reflexão: os palestinos precisam de Jerusalém; e Jerusalém precisa dos palestinos. Formulação que considero paradigmática, e que pode ser ampliada. Com efeito, a Terra Santa é a Meca de judeus e de cristãos, além de ser sagrada também para muçulmanos. O número de turistas (ou peregrinos) é inesgotável. Sem contar várias outras produções e fontes de renda. Aquela pequena região, por conseguinte, pode e deve abrigar e alimentar ambos os povos, desde que haja certa cooperação e civilidade. Está aí bom motivo para reforçar a proposta democrática. Eis a segunda parte de meu devaneio.

Existe a terceira parte. Após conhecer as ruinas da antiga fortaleza de Massada, a viagem segue até o fim o Mar Morto. A guia (uma judia) aponta, então, para uma cadeia de altas montanhas, e diz que, ali, já é território da Jordânia. E acrescenta: a Jordânia é, hoje, país amigo de Israel; entre ambos existem vários tratados de cooperação. Minha conclusão, agora, é rápida: está aí o paradigma da relação de Israel com os países árabes. Não é utopia. Israel já mantém relações respeitosas com Egito e com Catar, pelo menos.

Resumo de meu devaneio democrático: judeus e palestinos desistem da guerra como solução para seus conflitos, e passam a enfrentar-se por meios políticos; o que motiva a transição é a descoberta de que a Terra Santa é capaz de abrigar, alimentar e fazer prosperar a todos, desde que haja entre eles algum respeito e cooperação; e a relação entre Israel e os países árabes pode, então, caminhar da beligerância à amizade.

Mal concluo meu devaneio e um outro eu, dentro de mim, manifesta-se com cruel arrogância. Cretino! Nunca vi tanta ingenuidade junta! Abra os olhos! A dura realidade é inteiramente outra! Por mais lógica que exista em seu devaneio, o que vigora é uma lógica diferente!

Em 7 de outubro de 2023 o Hamas invade Israel por terra, causando mortes e sequestrando pessoas, além de lançar numerosos mísseis, que rompem as defesas do Estado judeu. O Hamas é um grupo extremista palestino, totalitário e fortemente armado, cujo objetivo declarado é a destruição do Estado de Israel. Além de mísseis, obuses e metralhadoras, conta com outros armamentos, e vasta rede de túneis sob Gaza, que lhe servem de proteção. Usa, deliberadamente, civis como escudos humanos, e exerce grande liderança sobre o povo palestino de sua região.

A resposta de Israel é devastadora, não poupando civis nem hospitais. Os bombardeios arrasam Gaza, e se prolongam por meses a fio, sem dar licença sequer à entrada de ajuda humanitária. Quem comanda a guerra é Netanyahu, líder judeu extremista, totalitarista, cujo objetivo manifesto é a destruição do Hamas, e quiçá, do povo palestino. Olho por olho, dente por dente.

Hamas e Netanyahu são, portanto, visceralmente antagônicos, mas, ao mesmo tempo, exatamente idênticos. No contexto, o único resultado possível é a guerra fratricida, em que um tenta destruir o outro para conseguir a almejada vitória.

Por esse meio, é possível alcançar a paz dos cemitérios. Que tem um defeito. Deixa uma brasa, que pode reacender a qualquer momento.

 

 

 

 

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