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	<title>Francisco Paes Barreto</title>
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	<description>Psicanálise, psiquiatria, saúde mental.</description>
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		<title>Histeria e obsessão</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 19:11:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Em certo momento, o poeta Freud traz o seguinte primor: “um caso de histeria é a caricatura de uma obra de arte, uma neurose obsessiva é a caricatura de <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/histeria-e-obsessao/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Histeria e obsessão</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Em certo momento, o poeta Freud traz o seguinte primor: “um caso de histeria é a caricatura de uma obra de arte, uma neurose obsessiva é a caricatura de uma religião, e um delírio paranoico é a caricatura de um sistema filosófico”. E o que se segue é um devaneio sobre a feliz alegoria.</p>
<p>Embora situe a psicanálise como ciência, e para ele só existem ciências da natureza, Freud confidencia que seus antecessores estão mais no campo da literatura, e cita exemplos: Shakespeare, Goethe, Dostoiévski. Ambiguidade que traduz dilema persistente até nossos dias.</p>
<p>A histérica é considerada como uma grande simuladora da medicina. Seus sintomas enlouquecem os médicos. A crise faz supor uma somatização (conversão) neurótica. Mas, e se não for?  Ela simula os mais variados quadros médicos. O que exige exames e mais exames. Se não é doença física, o que é? E se for doença física, qual é? Os sintomas não são característicos de nenhum quadro conhecido. Será um quadro desconhecido? Ou, o que é pior, desconhecido por mim, seu médico? Como se não bastasse, a histérica simula os mais diversos quadros psiquiátricos. Exemplo: chega com delírios paranoicos. Na verdade, mentiu para o psiquiatra e para o marido e ingeriu altas doses de anfetamínicos, que podem causar tal quadro. A sintomatologia histérica pode incluir contorções, paralisias, rigidez, estupor, pantomimas, e um repertório de representações digno de uma artista, ou melhor, de uma caricatura de artista. A atual classificação da psiquiatria (DSM) resolveu o problema. O conceito de transtorno agrupa poucos sintomas. Não dá para incluir a histeria em um único transtorno, mas em vários, em inúmeros. O que quer dizer: a histeria não existe mais! Foi esquartejada.</p>
<p>O que caracteriza a neurose obsessiva é a ritualização, o comportamento compulsivo, o moralismo escrupuloso, os pensamentos imorais, os sentimentos de culpa, a penitência, os ritos esconjuratórios, a procrastinação, as ladainhas. Razão pela qual Freud compara a neurose obsessiva a uma religião individual. Ou, o que é correspondente, a religião como uma neurose obsessiva universal.</p>
<p>A histeria é da ordem do corpo. O corpo fala, o corpo encena, o corpo sofre. A obsessão é da ordem do pensamento. Pensamento que se intromete, que insiste, que faz penar.</p>
<p>A histérica escancara a falta. A falta do médico. A falta do psiquiatra. A falta de saber. Ou mesmo a falta que existe por toda parte. Motivo pelo qual está ligada ao nascimento da psicanálise: um enigma cujo encaminhamento exige outra abordagem.  Não é com maestria que deve ser tratada. Freud ama a histérica.</p>
<p>O obsessivo obtura a falta. A dele e a dos outros. É um reservatório de saber, um pródigo transmissor de conhecimentos, um especialista em remendar o que está errado. Quer consertar o mundo. Lacan ama o obsessivo.</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>Paranoia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 19:07:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[Sim, o delírio paranoico é a caricatura de um sistema filosófico. O caso princeps da psicanálise é o do Presidente Schreber, que, aos 51 anos, após ser promovido ao cargo <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/paranoia/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Paranoia</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Sim, o delírio paranoico é a caricatura de um sistema filosófico.</p>
<p>O caso <em>princeps</em> da psicanálise é o do Presidente Schreber, que, aos 51 anos, após ser promovido ao cargo máximo da magistratura alemã, desencadeia grave psicose. O núcleo de seu delírio é o seguinte: ele será transformado numa mulher, submetida ao gozo de Deus, que com ele copulará, dando origem a uma nova raça de homens, os homens schreberianos.</p>
<p>Neurose e psicose são as duas estruturas clínicas fundamentais da psicanálise. É possível diferenciá-las em termos mínimos: na neurose, há inscrição do Nome-do-Pai, um significante fundamental, enquanto que, na psicose, não há, tal significante não está incluído, está foracluido. O que exige ordenação simbólica inteiramente distinta, com forte sustentação do imaginário. Lacan compara tal compensação a um banquinho de três pés. Fala também de bengalas imaginárias. No caso de Schreber, no desencadeamento de sua psicose, é tal sustentação do imaginário que desmorona, em vivência por ele denominada “fim do mundo”. Em suas <strong>Memórias, </strong>cada etapa de sua psicose é descrita com minuciosos detalhes: a fragmentação imaginária, as vivências corporais, os delírios, as alucinações, a sistematização, a reconquista de direitos civis dos quais havia sido destituído.</p>
<p>A metáfora delirante <strong>Mulher de Deus, </strong>núcleo da concepção schreberiana, confere-lhe uma nova identificação, tal como um novo nome, capaz de fazer suplência ao Nome-do-Pai que não existe, e de contribuir para reorganizar sua subjetividade. Com efeito, a metáfora delirante é o centro de uma trama, ou de um vasto sistema delirante-alucinatório, constituído mediante uma lógica. Não a lógica que rege a ciência e o pensamento racional, mas uma lógica que se apoia em associações por semelhança ou contiguidade, próxima do pensamento mágico, primitivo. A sistematização delirante de Schreber, que encanta quem lê suas <strong>Memórias,</strong> para Freud não é um produto patológico, mas uma tentativa de restabelecimento, um processo de reordenação, que lhe confere certa estabilidade subjetiva.</p>
<p>Lacan afirma que, num primeiro momento, procura-se aplicar a psicanálise à psicose, mas que, no segundo momento, procura-se aplicar a psicose à psicanálise. Isso quer dizer, em outras palavras, que a psicanálise chega a certos sujeitos, tais como Schreber e Joyce, mais para aprender do que para ensinar.</p>
<p>A narrativa delirante de Schreber, ainda que possua concatenação lógica interessante, ainda que seja um sistema de ideias com coerência própria, restringe seu alcance à teoria de um sujeito sobre si mesmo. Freud comenta que o trabalho delirante permite a reconstrução de seu mundo, não de forma esplêndida, mas, pelo menos, de modo a poder viver nele novamente.</p>
<p>Agora, quando se considera a filosofia, o mundo é outro. É o universo, incluindo o universo humano. Elucida-se, assim, a afirmação de que o delírio paranoico é uma caricatura, ou um arremedo de sistema filosófico.</p>
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		<title>Psicopatia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 19:05:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[A concepção de Psicopatia tem antecedentes importantes. Em 1835, Prichard lança o conceito de Loucura Moral, uma perversão mórbida das inclinações morais e dos impulsos naturais, com preservação da inteligência <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/psicopatia/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Psicopatia</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>A concepção de Psicopatia tem antecedentes importantes. Em 1835, Prichard lança o conceito de <strong>Loucura Moral, </strong>uma perversão mórbida das inclinações morais e dos impulsos naturais, com preservação da inteligência e do raciocínio, e sem delírios nem alucinações. Orientação que prioriza o aspecto antissocial. Em 1913, Kraepelin cria o termo <strong>Personalidades Psicopáticas</strong> para agrupar grupo heterogêneo de tipos fronteiriços, que se afastam das neuroses sem se incluírem nas loucuras. Entre eles, os antissociais.</p>
<p>O termo <strong>Psicopatia </strong>foi criado por Bleuler, e a concepção contemporânea segue a orientação de Prichard, que prioriza o cunho antissocial dos casos. Razão pela qual alguns autores preferem o termo Sociopatia. Outros termos correlatos: perversos, caracteropatas, canalhas, personalidades antissociais.</p>
<p>Psicopatia é diagnóstico psiquiátrico, não é diagnóstico psicanalítico. Para a psicanálise, trata-se de fenômeno trans-estrutural, ou seja, sujeitos assim classificados podem estar incluídos em diferentes estruturas clínicas.</p>
<p>O caráter antissocial da Psicopatia permite interessante reflexão sobre a Psiquiatria.</p>
<p>A psiquiatria clássica, período que vai de Pinel a Kraepelin, constitui-se como discurso médico ancorado em fortes bases moralistas. Na etiologia das alienações mentais, as causas morais são as mais importantes. E o tratamento moral, proposto, articulado e teorizado por Pinel, prevalece por mais de um século, até o fim do período clássico. Sem contar a célebre teoria da degeneração, de Morel, que concebe a alienação mental com causas morais, e transmitidas por hereditariedade genética.</p>
<p>A psiquiatria atual substitui a moralidade social pela normalidade social. O que permite a tese segundo a qual o tratamento moral não foi ultrapassado, foi refinado. Os transtornos catalogados na classificação psiquiátrica (DSM) são desvios da norma social, causadores de sofrimento, e a cura pressupõe retorno à normalidade, com alívio do sofrimento.</p>
<p>Ora, se a Psicopatia é, por excelência, ANTISSOCIAL, a Psiquiatria é, por excelência, SOCIAL. Impasse intransponível. A psiquiatria afirma que o psicopata é intratável, e ela só se interessa por ele como objeto da Psiquiatria Legal. O psicopata é intratável porque, desde Pinel, o tratamento psiquiátrico é basicamente normalizador.</p>
<p>Não há dúvida quanto a isso: os psicopatas são de difícil tratamento. Mas, um tratamento possível, deve partir de outra abordagem, que não a normalizadora. Qual? Quem trabalha com presidiários, sabe que eles prezam uma pessoa: sua própria mãe. É quem raramente os abandona. Uma pista é esta: <em>na Psicopatia, cherchez la mère</em>.</p>
<p>Razões teóricas reforçam a ideia. Se a Psicopatia é, por excelência, antissocial, isso fala de uma insubmissão à lei. E a lei, tanto a simbólica como a jurídica, tem a ver com a função paterna. Então, é possível, nesses casos, além de uma hostilidade franca ao pai, uma fusão com o desejo caprichoso da mãe.</p>
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		<title>Melancolia</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 04 Oct 2026 19:02:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[Luto e melancolia. Um dos textos clínicos mais fecundos de Freud. Ele parte de uma semelhança aparente entre o estado de luto e a melancolia. Outra coincidência: no começo de <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/melancolia/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Melancolia</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Luto e melancolia. </strong>Um dos textos clínicos mais fecundos de Freud. Ele parte de uma semelhança aparente entre o estado de luto e a melancolia. Outra coincidência: no começo de ambos é possível encontrar uma perda amorosa. Mas, a semelhança termina aí. A dinâmica subjetiva é completamente diferente.</p>
<p>Na melancolia, existe acentuada ambivalência (amor e ódio) do Eu do sujeito em relação ao objeto perdido. Ou seja, o objeto perdido é profundamente amado e profundamente odiado (para a psicanálise, situação encontrada com certa frequência). O que acontece, em seguida? O Eu do sujeito identifica-se com o objeto perdido, como estratégia para compensar a perda amorosa, ou sanar a ferida narcísica. Ora, é fácil prever a outra consequência. O ódio profundo que havia contra o objeto se volta para dentro, passa a agredir o Eu, identificado que está agora com o objeto. Da mesma forma que o Eu do sujeito agredia o objeto, o Supereu do sujeito passa a agredir o Eu. A ponto de Freud exclamar, em outro momento, que “o Supereu do melancólico é pura cultura de pulsão de morte”.</p>
<p>Pode-se dizer, então, que, na melancolia, a agressividade que existe em relação ao outro se volta para dentro, se volta para o Eu, e quem escuta as ofensas que o melancólico dirige a si mesmo, percebe: é como se ele estivesse se referindo a outra pessoa. Com certa possibilidade, o melancólico suicida-se. Para Freud, “o suicídio é, no fundo, um assassinato”. Busca atingir o Outro.</p>
<p>A mania, o que é? Uma derivação da melancolia. O Eu se liberta do objeto, desfaz sua identificação com ele, e vive sensação de vitória, de euforia, de grandeza, e põe para fora toda a agressividade que estava para dentro.</p>
<p>Para a psicanálise, a melancolia, assim como a mania, são crises psicóticas muito graves, com sério risco de vida, tanto para o sujeito como para outrem, crises tão agudas que a via significante do psicanalista pouco pode fazer. O tratamento de preferência é, sem dúvida, o psiquiátrico, geralmente com bons resultados, quando realizado no tempo oportuno e com competência. Debelada a crise, o sujeito psicótico fica tão estabilizado, que o psiquiatra dá alta, não vê mais o que fazer, além do tratamento de manutenção.</p>
<p>É aí que o psicanalista pode entrar em cena. É aí que a via do significante se torna acessível, para abordar questões intocadas pela medicação.</p>
<p>A principal delas, como foi dito, está no início do quadro: a ambivalência em relação ao objeto amado. Que se manifesta frente a pessoa da vida presente, mas que remete a relação passada. Enquanto que a paranoia se escreve o lado do pai (Schreber), a melancolia se escreve do lado da mãe (amor e rejeição). São temas que podem e devem ser abordados pela via da palavra, a partir das questões atuais, pois, quem trata o presente, está tratando também o passado, o passado nele contido.</p>
<p>&nbsp;</p>
<p>&nbsp;</p>
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		<title>O que Charcot passa a Freud (lição válida ainda hoje)</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 23:44:25 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; A história do movimento psicanalítico. Texto em que Freud comenta: certos homens “transmitem um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não possuem”. Um deles, Charcot. Que conhecimento Charcot transmite <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/o-que-charcot-passa-a-freud-licao-valida-ainda-hoje/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  O que Charcot passa a Freud (lição válida ainda hoje)</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><strong>A história do movimento psicanalítico. </strong>Texto em que Freud comenta: certos homens “transmitem um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não possuem”. Um deles, Charcot. Que conhecimento Charcot transmite a Freud, sem mesmo possuir? Para deslindar a matéria, é preciso situar a época em que Freud vive, e rever sua cena com Charcot.</p>
<p>Viena, final do século XIX. A psiquiatria da época é rigorosamente organicista, o que quer dizer, em poucas palavras: a causa de todo sintoma mental está no cérebro. Causalidade linear, simples assim: o sintoma mental é produzido por alteração cerebral. Freud especializa-se em neuropsiquiatria no serviço do Professor Meynert, um organicista tão radical, que propõe uma psiquiatria sem psicologia, ou uma psiquiatria que se confunde com a neurologia. Ao concluir seu aprendizado com Meynert, toma conhecimento dos trabalhos sobre histeria do Professor Charcot, no Hospital Salpetrière, em Paris. Para lá se dirige, então, para um estágio de pós-graduação.</p>
<p>Charcot é um grande neurologista, que se interessa por hipnotismo, tema maldito para a medicina da época, por estar associado à charlatanice. O prestígio de Charcot é tão grande, que se admite o uso que ele faz da hipnose, para pesquisas científicas. Que pesquisas são essas? Para o que aqui interessa: no grande salão da Salpetrière, para um teatro formado por médicos, ele hipnotiza pacientes conhecidas como grandes histéricas, e consegue, por meio de sugestões pós-hipnóticas, fazer desaparecer seus sintomas histéricos. Ou, pelo contrário, em outras ocasiões, consegue fazer aparecer tais sintomas. Conforme já lembrado com frequência, <strong>históricas histéricas.</strong></p>
<p>O que há de excepcional nessa história? O que há de excepcional nessa história é o que Bachelard chama de <strong>corte epistemológico.</strong> Está aí, simplesmente, o nascedouro da psicanálise: o sintoma mental pode aparecer ou desaparecer, não apenas na dependência de uma alteração cerebral. O que Freud descortina é a possibilidade de um sintoma mental nascer ou findar mediante a influência de um sujeito sobre outro sujeito (algo que, mais tarde. será nomeado <strong>transferência)</strong>. Eis o caminho que Charcot mostra a Freud, sem sequer vislumbrar o alcance do que está a transmitir. Com efeito, de volta a Viena, Freud trabalha com Breuer e escreve seus <strong>Estudos sobre a histeria,</strong> a pré-história da psicanálise. As vicissitudes do sintoma não apenas em relação ao que ocorre no cérebro, mas na relação do sujeito com o significante.</p>
<p>Lição plenamente válida, ainda nos dias de hoje, quando certas orientações insistem em propor a alteração cerebral como única via para o sintoma mental. Retrocesso ligado à lógica da medicação, que apregoa ancoragem científica, ainda que esteja, mais claramente, ancorada em interesses da indústria farmacêutica. Quanto a isso, não é o caso de demonizá-la, mas, sim, de lhe colocar cabresto. Pois, a besta é brava.</p>
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		<title>Placebo também cura!</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 14 Sep 2026 23:39:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; O que é um placebo? Um dos produtos mais curiosos da ciência! Uma substância inerte ou inócua, do ponto de vista farmacológico, utilizada em ensaios clínicos, para testar e <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/placebo-tambem-cura/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Placebo também cura!</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>O que é um placebo? Um dos produtos mais curiosos da ciência! Uma substância inerte ou inócua, do ponto de vista farmacológico, utilizada em ensaios clínicos, para testar e comparar novos medicamentos. Os comprimidos de placebo e do medicamento testado são idênticos na sua aparência, não sendo possível, visualmente, diferenciar um do outro. Os pacientes que participam da pesquisa não sabem se estão tomando placebo ou o remédio novo que está sendo testado. Os avaliadores dos resultados, também, não. Motivo pelo qual o método é nomeado <strong>duplo cego. </strong>Somente um outro pesquisador, que controla os trabalhos, sabe quem está tomando o quê.</p>
<p>Usam-se como placebo, por exemplo, comprimidos de amido. Já foram usados comprimidos de talco, sob a alegação de que saíam da mesma maneira que entravam. Foi descoberto, porém, que talco é cancerígeno; a preferência, então, recai sobre substâncias mais inertes ou inócuas.</p>
<p>A participação do placebo em testes clínicos traz resultados impressionantes, curiosíssimos. Um deles: o placebo provoca inúmeros efeitos colaterais, que devem ser, inclusive, computados estatisticamente. Outro deles, ainda mais curioso: o placebo também cura.</p>
<p>O norteamericano Stahl, autor de famoso compêndio de psicofarmacologia clínica, mostra que, em pacientes tratados com antidepressivos para depressão, cerca de 2/3 respondem após 8 semanas, com redução de no mínimo 50 % dos sintomas; e 1/3 não respondem. Nos pacientes que recebem placebo, cerca de 1/3 respondem em 8 semanas. O que se pode concluir, a partir desse autor e de vários outros, com dados aproximados?  Se o antidepressivo “cura” 2/3 dos casos, o placebo “cura” 1/3 dos casos.</p>
<p>Ora, qual o fundamento da ação do placebo? Pacientes melhoram, ou se “curam”, simplesmente por estarem sendo tratados. Ou seja, sendo cuidados, avaliados, considerados, escutados. Nesse caso, a substância química que ingerem, nada tem a ver com o resultado.</p>
<p>Para ser mais claro: do ponto de vista psicanalítico, o placebo é um dos nomes da transferência. Não da transferência no sentido estrito, tal como ocorre no tratamento psicanalítico, mas da transferência no sentido amplo, como ocorre em todo e qualquer tratamento. O placebo é uma estratégia para isolar os efeitos da transferência.</p>
<p>Duas conclusões se apresentam. A primeira: a eficácia clínica do antidepressivo, nos testes citados, deve-se à soma de sua ação farmacológica mais sua ação como placebo.</p>
<p>Segunda conclusão: todo tratamento, seja qual for, tem chance de curar seus pacientes, devido ao “efeito placebo”. Ou seja, quanto a isso, o que cura é o terapeuta, ou o que cura é a transferência, e não os pressupostos poderes do agente terapêutico. É o que explica porque tantos tratamentos sobrevivem, por tanto tempo, mesmo sem nenhum embasamento que os comprovem.</p>
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		<title>Os arruinados pelo êxito</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:24:53 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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					<description><![CDATA[&#160; Eis o título de um artigo de Freud. Título que é uma interpretação! Apresenta o êxito como causa de ruína! Abordagem inovadora da psicanálise, que, no máximo, foi esboçada, <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/os-arruinados-pelo-exito/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Os arruinados pelo êxito</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Eis o título de um artigo de Freud. Título que é uma interpretação! Apresenta o êxito como causa de ruína! Abordagem inovadora da psicanálise, que, no máximo, foi esboçada, antes dela, por grandes literatos (Shakespeare, Ibsen). Certas pessoas simplesmente não são capazes de tolerar a felicidade! Adoecem precisamente no momento em que um desejo, profundamente enraizado, alcança a realização.</p>
<p>Exemplo célebre, trazido em outro momento, é o do Presidente Schreber. Sua carreira como jurista evolui com êxito e brilhantismo, com várias honrarias e promoções, até ser nomeado, aos 51 anos, Presidente da Corte de Apelação de Dresden. Posto vitalício, ponto culminante de sua ascensão na conceituada Justiça alemã. Um desafio, pois, além de elevados encargos, seus subordinados são mais velhos e mais experientes do que ele. A partir daí, sobrevém o desencadeamento de grave psicose; inicialmente por dramática dissolução de seu imaginário, catástrofe subjetiva que ele designa como “fim do mundo”.</p>
<p>Para Lacan, a operação estruturante da psicose é a falta ou foraclusão de um significante fundamental, o Nome-do-Pai. O que cria uma cratera na rede significante, um buraco no simbólico. A promoção conferida a Schreber é forte apelo ao exercício de uma função paterna, experiência simbólica que invoca o lastro do significante do Nome-do-Pai, mas que, em seu lugar, encontra o vazio. A falta do Nome-do-Pai é a chave do desastre que se segue.</p>
<p>Freud cita outro exemplo. Um respeitável senhor, professor universitário, nutre há muito o desejo de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos estudos. Quando o mestre se aposenta, seus colegas lhe informam que fora escolhido para substitui-lo. Começa, então a hesitar, até cair em melancolia, que lhe deixa incapaz por vários anos.</p>
<p>Nesse caso, tudo se deve exatamente à presença do Nome-do-Pai, ou seja, ao que Freud chama de complexo paterno. O velho mestre no lugar do pai, como objeto de forte ambivalência: a um só tempo amado e alvo do desejo hostil de vê-lo superado. Quando surge a oportunidade de ocupar o seu lugar, o sentimento de culpa irrompe, e, em vez de ascensão ao poder, a melancolia prevalece, impedindo-o de galgar o posto almejado e interditado.</p>
<p>Desse modo, sim, desse modo, a psicanálise estabelece conexão que fere o senso comum, que subverte o princípio do prazer, ao situar o êxito como véspera da ruína, o sucesso como antessala do fracasso, e ao mostrar que felicidade não é fácil de viver, e que, pelo contrário, precisa ser suportada, ou mesmo, construída e mantida, pois, se não, após a vitória, sobrevém a inconsistência, ou a culpa, ou o declínio, ou a melancolia.</p>
<p>Autores pós-freudianos criam expressões marcantes para aludir o tema em questão: “O homem contra si mesmo” (Massermann), ou “Os sabotadores internos” (Fairbairn).</p>
<p>O que há de comum em tudo isso é o Supereu, e algo intimamente ligado a ele: as vicissitudes de um além do princípio do prazer.</p>
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		<title>A gula do Supereu</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:22:32 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Em <strong>O mal-estar na civilização</strong> Freud observa que o advento da civilização exige renúncia de pulsões sexuais e agressivas. O recurso mais importante para alcançá-la é a constituição do Supereu. De que modo isso acontece? Num primeiro momento, a renúncia pulsional se faz frente a uma autoridade externa, que ameaça com perda de amor e castigo. Num segundo tempo, a agressividade é introjetada, interiorizada, enviada de volta para dentro, o que resulta na organização do Supereu como autoridade interna, e a renúncia pulsional devida ao medo dele. Num terceiro tempo, uma lógica paradoxal, algo familiar à psicanálise, mas, estranho ao modo comum de pensar das pessoas. Cada nova renúncia pulsional, em vez de aplacar, aumenta a severidade do Supereu. Ele exige renúncia pulsional e essa, por sua vez, engorda o Supereu. É o que Lacan chama de <strong>gula do Supereu.</strong> Da agressividade que o sujeito retorna contra si mesmo provém tal ferocidade.</p>
<p>O Supereu, enquanto consciência moral, põe em ação contra o Eu a mesma agressividade rude que o Eu gostaria de dirigir a outrem. A tensão entre o severo Supereu e o Eu é denominada sentimento de culpa, ou necessidade de punição; mal-estar que cabe a cada um suportar, como fardo por viver numa civilização.</p>
<p>Convém assinalar que renúncia pulsional não é renúncia ao gozo. Se não há renúncia, o sujeito goza; se há renúncia, o sujeito goza de renunciar. Ou goza desde o Isso, ou goza desde o Supereu. Como brinca Miller: existe o prazer de comer marmelada e existe o prazer de não comer marmelada.</p>
<p>A lógica paradoxal do Supereu pode ser evidenciada em numerosas situações clínicas, e é possível apresentar algumas delas de modo sucinto. Em seu relato, um sujeito comenta.</p>
<p><em>—Devido a circunstâncias e pressões familiares, prestei ajuda a um parente, pessoa reconhecidamente problemática. Ajuda que precisei reproduzir numerosas vezes, em variados contextos. O parente não esboçou nenhum reconhecimento, longe dele alguma expressão de agradecimento. Pelo contrário, a cada vez em que era beneficiado, pouco adiante apresentava demandas maiores, algumas, em tom de reivindicação, como se fosse algo obrigatório para mim. Bastante exaurido, identifiquei a trama e resolvi dar fim drástico à situação. O que resultou foi uma ruptura da relação, acompanhada de grande hostilidade por parte do parente. Tudo se passou como se eu, depois de tanto dar, ainda estivesse devendo a ele!</em></p>
<p>Outro exemplo. Os dependentes químicos costumam tentar ficar livres da substância tóxica. É claro que surgem sensações de abstinência. Se o dependente químico, para obter alívio, cai na tentação de ingerir pequena dose, o que acontece? Cai facilmente na gula do Supereu! A máxima dos Alcoólicos Anônimos é sábia: <strong>Evite o primeiro gole.</strong></p>
<p>A lógica do Supereu é a lógica da chantagem, e a polícia sabe muito bem dela. Ao negociar com um chantagista, o princípio básico é: não ceder. Pois, ceder, em vez de reduzir, aumenta a pedida.</p>
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		<title>As pulsões de morte</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 29 Aug 2026 19:20:19 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e saúde mental]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p>Nos tempos atuais, qual o tema mais difícil de ser abordado por um psicanalista? Não há sombra de dúvida. Na civilização contemporânea, civilização do bem-estar, o tema mais espinhoso são as pulsões de morte. Motivo pelo qual às vezes são escolhidos temas adocicados, que prometem resultados aprazíveis. Mas, o psicanalista não deve recuar diante do desafio: é preciso tratar a questão das pulsões de morte.</p>
<p>Grande parte dos pós-freudianos evitam o problema, alegando que a tese das pulsões de morte é especulação filosófica. Nada disso. Melanie Klein e Lacan mostram algo inteiramente diverso: o Supereu, conceito de importância maior na clínica psicanalítica, é impensável sem as pulsões de morte. Como, então, concebê-las?</p>
<p>Dados da clínica são abundantes, mas, a Primeira Grande Guerra precipita a concepção. Freud leva às últimas consequências a fórmula de Hobbes, segundo a qual “o homem é o lobo do homem”. E em <strong>O mal-estar na civilização, </strong>traz uma síntese clara.</p>
<p><em>“O ser humano não é uma criatura branda, ávida de amor, que, no máximo, pode se defender, quando atacado. Mas, sim, ele deve incluir, entre seus dotes pulsionais, um forte quinhão de agressividade. Em consequência disso, para ele, o próximo não constitui apenas um possível colaborador e objeto sexual, mas, também, uma tentação para satisfazer a tendência à agressão, para explorar seu trabalho sem recompensá-lo, para dele se utilizar sexualmente contra sua vontade, para usurpar seu patrimônio, para humilhá-lo, para infligir-lhe dor, para torturá-lo e para matá-lo“.</em></p>
<p>Citação que mostra peremptoriamente que pulsões de morte nada têm a ver com especulação filosófica, mas com a dura realidade dos seres humanos. Freud tem plena consciência do incômodo causado por suas formalizações. Diz que “a psicanálise não traz a boa nova” e que ele faz parte daqueles que haviam perturbado o sono do mundo.</p>
<p>Lacan, com o conceito de <strong>gozo </strong>(satisfação da pulsão), reúne pulsões de vida e pulsões de morte, ou seja, o gozo é a satisfação da pulsão, tanto das pulsões de vida como das pulsões de morte. O que quer dizer muita coisa. Satisfação não é apenas algo ligado ao bem-estar. Com as pulsões de morte, há satisfação em causar dor no outro, ou prazer em destruir, e também em causar dor em si próprio. Ou seja, há situações em que o sujeito busca o próprio sofrimento como forma de satisfação.</p>
<p>A concepção de pulsões de morte tem grande alcance clínico, verificável na prática do dia a dia, mas sua importância vai muito além, pois abrange numerosas ocorrências que se constatam facilmente no cotidiano dos noticiários, e nas próprias suposições quanto ao futuro da humanidade. A complexidade do tema não permite otimismo ingênuo e aponta mais para um realismo prudente. Com as pulsões de morte, fica impróprio falar em cura, tanto no plano do sujeito como no plano coletivo, mas, a proposta psicanalítica, num ponto crucial, é clara: saber é melhor do que desconhecer, descobrir é melhor do que encobrir, reconhecer é melhor do que negar. O que a psicanálise pode? “Um analista não pode prometer mais do que substituir a miséria neurótica pela infelicidade comum do ser humano”.</p>
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		<title>Concepção psicanalítica de Totalitarismo</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Francisco Paes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 11 Aug 2026 11:57:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Psicanálise e Política]]></category>
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					<description><![CDATA[  Em Psicologia das massas (Massenpsychologie) Freud apresenta concepção clara e precisa de Totalitarismo. Toma como paradigmas dois grupos artificiais totalitários: a Igreja e o exército.  A lógica coletiva que <a href="https://www.franciscopaesbarreto.com/concepcao-psicanalitica-de-totalitarismo/" class="more-link">...<span class="screen-reader-text">  Concepção psicanalítica de Totalitarismo</span></a>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><strong> </strong></p>
<p>Em <strong>Psicologia das massas</strong> <strong>(Massenpsychologie) </strong>Freud apresenta concepção clara e precisa de Totalitarismo. Toma como paradigmas dois grupos artificiais totalitários: a Igreja e o exército.  A lógica coletiva que lhes concerne está centrada em um líder, o general, no caso do exército, ou numa ideia dominante, Cristo, no caso da Igreja, que se colocam no lugar do ideal do Eu. O fascínio pelo líder ou pela ideia dominante é da ordem de uma identificação, à qual corresponde a identificação dos membros entre si. O resultado final é o funcionamento do grupo como uma massa, como Um, e a servidão a um comando unificado. De modo esquemático, Freud assim se expressa: <em>“Uma massa primária desse tipo é uma quantidade de indivíduos que puseram um único objeto no lugar de seu ideal do Eu e, em consequência, identificaram-se uns com os outros em seu Eu”.</em></p>
<p>O grupo totalitário apresenta poderosa coesão interna, que se opõe tenazmente a supostos inimigos. No caso do exército, são os inimigos da Pátria. E uma religião, mesmo que se considere religião do amor, tem que ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. A esse respeito, a maior tolerância que se observa em tempos recentes está relacionada a um afrouxamento da coesão entre os crentes.</p>
<p>Jacques-Alain-Miller, no texto de sua <strong>Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola,</strong> apresenta tese instigadora: <strong>a Escola (de Lacan) é um sujeito.</strong> Ou seja, a Escola, um grupo organizado, pode ser tratada como um sujeito, um sujeito barrado, e inclusive, pode ser psicanaliticamente interpretada. Tese que levanta a seguinte questão: em que medida um grupo organizado pode ser tratado como um sujeito? No caso de um grupo totalitário, tal como abordado por Freud, seria um sujeito imaginariamente não barrado, não dividido, completo, regido pela lógica do universal, pela lógica do todo.</p>
<p>Lacan afirma que “Freud articulou, em <em>Massenpsychologie<strong>, </strong></em>nos primórdios dos anos vinte<strong><em>, </em></strong>uma coisa que, singularmente, revelou estar no princípio do fenômeno nazista”. Ou seja, a união e o fascínio da massa por um líder, sua servidão a ele, o que culmina na drástica perseguição, na segregação, e até mesmo no extermínio de inimigos presumidos. O bigode de Hitler como um detalhe crítico (Seminário 18), um traço unário, um significante aglutinador, capaz de unir a identificação coletiva de uma nação.</p>
<p>Concluindo, Freud trouxe elementos axiais para a elucidação do totalitarismo, o que inclui experiências históricas que lhe foram contemporâneas, e que constituem dois outros grandes paradigmas: o da direita, já mencionado, com Hitler e a Alemanha nazista, e o da esquerda, com Stalin e a União Soviética comunista. O Ocidente, que viveu as agruras do nazismo e do capitalismo, comumente se cega para as atrocidades do comunismo. Como exemplo do que acaba de ser dito, a militância pró-soviética de Sartre e de Merleau-Ponty, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, fechando os olhos para os campos de concentração <em>(gulags) </em>e para as atrocidades do regime estalinista. <em> </em>Exemplo europeu.</p>
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