O primeiro Lacan, ou a leitura estruturalista de Freud, é um conjunto harmonioso e coerente de textos que vão do Discurso de Roma à Subversão do sujeito. A dívida de Lacan com Saussure, mais do que o conceito de significante, é o conceito de estrutura. De Jakobson, toma emprestado o emprego de várias categorias: metáfora e metonímia, enunciado e enunciação, além dos elementos da comunicação (emissor, receptor, código, mensagem, referente, canal). Convém lembrar, no entanto: sempre que Lacan faz transposição de algum termo de outra disciplina, a ação traz uma ressignificação, o que, aliás, é próprio do conceito de estrutura.
O signo linguístico em Lacan, por exemplo, difere do de Saussure: há primazia do significante sobre o significado; a barra não une, mas separa um do outro; o significado não é heterogêneo ao significante, é o significante numa outra posição. E mais: a barra é a barra do recalque. Lacan faz da notação do signo S/s a própria notação do inconsciente. E substitui a folha de papel de Saussure pela banda de Moebius: solução elegante para o problema da dupla inscrição de Freud (como é que uma representação inconsciente se torna consciente?).
Por outro lado, o estruturalismo da Lacan é um estruturalismo com sujeito, e em Subversão do Sujeito ele trabalha a inserção do sujeito na estrutura, ou seja, na cadeia significante.
A cadeia significante funciona a partir de dois eixos básicos. O eixo da combinação, ou da fala, da diacronia, do desfile da sintaxe, no qual um significante se concatena ao outro (significante a significante) — é a metonímia. Já o eixo da seleção, ou da língua, da sincronia, onde se produz a semântica, no qual um significante substitui o outro (significante por significante) — é a metáfora. Lacan associa a metonímia ao deslocamento, e ao desejo, e a metáfora à condensação, e ao sintoma.
O enunciado é o dito, e a enunciação é o dizer, ou seja, a posição subjetiva daquele que enuncia. O conceito clássico de verdade fala de relação entre o dito e o fato. Para a psicanálise, a verdade está na relação entre o dito e o dizer. Exemplo célebre é o que Freud apresenta. Um sujeito sonha com um personagem e traz o seguinte dito: “Não é minha mãe”. Mas, por que escolheu exatamente sua mãe para dizer que não é ela? Freud interpreta: “Então, é sua mãe”. Substitui o dito falso por dizer verdadeiro.
Tal como Freud, Lacan enfrenta vários e severos críticos, mas, o mais severo de todos é… ele próprio. Tanto assim, que seu ensino conhece muitas reviravoltas. Longe do primeiro Lacan, está o ultimíssimo. É quando ele propõe que todos somos loucos, à medida em que todos deliramos. E confessa que ele próprio delirou a respeito do simbólico. Refere-se a certas formulações de seu primeiro ensino, principalmente em relação ao final de análise. Quer dizer que é preciso jogar no lixo essas primeiras formalizações (conforme propõem alguns?). Não! Nada disso. É mais complexo, esse mundo de Deus.