O psicanalista Eric Laurent comenta, certa feita, que, assim como os gregos antigos, confiamos a educação de nossos filhos a homossexuais. Refere-se, desse modo, à nossa preferência de matriculá-los em colégios dirigidos por padres católicos. O que há de verdadeiro na afirmação?
Para começar, é oportuno evocar célebre ensaio de 1051, em que um padre italiano, que veio a ser são Pedro Damião, se dirige ao papa Leao IX, para denunciar tendências homossexuais muto difundidas no clero da época. O longo tratado (cópias dele ainda existem), entretanto, foi abafado, e nenhuma das sanções propostas adotada.
Recentemente, o que há de mais elucidativo a respeito é um trabalho de jornalismo de investigação, realizado pelo francês Frédéric Martel, e publicado em seu livro No armário do Vaticano — Poder, Hipocrisia e Homossexualidade, de 2019. Extensa e acurada investigação, durante vários anos, em vários países, visando à exploração de dois aspectos principais: o homossexualismo e a pedofilia no clero católico.
O livro constrói algumas “regras”: “O sacerdócio foi, durante muito tempo, a escapatória ideal para jovens homossexuais. A homossexualidade é uma das chaves de sua vocação”. Com efeito, rapazes afeminados que se inquietam quanto a seus desejos, que sentem algo a mais pelo melhor amigo, que são ridicularizados pela voz afetada, numa cidade em que o homossexualismo é considerado mal absoluto, esses jovens encontram, no seminário, lugar onde param de perguntar sobre namoradas, e onde passam de categoria maldita a categoria eleita.
Outra regra: “A homossexualidade se estende à medida que nos aproximamos do santo dos santos: há cada vez mais homossexuais quanto mais subimos na hierarquia católica”. Mais uma: “Quanto mais homofóbico é um prelado, mais possível que seja homossexual”. O livro calcula que mais da metade dos sacerdotes são homossexuais praticantes e que o Vaticano abriga uma das maiores comunidades homossexuais do mundo.
Martel investiga, ainda, o caso de vários prelados pedófilos, causadores de grande dano e repercussão. Entre eles, Rouco, na Espanha. Mc Carrick, nos EUA. Karadima, no Chile. Zanchetta, na Argentina. E sobretudo, Marcial Maciel, no México. Não se trata de libelo contra a fé católica, tampouco contra o homossexualismo. Em nenhum momento Martel critica o catolicismo; além do mais, ele se declara gay. O que está em jogo, isso sim, é a hipocrisia que impregna a Igreja, e o encobrimento da pedofilia no clero católico.
Quando examina o fenômeno Marcial Maciel, o autor indaga: “Trata-se de um mitômano perverso, patológico e demoníaco, ou terá sido o produto de um sistema? Uma figura acidental e isolada, ou o sinal de um desvio coletivo? Ou, em outras palavras, é a história de um só homem, como se afirma (para limpar o nome da instituição), ou é o produto de um modelo de governo em que o clericalismo, o voto de castidade, a homossexualidade secreta e endêmica, a mentira, e a lei do silêncio tornaram possível”?