Eu moro na Bélgica

 

 

Torta de limão. Doçura pode ser extraída do que há de mais ácido.

Durante a ditadura militar, o país conhece o que é orgulhosamente nomeado de “milagre econômico”. Grandes obras de infraestrutura (Itaipu, ponte Rio-Niteroi, rodovias, aeroportos). Industrialização. Crescimento do agronegócio. Aumento galopante do PIB. Na maior parte do período, o ministro da economia é Delfim Neto, de cuja inteligência ninguém duvida.

O “milagre econômico”, entretanto, acontece com grave distorção. O número de grandes beneficiados é pequeno, seguido de classe média em ascensão, e, na base da sociedade, persiste grande quantidade de pobres e miseráveis. Estrutura tipicamente piramidal. Em resposta a críticas severas por tal disparate, Delfim Neto proclama: “Calma, é preciso deixar o bolo primeiro crescer, para, depois, poder reparti-lo”.

Proposta que não agrada nem convence muita gente. O economista Edmar Bacha, em metáfora primorosa, cria o termo Belíndia. O Brasil contém uma Bélgica (minoria rica) e uma Índia (grande massa de miseráveis). O mesmo economista propõe, em outro momento, a metáfora Ingana: impostos da Inglaterra com serviços públicos de Gana. A fábula da Belíndia deixa Delfim Neto furioso.

O tempo passa, e tudo passa. A ditadura acaba. A hiperinflação chega.

Vários planos são postos em prática, para acabar com ela. Planos drásticos. O Plano Cruzado, de Sarney. O Plano Collor. Tudo em vão.

No governo Itamar Franco, Edmar Bacha participa da elaboração do Plano Real.

Delfim Neto duvida da eficácia do plano e, dizem alguns, enxerga ali ótima oportunidade de vingança. Afirma, com sagacidade: “Finalmente, teremos inflação bacha”.

Edmar Bacha, também dessa vez, leva a melhor. A inflação torna-se, realmente, bacha.

Hoje, revejo a história, e chego a uma constatação. Eu moro na Bélgica. Nos meus sonhos, porém, o Brasil há de ser, um dia, um imenso Portugal.

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