Histeria e obsessão

 

Em certo momento, o poeta Freud traz o seguinte primor: “um caso de histeria é a caricatura de uma obra de arte, uma neurose obsessiva é a caricatura de uma religião, e um delírio paranoico é a caricatura de um sistema filosófico”. E o que se segue é um devaneio sobre a feliz alegoria.

Embora situe a psicanálise como ciência, e para ele só existem ciências da natureza, Freud confidencia que seus antecessores estão mais no campo da literatura, e cita exemplos: Shakespeare, Goethe, Dostoiévski. Ambiguidade que traduz dilema persistente até nossos dias.

A histérica é considerada como uma grande simuladora da medicina. Seus sintomas enlouquecem os médicos. A crise faz supor uma somatização (conversão) neurótica. Mas, e se não for?  Ela simula os mais variados quadros médicos. O que exige exames e mais exames. Se não é doença física, o que é? E se for doença física, qual é? Os sintomas não são característicos de nenhum quadro conhecido. Será um quadro desconhecido? Ou, o que é pior, desconhecido por mim, seu médico? Como se não bastasse, a histérica simula os mais diversos quadros psiquiátricos. Exemplo: chega com delírios paranoicos. Na verdade, mentiu para o psiquiatra e para o marido e ingeriu altas doses de anfetamínicos, que podem causar tal quadro. A sintomatologia histérica pode incluir contorções, paralisias, rigidez, estupor, pantomimas, e um repertório de representações digno de uma artista, ou melhor, de uma caricatura de artista. A atual classificação da psiquiatria (DSM) resolveu o problema. O conceito de transtorno agrupa poucos sintomas. Não dá para incluir a histeria em um único transtorno, mas em vários, em inúmeros. O que quer dizer: a histeria não existe mais! Foi esquartejada.

O que caracteriza a neurose obsessiva é a ritualização, o comportamento compulsivo, o moralismo escrupuloso, os pensamentos imorais, os sentimentos de culpa, a penitência, os ritos esconjuratórios, a procrastinação, as ladainhas. Razão pela qual Freud compara a neurose obsessiva a uma religião individual. Ou, o que é correspondente, a religião como uma neurose obsessiva universal.

A histeria é da ordem do corpo. O corpo fala, o corpo encena, o corpo sofre. A obsessão é da ordem do pensamento. Pensamento que se intromete, que insiste, que faz penar.

A histérica escancara a falta. A falta do médico. A falta do psiquiatra. A falta de saber. Ou mesmo a falta que existe por toda parte. Motivo pelo qual está ligada ao nascimento da psicanálise: um enigma cujo encaminhamento exige outra abordagem.  Não é com maestria que deve ser tratada. Freud ama a histérica.

O obsessivo obtura a falta. A dele e a dos outros. É um reservatório de saber, um pródigo transmissor de conhecimentos, um especialista em remendar o que está errado. Quer consertar o mundo. Lacan ama o obsessivo.

 

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