Psicopatia

A concepção de Psicopatia tem antecedentes importantes. Em 1835, Prichard lança o conceito de Loucura Moral, uma perversão mórbida das inclinações morais e dos impulsos naturais, com preservação da inteligência e do raciocínio, e sem delírios nem alucinações. Orientação que prioriza o aspecto antissocial. Em 1913, Kraepelin cria o termo Personalidades Psicopáticas para agrupar grupo heterogêneo de tipos fronteiriços, que se afastam das neuroses sem se incluírem nas loucuras. Entre eles, os antissociais.

O termo Psicopatia foi criado por Bleuler, e a concepção contemporânea segue a orientação de Prichard, que prioriza o cunho antissocial dos casos. Razão pela qual alguns autores preferem o termo Sociopatia. Outros termos correlatos: perversos, caracteropatas, canalhas, personalidades antissociais.

Psicopatia é diagnóstico psiquiátrico, não é diagnóstico psicanalítico. Para a psicanálise, trata-se de fenômeno trans-estrutural, ou seja, sujeitos assim classificados podem estar incluídos em diferentes estruturas clínicas.

O caráter antissocial da Psicopatia permite interessante reflexão sobre a Psiquiatria.

A psiquiatria clássica, período que vai de Pinel a Kraepelin, constitui-se como discurso médico ancorado em fortes bases moralistas. Na etiologia das alienações mentais, as causas morais são as mais importantes. E o tratamento moral, proposto, articulado e teorizado por Pinel, prevalece por mais de um século, até o fim do período clássico. Sem contar a célebre teoria da degeneração, de Morel, que concebe a alienação mental com causas morais, e transmitidas por hereditariedade genética.

A psiquiatria atual substitui a moralidade social pela normalidade social. O que permite a tese segundo a qual o tratamento moral não foi ultrapassado, foi refinado. Os transtornos catalogados na classificação psiquiátrica (DSM) são desvios da norma social, causadores de sofrimento, e a cura pressupõe retorno à normalidade, com alívio do sofrimento.

Ora, se a Psicopatia é, por excelência, ANTISSOCIAL, a Psiquiatria é, por excelência, SOCIAL. Impasse intransponível. A psiquiatria afirma que o psicopata é intratável, e ela só se interessa por ele como objeto da Psiquiatria Legal. O psicopata é intratável porque, desde Pinel, o tratamento psiquiátrico é basicamente normalizador.

Não há dúvida quanto a isso: os psicopatas são de difícil tratamento. Mas, um tratamento possível, deve partir de outra abordagem, que não a normalizadora. Qual? Quem trabalha com presidiários, sabe que eles prezam uma pessoa: sua própria mãe. É quem raramente os abandona. Uma pista é esta: na Psicopatia, cherchez la mère.

Razões teóricas reforçam a ideia. Se a Psicopatia é, por excelência, antissocial, isso fala de uma insubmissão à lei. E a lei, tanto a simbólica como a jurídica, tem a ver com a função paterna. Então, é possível, nesses casos, além de uma hostilidade franca ao pai, uma fusão com o desejo caprichoso da mãe.

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