Paranoia

Sim, o delírio paranoico é a caricatura de um sistema filosófico.

O caso princeps da psicanálise é o do Presidente Schreber, que, aos 51 anos, após ser promovido ao cargo máximo da magistratura alemã, desencadeia grave psicose. O núcleo de seu delírio é o seguinte: ele será transformado numa mulher, submetida ao gozo de Deus, que com ele copulará, dando origem a uma nova raça de homens, os homens schreberianos.

Neurose e psicose são as duas estruturas clínicas fundamentais da psicanálise. É possível diferenciá-las em termos mínimos: na neurose, há inscrição do Nome-do-Pai, um significante fundamental, enquanto que, na psicose, não há, tal significante não está incluído, está foracluido. O que exige ordenação simbólica inteiramente distinta, com forte sustentação do imaginário. Lacan compara tal compensação a um banquinho de três pés. Fala também de bengalas imaginárias. No caso de Schreber, no desencadeamento de sua psicose, é tal sustentação do imaginário que desmorona, em vivência por ele denominada “fim do mundo”. Em suas Memórias, cada etapa de sua psicose é descrita com minuciosos detalhes: a fragmentação imaginária, as vivências corporais, os delírios, as alucinações, a sistematização, a reconquista de direitos civis dos quais havia sido destituído.

A metáfora delirante Mulher de Deus, núcleo da concepção schreberiana, confere-lhe uma nova identificação, tal como um novo nome, capaz de fazer suplência ao Nome-do-Pai que não existe, e de contribuir para reorganizar sua subjetividade. Com efeito, a metáfora delirante é o centro de uma trama, ou de um vasto sistema delirante-alucinatório, constituído mediante uma lógica. Não a lógica que rege a ciência e o pensamento racional, mas uma lógica que se apoia em associações por semelhança ou contiguidade, próxima do pensamento mágico, primitivo. A sistematização delirante de Schreber, que encanta quem lê suas Memórias, para Freud não é um produto patológico, mas uma tentativa de restabelecimento, um processo de reordenação, que lhe confere certa estabilidade subjetiva.

Lacan afirma que, num primeiro momento, procura-se aplicar a psicanálise à psicose, mas que, no segundo momento, procura-se aplicar a psicose à psicanálise. Isso quer dizer, em outras palavras, que a psicanálise chega a certos sujeitos, tais como Schreber e Joyce, mais para aprender do que para ensinar.

A narrativa delirante de Schreber, ainda que possua concatenação lógica interessante, ainda que seja um sistema de ideias com coerência própria, restringe seu alcance à teoria de um sujeito sobre si mesmo. Freud comenta que o trabalho delirante permite a reconstrução de seu mundo, não de forma esplêndida, mas, pelo menos, de modo a poder viver nele novamente.

Agora, quando se considera a filosofia, o mundo é outro. É o universo, incluindo o universo humano. Elucida-se, assim, a afirmação de que o delírio paranoico é uma caricatura, ou um arremedo de sistema filosófico.

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