O que é estrutura?

 

A ideia de estrutura está presente desde o primeiro até o último dia do ensino de Lacan. O que varia é sua concepção de estrutura. A estrutura configura a forma clínica e contribui para a validação lógica da construção de cada caso clínico.

Miller dá a seguinte definição: “Um conjunto solidário de elementos diferenciados, diacríticos, relacionados uns aos outros de tal sorte que a variação de um repercute sobre os outros e provoca variações concomitantes”. O que está de acordo com a concepção estruturalista de Saussure, que diz, por exemplo, que um significante, sozinho, não significa nada. Um exemplo lúdico. O que é manga? Depende. Se acrescento: goiaba, mamão, abacate, a resposta é: uma fruta. Se acrescento: botão, gola, bolsa, a resposta é: uma peça do vestuário. Se acrescento: Januária, Janauba, Montes Claros, a resposta é: uma cidade do norte de Minas.

A estrutura, num primeiro momento, é a estrutura da linguagem. É quando Lacan, influenciado por Saussure e Jakobson, faz um retorno a Freud, mediante leitura estruturalista de seu texto. A estrutura é a cadeia significante, regida por duas operações, a metáfora e a metonímia. O discurso de Roma (1951), Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise, que inaugura o ensino lacaniano, é o texto fundamental desse período, que pode ser resumido numa única frase: “O inconsciente está estruturado como uma linguagem”.

Lacan abandona o estruturalismo. Mas, não abandona a estrutura. A partir do Seminário A lógica da fantasia, seu ensino deixa de inspirar-se na linguística, para apoiar-se na lógica-matemática, sob a influência de Cantor, Frege, Russell, Gödel. A estrutura, então, é a estrutura lógica, ou o que Lacan passa a denominar matema. O mais importante, baseado no teorema de Gödel, é o matema da sexuação, quando Lacan formaliza a diferença entre masculino e o feminino, não a partir da anatomia, mas, como seres de linguagem. É possível resumir também esse segundo momento com uma única frase: “A lógica é a ciência do real”.

No que se convencionou chamar de ultimíssimo Lacan, acontece nova mudança. Pode-se dizer assim: a partir do Seminário O sinthoma, a estrutura é uma estrutura topológica. Lacan deixa de confiar na lógica-matemática. “Não há ciência do real”.  E elege nova estrutura, de natureza topológica: o nó borromeu, do qual ele é o primeiro a utilizar como modelo. A propriedade borromeana que mais interessa a Lacan é a seguinte: não importa quantos nós existem na cadeia borromeana, mas, o desatamento de apenas um deles, desata todos os outros. Para resumir numa única frase, Lacan leva às últimas consequências a fórmula: “Não existe relação sexual”.

O ultimíssimo ensino de Lacan é colocado sob suspeita por alguns. Roudinesco, por exemplo, fala de uma “viagem de Lacan ao planeta borromeu”, suspeitando de sua integridade mental nessa etapa de sua vida. Não é o ponto de vista dos dois principais leitores de Lacan: Jacques-Alain Miller e Jean Claude Milner.

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