O que Charcot passa a Freud (lição válida ainda hoje)

 

A história do movimento psicanalítico. Texto em que Freud comenta: certos homens “transmitem um conhecimento que, rigorosamente falando, eles próprios não possuem”. Um deles, Charcot. Que conhecimento Charcot transmite a Freud, sem mesmo possuir? Para deslindar a matéria, é preciso situar a época em que Freud vive, e rever sua cena com Charcot.

Viena, final do século XIX. A psiquiatria da época é rigorosamente organicista, o que quer dizer, em poucas palavras: a causa de todo sintoma mental está no cérebro. Causalidade linear, simples assim: o sintoma mental é produzido por alteração cerebral. Freud especializa-se em neuropsiquiatria no serviço do Professor Meynert, um organicista tão radical, que propõe uma psiquiatria sem psicologia, ou uma psiquiatria que se confunde com a neurologia. Ao concluir seu aprendizado com Meynert, toma conhecimento dos trabalhos sobre histeria do Professor Charcot, no Hospital Salpetrière, em Paris. Para lá se dirige, então, para um estágio de pós-graduação.

Charcot é um grande neurologista, que se interessa por hipnotismo, tema maldito para a medicina da época, por estar associado à charlatanice. O prestígio de Charcot é tão grande, que se admite o uso que ele faz da hipnose, para pesquisas científicas. Que pesquisas são essas? Para o que aqui interessa: no grande salão da Salpetrière, para um teatro formado por médicos, ele hipnotiza pacientes conhecidas como grandes histéricas, e consegue, por meio de sugestões pós-hipnóticas, fazer desaparecer seus sintomas histéricos. Ou, pelo contrário, em outras ocasiões, consegue fazer aparecer tais sintomas. Conforme já lembrado com frequência, históricas histéricas.

O que há de excepcional nessa história? O que há de excepcional nessa história é o que Bachelard chama de corte epistemológico. Está aí, simplesmente, o nascedouro da psicanálise: o sintoma mental pode aparecer ou desaparecer, não apenas na dependência de uma alteração cerebral. O que Freud descortina é a possibilidade de um sintoma mental nascer ou findar mediante a influência de um sujeito sobre outro sujeito (algo que, mais tarde. será nomeado transferência). Eis o caminho que Charcot mostra a Freud, sem sequer vislumbrar o alcance do que está a transmitir. Com efeito, de volta a Viena, Freud trabalha com Breuer e escreve seus Estudos sobre a histeria, a pré-história da psicanálise. As vicissitudes do sintoma não apenas em relação ao que ocorre no cérebro, mas na relação do sujeito com o significante.

Lição plenamente válida, ainda nos dias de hoje, quando certas orientações insistem em propor a alteração cerebral como única via para o sintoma mental. Retrocesso ligado à lógica da medicação, que apregoa ancoragem científica, ainda que esteja, mais claramente, ancorada em interesses da indústria farmacêutica. Quanto a isso, não é o caso de demonizá-la, mas, sim, de lhe colocar cabresto. Pois, a besta é brava.

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