O real sem lei da ciência

Por que este artigo no Blog?

Publicado nos Papers nª 6, dezembro de 2013, da Escola Una, da Associação Mundial de Psicanálise, numa edição que foi traduzida para o francês, para o italiano, para o espanhol e para o inglês.

 

O real sem lei da ciência

O real da psicanálise

Se Schelling, num certo momento, situa a pergunta O que, no final, é o real? como a grande questão da filosofia, a mesma pergunta pode ser tomada como mola mestra do ensino de Lacan. Na leitura que Miller faz do tema é possível encontrar várias respostas nesse percurso de mais de trinta anos. Algum destaque será dado à primeira e à última.

Primeira resposta: o real é o simbólico. Ora, se o que Lacan chama de real, nessa época, está excluído da análise, o que se isola como sendo real na experiência é o núcleo do simbólico. Trata-se de abordagem que prevalece nos seis primeiros seminários, e que implica uma pertinência conceitual entre o real e a causa. O real é causa, causa de certo número de efeitos, e é preciso intervir onde isso se desenrola, para obter efeitos de transformação.

Nesse momento, Lacan admite uma equação entre o racional e o real; o real que é causa e que tem efeitos pode ser traduzido na proposição segundo a qual há saber no real. É a posição do discurso da ciência, que, desde Galileu, admite a natureza escrita com signos matemáticos.  Sendo assim, “O inconsciente para Lacan é uma estrutura, ou seja, um saber no real.” Enfim, a estrutura, para Lacan, é um dos nomes do real; o real é a estrutura da linguagem.

Ao mesmo tempo em que se verifica uma mudança incessante ao longo do ensino lacaniano, é possível também observar que algumas linhas se conservam do início até o fim. Uma delas é a importância atribuída à idéia de estrutura, cujo peso se mantém durante todo o tempo. No início, porém, estrutura é a estrutura da linguagem, depois, torna-se a estrutura lógica e, finalmente, estrutura passa a equivaler à estrutura topológica, ou ao nó borromeu.

Miller comenta que as fórmulas da sexuação constituem uma tentativa heróica para fazer da psicanálise uma ciência do real, tal como a lógica-matemática. A partir do Seminário 23 sobre O sinthoma, porém, quando se ingressa no ultimíssimo ensino de Lacan, tudo muda inteiramente. Mudança que pode ser resumida na fórmula o real é sem lei, cujo corolário pode ser: não há ciência do real. É importante dizer um pouco mais a esse respeito.

Afinal, o que quer dizer a fórmula o real é sem lei? A lei de que se trata é a lei natural, aquela que rege a natureza e que pode ser escrita com linguagem matemática. A lei natural pressupõe a relação de causa e efeito, o princípio da causalidade. Torna-se imprescindível assinalar, então, que “A relação de causa e efeito não vale no âmbito do real sem lei, ela só vale como ruptura entre a causa e o efeito.” Em outros termos, o real sem lei não é da ordem da causalidade, mas, sim, da ordem do acaso. Se a causalidade está do lado da necessidade, o acaso ou casualidade está do lado da contingência. Para concluir esta parte, a oposição entre a primeira e a última concepção de real em Lacan releva, no primeiro caso, um saber no real, e no último, um real sem saber.

 

O real da ciência

É preciso, inicialmente, dizer de que ciência se trata. Refere-se àquela iniciada por Galileu e por Newton e que tem como paradigma a física-matemática. É célebre a afirmação de Galileu segundo a qual a natureza está escrita com signos matemáticos, e regida, portanto, por leis que cabe à ciência desvendar. Quando se observa que Galileu morreu no mesmo ano em que Newton nasceu, há algo mais do que um registro curioso. Pois foi exatamente Newton aquele que começou a trazer à luz as leis importantes da nova ciência.

Formulada nesses termos, a lei natural pressupõe o princípio da causalidade, e é da ordem da necessidade, pois não há efeito sem causa. A existência da lei natural implica a existência de saber no real e alimenta o sonho da ciência de um saber completo sobre o real.

O saber no real está em consonância com a fórmula de Descartes de um Deus que não engana, garantidor da ciência. Ou, para empregar expressão mais recente, igualmente famosa, Deus não joga dados, conforme assevera Einstein. Com isso o inventor da Teoria da Relatividade quis deixar bem assinalado que não é o acaso que rege o universo. Ou, o que é a mesma coisa, o real da ciência não é sem lei.

REAL DA CIÊNCIA

REAL DA PSICANÁLISE

Causalidade

Acaso

Necessidade

Contingência

Lei natural

Sem lei

Saber no real

Real sem saber

 

O real sem lei da mecânica quântica

Quando as questões são colocadas nesses termos —e são nesses termos que elas são colocadas— fica de fora um aspecto verdadeiramente crucial do debate científico. Para expor o problema, um bom caminho é retomar a fórmula de Einstein, Deus não joga dados, para fazer a contextualização do argumento. Em que circunstâncias isso foi dito? Tudo aconteceu em 1930, em Bruxelas, durante uma das Conferências Solvay, as mais concorridas da física na primeira metade do século XX, quando de um ataque de Einstein contra a física quântica, defendida pelo dinamarquês Bohr. Sua intenção era derrubar o princípio da incerteza, proposto pelo físico alemão Heisenberg em 1927, segundo o qual não se pode medir com precisão, simultaneamente, a energia e o tempo dos processos físicos.

O debate aberto por Einstein e Bohr está longe, muito longe de terminar. A esse respeito, pode-se citar Hawking.

Atualmente os cientistas descrevem o universo através de duas teorias parciais básicas: a teoria geral da relatividade e a mecânica quântica, que são as duas grandes contribuições intelectuais da primeira metade deste século. A teoria geral da relatividade descreve a força da gravidade e a macroestrutura do universo, ou seja, a estrutura em escalas de apenas poucos quilômetros para um tamanho tão grande quanto um setilhão de quilômetros, que é o tamanho do universo observável. A mecânica quântica, por outro lado, lida com fenômenos em escalas extremamente pequenas, tais como um trilionésimo de centímetro. Infelizmente, entretanto, sabe-se que estas duas teorias são incompatíveis entre si; não podem ser ambas corretas. (HAWKING, 1991, p. 31-2)

O que está em jogo? Nada menos que os próprios fundamentos da ciência. Einstein faz a defesa da causalidade determinista e ataca as leis puramente probabilistas da mecânica quântica, da qual Bohr é um dos fundadores. Eis o cerne da questão.

A mecânica quântica é o ramo da física que estuda o átomo e as partículas subatômicas. Nenhuma teoria científica conhece maior número de aplicações práticas, que vão desde a bomba atômica até incontáveis aparelhos domésticos, como televisores e computadores, ou instrumentos refinados, como radares e microscópios eletrônicos.

Mais que qualquer outro ramo da ciência, a mecânica quântica representou o rompimento com as experiências dos sentidos e com as certezas tradicionais de seu campo, tendo balançado inclusive alguns baluartes metodológicos.

Qual o ponto de partida? Formulada, em 1900, pelo físico alemão Max Planck, a Teoria dos Quanta afirma que a emissão e a absorção de energia eletromagnética pelos corpos se fazem por meio de quantidades fixas ou “pacotes” contínuos de energia, e não por distribuição uniforme de energia através de ondas. Em 1911, houve a descoberta do núcleo atômico, pelo britânico Rutherford, e em seguida a criação do modelo atômico, a base da moderna física nuclear: elétrons em órbita em torno do núcleo, tal como um sistema solar miniaturizado. Foi considerado inteiramente absurdo e irracional, pois, de acordo com a física newtoniana, o elétron, ao girar, perderia energia, e cairia para dentro do núcleo. Entretanto, em 1923, Bohr, que sabia dos “quanta” de Max Planck, estudou a órbita dos elétrons e encontrou a solução para o problema. No modelo de Bohr, os elétrons saltam aleatoriamente de uma órbita para outra, e, de acordo com o que a teoria ensina a calcular, a probabilidade de perder energia é zero. Graças a isso os átomos ficam inteiros. Entram em cena, desse modo, saltos que se fazem inteiramente ao acaso.

De várias maneiras a mecânica quântica mostrou-se subversiva. Tornou-se claro, por exemplo, que o próprio processo de observar fenômenos no nível subatômico, na verdade, os modificava. Um pesquisador assim se manifestou a respeito da investigação detalhada para descobrir onde estava “realmente” um elétron: “Olhá-lo é derrubá-lo”.

A mecânica quântica permitiu solucionar o problema da natureza da luz. Havia duas teorias, a corpuscular e a ondulatória, cada uma com excelentes e irrefutáveis argumentos. Em 1927 o dilema foi resolvido com o recurso a estados quânticos —os fótons— que se manifestavam potencialmente como onda ou partícula, ou como ambas.

O acaso ou a ausência de causa nos fenômenos quânticos torna complexa a questão da previsibilidade. O processo aleatório não descreve, obviamente, um padrão determinístico, mas segue uma distribuição de probabilidades, que permite cálculos precisos. Num aspecto a mecânica quântica foi semelhante à outra parte da física: o século XX foi o século dos teóricos dizendo aos práticos o que buscar à luz de suas teorias, com as equações em pranchetas de papel precedendo às experiências de laboratório. Foi o século dos matemáticos. Para dar um exemplo famoso e que teve desfecho recente: o bóson de Higgs, predito pelo físico britânico em 1964, e encontrado em 2012.

A Equação de Schrödinger, proposta por este físico austríaco em 1925, está para a mecânica quântica assim como a segunda Lei de Newton está para a mecânica clássica. É a fórmula mais importante da teoria, mas ela trata apenas de probabilidades, ou seja, de números abstratos. Schrödinger disse, em 1935, que para levar a sério as leis da quântica, seria preciso acreditar em mortos-vivos. Para ilustrar, imaginou uma experiência na qual um gato era trancado numa caixa de metal junto com um vidro de veneno e um pedaço de metal radioativo. Depois de uma hora, o que seria do animal? A resposta dependia do metal. Se emitisse radiação, e a probabilidade era de 50%, faria o vidro quebrar e o veneno liquidaria o gato. Se não, o felino passaria incólume pela armadilha. Como, para as regras quânticas, nenhuma das duas possibilidades poderia ser excluída, enquanto a caixa estivesse fechada e ninguém olhasse lá dentro, o gato permaneceria num estado indefinido, vivo e morto ao mesmo tempo.

Poderiam os físicos aprender a viver com a permanente contradição? Para Bohr, poderiam e deveriam. A totalidade da matéria não cabe numa descrição única, dada a natureza da linguagem humana.

Como então conciliar a Teoria da Relatividade com a mecânica quântica, ou as duas com a velha física newtoniana? Ninguém sabe.

“Posso dizer sem me enganar que ninguém compreende a mecânica quântica”, escreveu o americano Feynman, um dos cientistas mais brilhantes do século passado.

A freqüente perplexidade não impede que as pesquisas avancem, cada vez mais ambiciosas. Em 1996, os físicos americanos Wineland e Monroe conseguiram fazer um átomo aparecer em dois pontos diferentes do espaço no mesmo e exato instante. Já se sabia que as partículas subatômicas eram capazes desse tipo de proeza, mas ninguém tinha demonstrado que o efeito alcançava um átomo inteiro. Para os autores, as equações não deveriam ficar confinadas ao campo das coisas extremamente pequenas: “No centro dessa questão histórica está a universalidade da mecânica quântica.”

 

Conclusão

É hora de concluir.

Com base no exposto, não resulta razoável opor o saber no real da ciência ao real sem lei da psicanálise.

Seria mais sensato fazer duas aproximações.

A) Entre o real do primeiro ensino de Lacan e o real da física newtoniana ou einsteiniana.

B) Entre o real do último ensino de Lacan e o real da mecânica quântica.

Finalmente, dois apelos.

O primeiro, para Einstein. Esteja onde estiver, que ele ouça: Deus, sim, joga dados.

O segundo, para os psicanalistas de orientação lacaniana. Que eles saibam: antes, muito antes da psicanálise, a ciência já cogitava de um real sem lei.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Veja também: