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	<title>Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
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		<title>Os arruinados pelo êxito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:24:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Eis o título de um artigo de Freud. Título que é uma interpretação! Apresenta o êxito como causa de ruína! Abordagem inovadora da psicanálise, que, no máximo, foi esboçada, <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/os-arruinados-pelo-exito/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Os arruinados pelo êxito</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Eis o título de um artigo de Freud. Título que é uma interpretação! Apresenta o êxito como causa de ruína! Abordagem inovadora da psicanálise, que, no máximo, foi esboçada, antes dela, por grandes literatos (Shakespeare, Ibsen). Certas pessoas simplesmente não são capazes de tolerar a felicidade! Adoecem precisamente no momento em que um desejo, profundamente enraizado, alcança a realização.</p>
<p>Exemplo célebre, trazido em outro momento, é o do Presidente Schreber. Sua carreira como jurista evolui com êxito e brilhantismo, com várias honrarias e promoções, até ser nomeado, aos 51 anos, Presidente da Corte de Apelação de Dresden. Posto vitalício, ponto culminante de sua ascensão na conceituada Justiça alemã. Um desafio, pois, além de elevados encargos, seus subordinados são mais velhos e mais experientes do que ele. A partir daí, sobrevém o desencadeamento de grave psicose; inicialmente por dramática dissolução de seu imaginário, catástrofe subjetiva que ele designa como “fim do mundo”.</p>
<p>Para Lacan, a operação estruturante da psicose é a falta ou foraclusão de um significante fundamental, o Nome-do-Pai. O que cria uma cratera na rede significante, um buraco no simbólico. A promoção conferida a Schreber é forte apelo ao exercício de uma função paterna, experiência simbólica que invoca o lastro do significante do Nome-do-Pai, mas que, em seu lugar, encontra o vazio. A falta do Nome-do-Pai é a chave do desastre que se segue.</p>
<p>Freud cita outro exemplo. Um respeitável senhor, professor universitário, nutre há muito o desejo de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos estudos. Quando o mestre se aposenta, seus colegas lhe informam que fora escolhido para substitui-lo. Começa, então a hesitar, até cair em melancolia, que lhe deixa incapaz por vários anos.</p>
<p>Nesse caso, tudo se deve exatamente à presença do Nome-do-Pai, ou seja, ao que Freud chama de complexo paterno. O velho mestre no lugar do pai, como objeto de forte ambivalência: a um só tempo amado e alvo do desejo hostil de vê-lo superado. Quando surge a oportunidade de ocupar o seu lugar, o sentimento de culpa irrompe, e, em vez de ascensão ao poder, a melancolia prevalece, impedindo-o de galgar o posto almejado e interditado.</p>
<p>Desse modo, sim, desse modo, a psicanálise estabelece conexão que fere o senso comum, que subverte o princípio do prazer, ao situar o êxito como véspera da ruína, o sucesso como antessala do fracasso, e ao mostrar que felicidade não é fácil de viver, e que, pelo contrário, precisa ser suportada, ou mesmo, construída e mantida, pois, se não, após a vitória, sobrevém a inconsistência, ou a culpa, ou o declínio, ou a melancolia.</p>
<p>Autores pós-freudianos criam expressões marcantes para aludir o tema em questão: “O homem contra si mesmo” (Massermann), ou “Os sabotadores internos” (Fairbairn).</p>
<p>O que há de comum em tudo isso é o Supereu, e algo intimamente ligado a ele: as vicissitudes de um além do princípio do prazer.</p>
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		<title>A gula do Supereu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:22:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Em O mal-estar na civilização Freud observa que o advento da civilização exige renúncia de pulsões sexuais e agressivas. O recurso mais importante para alcançá-la é a constituição do <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-gula-do-supereu/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A gula do Supereu</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Em <strong>O mal-estar na civilização</strong> Freud observa que o advento da civilização exige renúncia de pulsões sexuais e agressivas. O recurso mais importante para alcançá-la é a constituição do Supereu. De que modo isso acontece? Num primeiro momento, a renúncia pulsional se faz frente a uma autoridade externa, que ameaça com perda de amor e castigo. Num segundo tempo, a agressividade é introjetada, interiorizada, enviada de volta para dentro, o que resulta na organização do Supereu como autoridade interna, e a renúncia pulsional devida ao medo dele. Num terceiro tempo, uma lógica paradoxal, algo familiar à psicanálise, mas, estranho ao modo comum de pensar das pessoas. Cada nova renúncia pulsional, em vez de aplacar, aumenta a severidade do Supereu. Ele exige renúncia pulsional e essa, por sua vez, engorda o Supereu. É o que Lacan chama de <strong>gula do Supereu.</strong> Da agressividade que o sujeito retorna contra si mesmo provém tal ferocidade.</p>
<p>O Supereu, enquanto consciência moral, põe em ação contra o Eu a mesma agressividade rude que o Eu gostaria de dirigir a outrem. A tensão entre o severo Supereu e o Eu é denominada sentimento de culpa, ou necessidade de punição; mal-estar que cabe a cada um suportar, como fardo por viver numa civilização.</p>
<p>Convém assinalar que renúncia pulsional não é renúncia ao gozo. Se não há renúncia, o sujeito goza; se há renúncia, o sujeito goza de renunciar. Ou goza desde o Isso, ou goza desde o Supereu. Como brinca Miller: existe o prazer de comer marmelada e existe o prazer de não comer marmelada.</p>
<p>A lógica paradoxal do Supereu pode ser evidenciada em numerosas situações clínicas, e é possível apresentar algumas delas de modo sucinto. Em seu relato, um sujeito comenta.</p>
<p><em>—Devido a circunstâncias e pressões familiares, prestei ajuda a um parente, pessoa reconhecidamente problemática. Ajuda que precisei reproduzir numerosas vezes, em variados contextos. O parente não esboçou nenhum reconhecimento, longe dele alguma expressão de agradecimento. Pelo contrário, a cada vez em que era beneficiado, pouco adiante apresentava demandas maiores, algumas, em tom de reivindicação, como se fosse algo obrigatório para mim. Bastante exaurido, identifiquei a trama e resolvi dar fim drástico à situação. O que resultou foi uma ruptura da relação, acompanhada de grande hostilidade por parte do parente. Tudo se passou como se eu, depois de tanto dar, ainda estivesse devendo a ele!</em></p>
<p>Outro exemplo. Os dependentes químicos costumam tentar ficar livres da substância tóxica. É claro que surgem sensações de abstinência. Se o dependente químico, para obter alívio, cai na tentação de ingerir pequena dose, o que acontece? Cai facilmente na gula do Supereu! A máxima dos Alcoólicos Anônimos é sábia: <strong>Evite o primeiro gole.</strong></p>
<p>A lógica do Supereu é a lógica da chantagem, e a polícia sabe muito bem dela. Ao negociar com um chantagista, o princípio básico é: não ceder. Pois, ceder, em vez de reduzir, aumenta a pedida.</p>
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		<title>As pulsões de morte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:20:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Nos tempos atuais, qual o tema mais difícil de ser abordado por um psicanalista? Não há sombra de dúvida. Na civilização contemporânea, civilização do bem-estar, o tema mais espinhoso <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/as-pulsoes-de-morte/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  As pulsões de morte</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Nos tempos atuais, qual o tema mais difícil de ser abordado por um psicanalista? Não há sombra de dúvida. Na civilização contemporânea, civilização do bem-estar, o tema mais espinhoso são as pulsões de morte. Motivo pelo qual às vezes são escolhidos temas adocicados, que prometem resultados aprazíveis. Mas, o psicanalista não deve recuar diante do desafio: é preciso tratar a questão das pulsões de morte.</p>
<p>Grande parte dos pós-freudianos evitam o problema, alegando que a tese das pulsões de morte é especulação filosófica. Nada disso. Melanie Klein e Lacan mostram algo inteiramente diverso: o Supereu, conceito de importância maior na clínica psicanalítica, é impensável sem as pulsões de morte. Como, então, concebê-las?</p>
<p>Dados da clínica são abundantes, mas, a Primeira Grande Guerra precipita a concepção. Freud leva às últimas consequências a fórmula de Hobbes, segundo a qual “o homem é o lobo do homem”. E em <strong>O mal-estar na civilização, </strong>traz uma síntese clara.</p>
<p><em>“O ser humano não é uma criatura branda, ávida de amor, que, no máximo, pode se defender, quando atacado. Mas, sim, ele deve incluir, entre seus dotes pulsionais, um forte quinhão de agressividade. Em consequência disso, para ele, o próximo não constitui apenas um possível colaborador e objeto sexual, mas, também, uma tentação para satisfazer a tendência à agressão, para explorar seu trabalho sem recompensá-lo, para dele se utilizar sexualmente contra sua vontade, para usurpar seu patrimônio, para humilhá-lo, para infligir-lhe dor, para torturá-lo e para matá-lo“.</em></p>
<p>Citação que mostra peremptoriamente que pulsões de morte nada têm a ver com especulação filosófica, mas com a dura realidade dos seres humanos. Freud tem plena consciência do incômodo causado por suas formalizações. Diz que “a psicanálise não traz a boa nova” e que ele faz parte daqueles que haviam perturbado o sono do mundo.</p>
<p>Lacan, com o conceito de <strong>gozo </strong>(satisfação da pulsão), reúne pulsões de vida e pulsões de morte, ou seja, o gozo é a satisfação da pulsão, tanto das pulsões de vida como das pulsões de morte. O que quer dizer muita coisa. Satisfação não é apenas algo ligado ao bem-estar. Com as pulsões de morte, há satisfação em causar dor no outro, ou prazer em destruir, e também em causar dor em si próprio. Ou seja, há situações em que o sujeito busca o próprio sofrimento como forma de satisfação.</p>
<p>A concepção de pulsões de morte tem grande alcance clínico, verificável na prática do dia a dia, mas sua importância vai muito além, pois abrange numerosas ocorrências que se constatam facilmente no cotidiano dos noticiários, e nas próprias suposições quanto ao futuro da humanidade. A complexidade do tema não permite otimismo ingênuo e aponta mais para um realismo prudente. Com as pulsões de morte, fica impróprio falar em cura, tanto no plano do sujeito como no plano coletivo, mas, a proposta psicanalítica, num ponto crucial, é clara: saber é melhor do que desconhecer, descobrir é melhor do que encobrir, reconhecer é melhor do que negar. O que a psicanálise pode? “Um analista não pode prometer mais do que substituir a miséria neurótica pela infelicidade comum do ser humano”.</p>
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		<title>Concepção psicanalítica de Totalitarismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2026 11:57:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[  Em Psicologia das massas (Massenpsychologie) Freud apresenta concepção clara e precisa de Totalitarismo. Toma como paradigmas dois grupos artificiais totalitários: a Igreja e o exército.  A lógica coletiva que <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/concepcao-psicanalitica-de-totalitarismo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Concepção psicanalítica de Totalitarismo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p>Em <strong>Psicologia das massas</strong> <strong>(Massenpsychologie) </strong>Freud apresenta concepção clara e precisa de Totalitarismo. Toma como paradigmas dois grupos artificiais totalitários: a Igreja e o exército.  A lógica coletiva que lhes concerne está centrada em um líder, o general, no caso do exército, ou numa ideia dominante, Cristo, no caso da Igreja, que se colocam no lugar do ideal do Eu. O fascínio pelo líder ou pela ideia dominante é da ordem de uma identificação, à qual corresponde a identificação dos membros entre si. O resultado final é o funcionamento do grupo como uma massa, como Um, e a servidão a um comando unificado. De modo esquemático, Freud assim se expressa: <em>“Uma massa primária desse tipo é uma quantidade de indivíduos que puseram um único objeto no lugar de seu ideal do Eu e, em consequência, identificaram-se uns com os outros em seu Eu”.</em></p>
<p>O grupo totalitário apresenta poderosa coesão interna, que se opõe tenazmente a supostos inimigos. No caso do exército, são os inimigos da Pátria. E uma religião, mesmo que se considere religião do amor, tem que ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. A esse respeito, a maior tolerância que se observa em tempos recentes está relacionada a um afrouxamento da coesão entre os crentes.</p>
<p>Jacques-Alain-Miller, no texto de sua <strong>Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola,</strong> apresenta tese instigadora: <strong>a Escola (de Lacan) é um sujeito.</strong> Ou seja, a Escola, um grupo organizado, pode ser tratada como um sujeito, um sujeito barrado, e inclusive, pode ser psicanaliticamente interpretada. Tese que levanta a seguinte questão: em que medida um grupo organizado pode ser tratado como um sujeito? No caso de um grupo totalitário, tal como abordado por Freud, seria um sujeito imaginariamente não barrado, não dividido, completo, regido pela lógica do universal, pela lógica do todo.</p>
<p>Lacan afirma que “Freud articulou, em <em>Massenpsychologie<strong>, </strong></em>nos primórdios dos anos vinte<strong><em>, </em></strong>uma coisa que, singularmente, revelou estar no princípio do fenômeno nazista”. Ou seja, a união e o fascínio da massa por um líder, sua servidão a ele, o que culmina na drástica perseguição, na segregação, e até mesmo no extermínio de inimigos presumidos. O bigode de Hitler como um detalhe crítico (Seminário 18), um traço unário, um significante aglutinador, capaz de unir a identificação coletiva de uma nação.</p>
<p>Concluindo, Freud trouxe elementos axiais para a elucidação do totalitarismo, o que inclui experiências históricas que lhe foram contemporâneas, e que constituem dois outros grandes paradigmas: o da direita, já mencionado, com Hitler e a Alemanha nazista, e o da esquerda, com Stalin e a União Soviética comunista. O Ocidente, que viveu as agruras do nazismo e do capitalismo, comumente se cega para as atrocidades do comunismo. Como exemplo do que acaba de ser dito, a militância pró-soviética de Sartre e de Merleau-Ponty, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, fechando os olhos para os campos de concentração <em>(gulags) </em>e para as atrocidades do regime estalinista. <em> </em>Exemplo europeu.</p>
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		<title>A Escola de Lacan</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2026 11:55:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[  “A Escola é um sujeito”.  Eis a tese proposta por Jacques-Alain Miller em seu texto sobre a Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola. Como introdução, Miller apresenta <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/a-escola-de-lacan/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  A Escola de Lacan</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p><strong>“A Escola é um sujeito”. </strong> Eis a tese proposta por Jacques-Alain Miller em seu texto sobre a <strong>Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola. </strong></p>
<p><strong>C</strong>omo introdução, Miller apresenta a formalização de Freud sobre o grupo, com base em <strong>Psicologia das Massas.</strong> “O coletivo, as formações coletivas, os grupos e igualmente uma Escola se analisam como uma multiplicidade de relações individuais com o Um do ideal do eu. Do ponto de vista freudiano, o ser do coletivo é apenas uma relação individual multiplicada”.</p>
<p>Em seguida, Miller passa a explicitar a ideia de grupo que Lacan preconiza para sua Escola. Na sua fundação, em 1964, está posto: “tão sozinho quanto sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica”, ou seja, ele se apresenta “não como um sujeito que propõe a si mesmo como ideal, e sim como um sujeito que tem uma relação com o ideal, assim como aqueles que convida para se juntarem a ele em sua Escola”. Não há anulação do ideal na Escola, não há grau zero do ideal, mas Lacan reenvia cada um à sua solidão de sujeito, à relação com o significante mestre do ideal. Eis o paradoxo da Escola: uma formação coletiva que não pretende fazer desaparecer a solidão subjetiva.</p>
<p>A primeira palavra de Lacan ao fundar sua Escola é uma interpretação para dissociar o sujeito e o significante mestre, o sujeito e o gozo que daí decorre. A interpretação tem sempre um efeito desagregador, mas, sendo o ideal o mesmo para todos, a Escola aposta que a comunidade é capaz de se sustentar. Mesmo porque cada um é analisado ou está em análise. “A Escola não é uma coletividade sem ideal, e sim uma coletividade que sabe o que é o ideal e o que é a solidão subjetiva”. Outra maneira de formular o paradoxo, a Escola é uma multidão solitária.</p>
<p>A adição de solidões supõe o <em>Um-a-mais. </em>Trata-se, primeiro, da <em>Causa Freudiana,</em> e, em seguida, o nome próprio de Lacan.</p>
<p>Qual a diferença entre a Sociedade criada por Freud (IPA) e a Escola criada por Lacan? O desejo de Freud leva a uma comunidade cujo alicerce é a horda selvagem: um pai que é um significante vivo, de onde surge, após sua morte, um sindicato fraterno, uma máfia em torno de seu túmulo. O desejo de Freud se mantém na lógica edipiana, na lógica de grupo, na lógica do todo, no universal que se funda numa exceção. O desejo de Lacan vai além do Édipo, onde não há uma exceção única, e sim uma série de exceções, de solidões incomparáveis umas com as outras e habitadas pela extimidade de um mais-de-gozar particular a cada uma. Nesse sentido, a Escola é um conjunto de Russell (também chamado conjunto aberto), um conjunto <em>nãotodo. </em>Razão de estrutura que faz o movimento lacaniano se apresentar sob forma essencialmente dispersa. A Escola é, por conseguinte, um conjunto fundamentalmente antitotalitário.</p>
<p>Como solidões subjetivas podem constituir o sujeito Escola? “A democracia direta é o dispositivo significante necessário para subjetivar a Escola e fazer dela um sujeito suposto saber, tecido de nossas solidões”. E, de que modo a Escola é um sujeito dividido? Ela precisa servir a dois senhores; à lógica do todo, do Estado, e à lógica do <em>nãotodo, </em>da psicanálise.</p>
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		<title>História mínima dos tempos atuais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 07 Jul 2026 12:14:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[Na primeira metade do século XX, duas Grandes Guerras, confrontos entre grandes blocos do capitalismo mundial. No final da Primeira Grande Guerra, em 1917, acontece a Revolução Russa. No final <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/historia-minima-dos-tempos-atuais/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  História mínima dos tempos atuais</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Na primeira metade do século XX, duas Grandes Guerras, confrontos entre grandes blocos do capitalismo mundial. No final da Primeira Grande Guerra, em 1917, acontece a Revolução Russa. No final da Segunda Grande Guerra, em 1945, é a vez da Revolução Chinesa. Duas das maiores nações do planeta; os ventos da História sopram para o lado do comunismo. No entanto, ao contrário do que prevê Marx, são duas estruturas predominantemente feudais. No mundo capitalista avançado, a classe operária não luta por Revolução, mas, sim, por ascensão social. O que vem a acontecer. Em boa parte do Primeiro Mundo, suas conquistas culminam no Estado de Bem-Estar Social.</p>
<p>Em 1978, depois da morte de Mao Tsé-Tung, Deng Xiaoping assume o poder na China. E, ao contrário do Grande Timoneiro, que, com sua Revolução Cultural, fecha as portas para o Ocidente, Deng Xiaoping introduz sua Reforma e Abertura: abre as portas para a cultura ocidental, e mais do que isso, para a economia de mercado. Empresas estrangeiras podem instalar-se, desde que tenham parceria com empresas chinesas.</p>
<p>Em 1979, Margareth Thatcher assume como Primeira-Ministra do Reino Unido, e em 1981, Ronald Reagan como Presidente dos EUA. O liberalismo econômico caminha para o auge de sua pujança.</p>
<p>Em 1991, acontece a surpreendente dissolução da União Soviética. Com tudo isso, está preparado o terreno para consumar a globalização da economia, e o capitalismo mostra suas garras. De modo sorrateiro, acelera a transferência de indústrias para a China e outros países da Ásia, onde o custo operacional é muito mais baixo, sem contar que lá não existe pressão de sindicatos ou da Justiça. Os produtos, depois, são importados, mais baratos e com lucro maior. A transferência de indústrias (e de tecnologia) é de tal ordem que muda o panorama mundial.</p>
<p>Ironias da História. Como assinalado, a ascensão social da classe operária floresce, nos países industrializados, em vez do ímpeto revolucionário. Com a globalização, porém, a avidez capitalista busca, em outros lugares, mão-de-obra de mais baixo custo. Pode-se dizer, então, que ganhos alcançados por operários asiáticos (principalmente chineses) comprometem conquistas de operários ocidentais. Ou seja, em vez de união de proletários de todos os países, competição. Outra ironia: na Rússia e na China, a evolução segue curso imprevisto: feudalismo – comunismo – capitalismo.</p>
<p>Por outro lado, em 2008, é a vez do liberalismo econômico entrar em crise grave, que põe por terra a tese de que o livre mercado tem poder eficiente de regulação.</p>
<p>Em 2016, a eleição de Donald Trump, para Presidente dos EUA, é o início do fim da globalização do mercado. O mundo, porém, já é inteiramente outro, e não há como reverter a grande mudança. Em cinquenta anos, a China torna-se uma grande potência, talvez a maior de todas; o pêndulo da hegemonia capitalista desloca-se para o Oriente. E, em vez de polarização, caminha-se para uma realidade universal multicêntrica.</p>
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		<title>Ambientalistas: a escolha é entre alarmistas e cépticos?</title>
		<link>https://www.franciscopaesbarreto.com/ambientalismo-com-os-pes-no-chao/</link>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 22 Jun 2026 22:51:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Entre ambientalistas, é comum uma índole alarmista. Exemplo célebre é o do biólogo estadunidense Paul Ralph Ehrlich, que, em 1968, publica o livro A bomba populacional, no qual prevê <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/ambientalismo-com-os-pes-no-chao/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Ambientalistas: a escolha é entre alarmistas e cépticos?</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Entre ambientalistas, é comum uma índole alarmista. Exemplo célebre é o do biólogo estadunidense Paul Ralph Ehrlich, que, em 1968, publica o livro <strong>A bomba populacional,</strong> no qual prevê o esgotamento de recursos naturais, fomes generalizadas e mortes de centenas de milhões de pessoas nas décadas de 1970 e 1980. Com efeito, a explosão demográfica, durante muito tempo, infernizou a vida de muita gente; no entanto, hoje, o que se comprova é uma crise demográfica (redução da natalidade com aumento da longevidade), que, só não é uma implosão demográfica, porque as populações estão vivendo mais. Ou seja, quando o tema é meio ambiente, não falta profetas do apocalipse, anunciando vários tipos de catástrofes globais.</p>
<p>No outro extremo, existe uma corrente que propaga o <strong>cepticismo ambiental:</strong> as alterações climáticas resultam de mudanças naturais e nada têm a ver com a mão do homem; o alarmismo partiria de mentalidades anticapitalistas, que visam minar a liberdade de ação econômica. Em suma: a polarização esquerda x direita chega ao ambientalismo; os esquerdistas tendem a ser alarmistas e os direitistas cépticos.</p>
<p>Uma nova tendência ganha força na atualidade: a que procura uma aliança entre progresso tecnológico e preservação da natureza. Um exemplo é Michael Shellenberger, com seu livro <strong>Apocalypse Never — Por que o alarmismo ambiental prejudica a todos.</strong> Para ele, a mudança climática é real, mas não é o fim do mundo, não é sequer nosso maior problema ambiental.</p>
<p>Uma das prioridades abordadas é a questão energética. O autor aponta vantagens e limites das hidrelétricas, discorre sobre carvão, gás e petróleo (emissores de gás carbônico), critica energia solar e eólica (falsamente consideradas “energias limpas”) e argumenta com detalhes sua preferência pela energia nuclear, a menos danosa (cujos riscos são supervalorizados pela indústria do petróleo e do gás).</p>
<p>O livro examina vários temas polêmicos, como os pulmões da Terra, o uso de plásticos, a industrialização, a sobrevivência de baleias e de peixes, o hábito de comer carne, os átomos pela paz, a bomba climática e a angústia apocalíptica. O autor prega um humanismo ambiental, que consiste no respeito às necessidades das populações locais e ao desenvolvimento de nações pobres, algo fundamental para a preservação da natureza, quando aliado a certas inovações tecnológicas. O uso de pesticidas, por exemplo, é importante para banir o espectro da fome no mundo, o que torna insensato combatê-los indiscriminadamente. Além do mais, não é certo que produtos orgânicos sejam mais saudáveis, além de sua produção ser totalmente inviável para grandes populações. O ambientalismo apocalítico é tratado como uma religião, assim como sua irmã, o naturismo vegetariano, que usa linguagem científica, mas, sem nenhum embasamento. É sabido, por exemplo, que agentes carcinógenos naturais, produzidos pela vida vegetal, estão presentes em quantidades milhares de vezes maiores do que aqueles da indústria química. Mas o fanatismo religioso ambientalista ignora fatos e argumentos, crente que o apocalipse está perto, conforme sugere sua origem na tradição judaico-cristã.</p>
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		<title>O reino da linguagem</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2026 14:48:04 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Existem correntes de pensamento que pressupõem uma continuidade entre o reino animal e a espécie humana. Para a psicanálise, entretanto, o que há é da ordem da ruptura, determinada <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-reino-da-linguagem/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O reino da linguagem</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Existem correntes de pensamento que pressupõem uma continuidade entre o reino animal e a espécie humana. Para a psicanálise, entretanto, o que há é da ordem da ruptura, determinada pelo advento da linguagem específica do ser humano. Linguagem que constitui um desfile de significantes (cadeia significante), regidos por duas operações fundamentais (metáfora e metonímia), ou seja, algo completamente diferente das leis da biologia.</p>
<p>Consequências fundamentais devem ser assinaladas. A primeira é que não se deve falar de <strong>instintos </strong>no humano. O objeto e a satisfação dos instintos são relativamente fixos, rígidos. No humano deve-se falar de <strong>pulsões:</strong> há maior flexibilidade, maior liberdade, tanto em relação ao objeto, como em ralação à satisfação. Liberdade tem sempre preço elevado, a ponto de Freud falar de maldição do sexo na espécie humana.</p>
<p>Outra consequência: a linguagem cria nova espécie de herança, a <strong>herança simbólica.</strong> Algo que não se passa pela via da hereditariedade genética, mas pela via do significante, pela cultura. Para exemplificar, uma criança que nasce de uma família em Tóquio e outra de uma família numa aldeia de esquimós, recebem heranças simbólicas muito distintas.</p>
<p>Não é só a psicanálise que admite a mencionada ruptura. O historiador Harari, em seu livro <strong>Sapiens, uma breve história da humanidade, </strong>chama o advento da linguagem de Revolução Cognitiva, e se refere a ela como “o ponto que a história declarou independência da biologia”. Para ele, <em>Homo sapiens</em> surge há cerca de 200.000 anos, e a Revolução Cognitiva acontece há cerca de 70.000 anos. A partir daí, “narrativas históricas substituem narrativas biológicas como nosso principal meio de explicar o desenvolvimento do <em>Homo sapiens. </em>Para entender a ascensão do cristianismo ou a Revolução Francesa, não basta compreender a interação entre genes, hormônios e organismos. É necessário, também, levar em consideração a interação entre ideias, imagens e fantasias”. Com linguagem específica, a espécie humana constroi sua cultura, matriz onde tudo acontece, tudo avança, e que distingue inteiramente o humano dos outros animais.</p>
<p>Como surge a linguagem humana? Ninguém sabe, e talvez nunca será possível saber. É curioso, porém, apontar alguns aspectos. Não existe sistema fonador. A linguagem se aproveita de todos os sistemas do corpo humano, e, com frequência, trazendo perturbações. Razão pela qual se fala em parasita linguageiro.</p>
<p>Observação paleontológica ressalta que a posição ereta, ao liberar membros superiores da atividade de locomoção, pode facilitar a comunicação. O que pode elucidar a máxima de Anaxágoras, segundo a qual “O homem pensa porque tem mãos”, quando aplicada ao macaco das savanas.</p>
<p>Não importa, por conseguinte, a origem da linguagem humana. O que é possível concluir, com forte embasamento, é que o <em>habitat</em> do humano se torna o <strong>reino da linguagem.</strong></p>
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		<title>Religiões: as monoteistas, as não-teistas e a ateia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2026 14:45:51 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[  Freud, em O futuro de uma ilusão, afirma que a religião nasce do sentimento de desamparo fundamental do ser humano, que, biologicamente, é um prematuro, e deriva do complexo <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/deus-um-delirio-e-ateismo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Religiões: as monoteistas, as não-teistas e a ateia</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p>Freud, em <strong>O futuro de uma ilusão,</strong> afirma que a religião nasce do sentimento de desamparo fundamental do ser humano, que, biologicamente, é um prematuro, e deriva do complexo paterno: Deus, como grande pai, a santa madre Igreja e os fieis, como irmãos. E, em certo momento, ele afirma: “A religião é uma neurose obsessiva universal, e a neurose obsessiva é uma religião individual”.</p>
<p>Romain Rolland, citado por Freud em <strong>O mal-estar na civilização, </strong>concorda que a religião é uma ilusão, mas, para ele, a fonte da religiosidade é outra: o sentimento oceânico, um vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo, um sentimento de algo ilimitado, sem fronteiras. É possível que ambos estejam certos. O complexo paterno elucida as religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo), com seu Deus humanizado, ao passo que o sentimento oceânico se aplica melhor às religiões orientais (budismo, confucionismo, xintoísmo). Nesse último caso, a figura de Deus é apagada, prevalecem homens divinizados (Buda, Confúcio, Lao-Tsé) e, em vez de uma ética transcendental, que visa à vida eterna, uma ética imanente, que visa à vida terrena, ou à relação com a natureza e com a sociedade.</p>
<p>O cientista Richard Dawkins, em seu livro <strong>Deus, um delírio, </strong>rebate todos os argumentos a favor da existência de Deus, e conclui: do ponto de vista racional, é impossível provar a existência de Deus, que depende exclusivamente de fé. Ou seja, Deus só existe para quem acredita nele. Um extremo é Jung, quando afirma: “Eu não acredito em Deus, eu tenho certeza”. Certeza que nasce da fé, para impor uma realidade, o que dificilmente é modificado por argumentos ou por fatos. Nesse sentido, Deus é um delírio, e como tal, tem um conteúdo, um enredo. No caso do cristianismo é, aproximadamente, o que se segue.</p>
<p><em>“Um homem nasceu de mãe virgem, sem pai biológico envolvido. Clamou a um amigo Lázaro, morto há bastante tempo para cheirar mal, e ele voltou à vida. O próprio homem voltou à vida, depois de três dias morto e enterrado. E, do topo de uma montanha, subiu aos céus. O homem sem pai e seu “pai” (que também é ele mesmo) é capaz agora de ouvir os pensamentos de todas as pessoas. Você pode ser recompensado ou punido. A mãe virgem foi transportada em vida para o céu. Pão e vinho, abençoados por um padre (é preciso testículos), transformam-se em corpo e sangue do homem”.</em></p>
<p>O que poucos sabem é que a certeza da não existência de Deus também é uma crença. E, se a crença em Deus gera religiões, o ateísmo, que postula peremptoriamente a não existência de Deus, também gera, pelo menos, uma religião: a <strong>Religião da Humanidade (positivismo religioso), </strong>fundada por Auguste Comte, em 1854. Religião ateia com templos, doutrina, moral, regime, sacramentos e cultos.  Há muito, conta com forte presença no Brasil, tendo, inclusive, seu lema <strong>Ordem e Progresso i</strong>mpresso em nossa bandeira.</p>
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		<title>O celibato clerical como instituição homossexual</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 14 Jun 2026 14:43:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; O psicanalista Eric Laurent comenta, certa feita, que, assim como os gregos antigos, confiamos a educação de nossos filhos a homossexuais. Refere-se, desse modo, à nossa preferência de matriculá-los <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-celibato-clerical-como-instituicao-homossexual/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O celibato clerical como instituição homossexual</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>O psicanalista Eric Laurent comenta, certa feita, que, assim como os gregos antigos, confiamos a educação de nossos filhos a homossexuais. Refere-se, desse modo, à nossa preferência de matriculá-los em colégios dirigidos por padres católicos. O que há de verdadeiro na afirmação?</p>
<p>Para começar, é oportuno evocar célebre ensaio de 1051, em que um padre italiano, que veio a ser são Pedro Damião, se dirige ao papa Leao IX, para denunciar tendências homossexuais muto difundidas no clero da época. O longo tratado (cópias dele ainda existem), entretanto, foi abafado, e nenhuma das sanções propostas adotada.</p>
<p>Recentemente, o que há de mais elucidativo a respeito é um trabalho de jornalismo de investigação, realizado pelo francês Frédéric Martel, e publicado em seu livro <strong>No armário do Vaticano — Poder, Hipocrisia e Homossexualidade, </strong>de 2019<strong>. </strong>Extensa e acurada investigação, durante vários anos, em vários países, visando à exploração de dois aspectos principais: o homossexualismo e a pedofilia no clero católico.</p>
<p>O livro constrói algumas “regras”: “O sacerdócio foi, durante muito tempo, a escapatória ideal para jovens homossexuais. A homossexualidade é uma das chaves de sua vocação”. Com efeito, rapazes afeminados que se inquietam quanto a seus desejos, que sentem algo a mais pelo melhor amigo, que são ridicularizados pela voz afetada, numa cidade em que o homossexualismo é considerado mal absoluto, esses jovens encontram, no seminário, lugar onde param de perguntar sobre namoradas, e onde passam de categoria maldita a categoria eleita.</p>
<p>Outra regra: “A homossexualidade se estende à medida que nos aproximamos do santo dos santos: há cada vez mais homossexuais quanto mais subimos na hierarquia católica”. Mais uma: “Quanto mais homofóbico é um prelado, mais possível que seja homossexual”. O livro calcula que mais da metade dos sacerdotes são homossexuais praticantes e que o Vaticano abriga uma das maiores comunidades homossexuais do mundo.</p>
<p>Martel investiga, ainda, o caso de vários prelados pedófilos, causadores de grande dano e repercussão. Entre eles, Rouco, na Espanha. Mc Carrick, nos EUA. Karadima, no Chile. Zanchetta, na Argentina. E sobretudo, Marcial Maciel, no México. Não se trata de libelo contra a fé católica, tampouco contra o homossexualismo. Em nenhum momento Martel critica o catolicismo; além do mais, ele se declara <em>gay. </em>O que está em jogo, isso sim, é a hipocrisia que impregna a Igreja, e o encobrimento da pedofilia no clero católico.</p>
<p>Quando examina o fenômeno Marcial Maciel, o autor indaga: “Trata-se de um mitômano perverso, patológico e demoníaco, ou terá sido o produto de um sistema? Uma figura acidental e isolada, ou o sinal de um desvio coletivo? Ou, em outras palavras, é a história de um só homem, como se afirma (para limpar o nome da instituição), ou é o produto de um modelo de governo em que o clericalismo, o voto de castidade, a homossexualidade secreta e endêmica, a mentira, e a lei do silêncio tornaram possível”?</p>
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