A psiquiatria biológica sonha com as neurociências, mas, acorda nos braços da indústria farmacêutica. Alega ser científica, porém, o que se verifica, no dia a dia, é isto: ela induz a tratar com medicamentos problemas existenciais. Ou seja: para ela, o bem-estar na vida é problema médico. Existem pessoas que, por conveniência, preferem acreditar nisso.
Bom caminho para esclarecer a questão é a importância atribuída à genética. O que a psiquiatria biológica afirma é diferente do que a ciência afirma.
A psiquiatria biológica afirma que a causa da doença mental é, em última análise, de natureza genética. Como se o destino de cada um já estivesse escrito no genoma.
A ciência (genética) afirma outra coisa: nenhuma doença mental é determinada geneticamente, o que se herda é predisposição, que pode se manifestar ou não.
Bom meio de esclarecimento são trabalhos realizados com gêmeos univitelinos, pois eles possuem cargas genéticas idênticas. Uma pesquisa compara a incidência de esquizofrenia nesses gêmeos, e constata que, quando um apresenta a doença, em cinquenta por cento dos casos, o outro também apresenta. O que isso prova? Prova que a genética é muito importante! É verdade, mas é possível outra leitura: em cinquenta por cento dos casos, o outro não fica esquizofrênico! Prova que não é só a genética que importa. A mesma carga genética pode levar a expressões existenciais diferentes, dependendo de fatores ambientais: é o que nos ensina a epigenética.
Nos fatores ambientais estão incluídas as vivências pessoais, que configuram a história do sujeito, e cada história é única, inteiramente diferente das outras. O que a desenha não é só questão de causa e efeito: uma história tem muito de acaso, ou casualidade, e disso os literatos sabem melhor do que os psiquiatras, mais do que os próprios cientistas. Para estudar o sujeito, é preciso método que leve em conta a subjetividade, tal como o faz a psicanálise, a fenomenologia, o existencialismo. A psiquiatria biológica, no entanto, descarta a subjetividade, para ela o sujeito é um número, um entre tantos, na soma de sua estatística.
A ênfase excessiva que é dada à genética tem objetivo não difícil de encontrar: se a genética dita o destino, se o genoma é um Maktub, então, é mais fácil propor o tratamento medicamentoso, rápido e fácil, no lugar de abordagens analíticas, mais exigentes. No máximo, admite-se uma TCC, terapia cognitivo-comportamental, que visa sumariamente combater sintomas, já que o problema se resume a isso. Daí a medicalização da existência humana.
No entanto, numa mesma estrutura clínica, há um sem número de possiblidades existenciais, e a supressão de sintomas é uma perspectiva muito empobrecedora. Já que o mundo sempre é visto através de uma janela, convém lembrar que existem janelas panorâmicas, embora exista também quem prefira olhar pela fresta pequenina.