“A doença mental é, antes de tudo, doença cerebral”: eis a célebre postulação de Griesinger, pai da psiquiatria clássica alemã, em seu Tratado de 1845. Concepção radical, que procura estabelecer, para toda doença mental, um embasamento anatomopatológico cerebral bem definido, em desacordo com Pinel, fundador da psiquiatria, para quem as alienações mentais são distúrbios funcionais do cérebro. A psiquiatria inteira da época adere à proposta anatomista de Griesinger, que define até mesmo seu paradigma: a paralisia geral, doença mental com quadro clínico já definido, e para a qual Bayle encontra substrato anatomopatológico cerebral.
Mais tarde, o quadro clínico é refinado, e passa a ser designada paralisia geral progressiva (PGP). É a doença que afeta Nietzche, no final de sua vida. Calmeil completa a descrição da base anatomopatológica: trata-se de meningoencefalite crônica difusa. Em 1905, Schaudinn descobre que a sífilis é causada por uma bactéria, o Treponema pallidum. Em 1906, Wassermann desenvolve exame de sangue para comprovar a existência de sífilis. Em 1913, Noguchi descobre Treponema pallidum no cérebro de pacientes com paralisia geral, que pode ser caracterizada, então, como forma quaternária de sífilis cerebral. Finalmente, em 1945, Fleming isola a penicilina, antibiótico que elimina radicalmente o agente causador da sífilis humana. Eis o ideal da psiquiatria organicista: uma doença mental com quadro clínico definido, ao qual correspondem estruturas anatomopatológicas determinadas, causadas por agente etiológico conhecido, e que tem tratamento específico, eficaz e inócuo!
Mas, que pena! A paralisia geral progressiva, o maravilhoso paradigma, é apenas uma exceção. A imensa maioria das doenças mentais, passados dois séculos, e apesar do imenso progresso das ciências, inclusive das neurociências, apesar de todo esse progresso, não consegue estabelecer bases anatomopatológicas das doenças mentais. A psiquiatria não consegue, sequer, ainda hoje, definir normal e patológico em bases biológicas, tal como o faz a medicina científica. Nem mesmo a esquizofrenia, a mais grave das doenças mentais, pode ser caracterizada por meios exclusivamente biológicos. Seu diagnóstico continua, ainda hoje, essencialmente clínico.
Como é que, então, a psiquiatria biológica PPP se diz especialidade plenamente médica, da medicina científica? Ora, para a psiquiatria biológica PPP, o normal e o patológico são definidos com base na normalidade social. Nenhum fundamento biológico sustenta os numerosos transtornos do DSM V. A psiquiatria só é biológica por petição de princípio. Por conseguinte, hoje, dois séculos depois de Griesinger, é possível parafraseá-lo ao contrapô-lo: a doença mental é, antes de tudo, doença social.
O psicanalista Jacques-Alain Miller comenta que a norma social tem base estatística, mas, decidir que todos devem ser normais, não passa de ideologia!
Isso explica bem a denominação: psiquiatria biológica PPP. Só existe psiquiatria biológica por petição de princípio!