Psicotrópicos, sim. Ideologia, não.

 

O primeiro ansiolítico, o meprobamato (Equanil), surgiu em 1950; o primeiro antipsicótico, a clorpromazina (Amplictil), em 1952; o primeiro estabilizador do humor, o lítio (Carbolitium), em 1954; e o primeiro antidepressivo, a imipramina (Tofranil), em 1957. O advento dos modernos psicofármacos trouxe avanço admirável, capaz de mudar inteiramente o panorama das terapêuticas psiquiátricas. Além de constituírem, por si só, recurso precioso, eles ajudam a viabilizar a adoção de tratamentos associados, como abordagens analíticas e técnicas socioterápicas. Metamorfose que marca um antes e um depois na atenção à saúde mental.

Os psicofármacos, portanto, foram um dos fatores (longe de ser o principal) que transformaram a política de saúde mental, tal como ocorreu em nosso meio.

No final do século XX, porém, sua história sofre inflexão. Até então medicamentos de emprego restrito, em pouco tempo tiveram seu uso praticamente universalizado! É claro que a humanidade não ficou, de repente, mais louca ou mais neurótica. O que foi, então, que aconteceu?

Para esclarecer o mistério, bom caminho é o exame de três senhas. A primeira é —a pílula da felicidade! Sim, o Prozac como pílula da felicidade. Fórmula mágica que surge no fim dos anos 1980. Ora, quem é que não quer ser feliz? Freud soube reconhecer na felicidade a aspiração humana mais generalizada, embora também a mais complexa. Apresentar um medicamento como pílula da felicidade, é vender a ideia de que ela pode vir pela ingestão de uma substância química. Que não se subestime o poder dessa fantasia. Quem é que não quer ser feliz por tão pouco?

A segunda senha aparece no início dos anos 1980: —Freud está morto! Tal como circulou na capa da revista Time. Era o grito de guerra contra a psicanálise, eleita (corretamente) como o maior obstáculo no caminho da medicalização da vida humana.

Houve uma terceira senha: eleger os anos 1990 como a —década do cérebro! Isso com divulgação generalizada pela mídia. Pano de fundo para a disseminação dos psicofármacos, que passaram a ser utilizados em todos os transtornos catalogados pelo DSM, a classificação psiquiátrica das doenças mentais.

Resumo da história: de um uso limitado, abrangendo inicialmente quadros psiquiátricos mais graves, os psicotrópicos passam a ser empregados, em curto prazo, nas mais variadas experiências humanas, nas mais diferentes situações existenciais, a ponto de seu uso tornar-se praticamente universalizado. Para a psiquiatria biológica, transtornos são sofrimentos relacionados a desvios da norma social, mas que, por petição de princípio, são considerados de origem cerebral. A cura, definida como remissão de sintomas, é proposta reducionista, guiada por política normativa, cuja pretensão maior é configurar o bem-estar na vida como questão de natureza médica.

Concluindo. Cumpre ressaltar a importância dos psicofármacos, o progresso e as aberturas que seu advento proporcionou e continua proporcionando. O que não dá para aceitar é a ideologia que, juntamente com a pílula, os laboratórios querem nos fazer engolir.

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