Melancolia

Luto e melancolia. Um dos textos clínicos mais fecundos de Freud. Ele parte de uma semelhança aparente entre o estado de luto e a melancolia. Outra coincidência: no começo de ambos é possível encontrar uma perda amorosa. Mas, a semelhança termina aí. A dinâmica subjetiva é completamente diferente.

Na melancolia, existe acentuada ambivalência (amor e ódio) do Eu do sujeito em relação ao objeto perdido. Ou seja, o objeto perdido é profundamente amado e profundamente odiado (para a psicanálise, situação encontrada com certa frequência). O que acontece, em seguida? O Eu do sujeito identifica-se com o objeto perdido, como estratégia para compensar a perda amorosa, ou sanar a ferida narcísica. Ora, é fácil prever a outra consequência. O ódio profundo que havia contra o objeto se volta para dentro, passa a agredir o Eu, identificado que está agora com o objeto. Da mesma forma que o Eu do sujeito agredia o objeto, o Supereu do sujeito passa a agredir o Eu. A ponto de Freud exclamar, em outro momento, que “o Supereu do melancólico é pura cultura de pulsão de morte”.

Pode-se dizer, então, que, na melancolia, a agressividade que existe em relação ao outro se volta para dentro, se volta para o Eu, e quem escuta as ofensas que o melancólico dirige a si mesmo, percebe: é como se ele estivesse se referindo a outra pessoa. Com certa possibilidade, o melancólico suicida-se. Para Freud, “o suicídio é, no fundo, um assassinato”. Busca atingir o Outro.

A mania, o que é? Uma derivação da melancolia. O Eu se liberta do objeto, desfaz sua identificação com ele, e vive sensação de vitória, de euforia, de grandeza, e põe para fora toda a agressividade que estava para dentro.

Para a psicanálise, a melancolia, assim como a mania, são crises psicóticas muito graves, com sério risco de vida, tanto para o sujeito como para outrem, crises tão agudas que a via significante do psicanalista pouco pode fazer. O tratamento de preferência é, sem dúvida, o psiquiátrico, geralmente com bons resultados, quando realizado no tempo oportuno e com competência. Debelada a crise, o sujeito psicótico fica tão estabilizado, que o psiquiatra dá alta, não vê mais o que fazer, além do tratamento de manutenção.

É aí que o psicanalista pode entrar em cena. É aí que a via do significante se torna acessível, para abordar questões intocadas pela medicação.

A principal delas, como foi dito, está no início do quadro: a ambivalência em relação ao objeto amado. Que se manifesta frente a pessoa da vida presente, mas que remete a relação passada. Enquanto que a paranoia se escreve o lado do pai (Schreber), a melancolia se escreve do lado da mãe (amor e rejeição). São temas que podem e devem ser abordados pela via da palavra, a partir das questões atuais, pois, quem trata o presente, está tratando também o passado, o passado nele contido.

 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Veja também: