Em O mal-estar na civilização Freud observa que o advento da civilização exige renúncia de pulsões sexuais e agressivas. O recurso mais importante para alcançá-la é a constituição do Supereu. De que modo isso acontece? Num primeiro momento, a renúncia pulsional se faz frente a uma autoridade externa, que ameaça com perda de amor e castigo. Num segundo tempo, a agressividade é introjetada, interiorizada, enviada de volta para dentro, o que resulta na organização do Supereu como autoridade interna, e a renúncia pulsional devida ao medo dele. Num terceiro tempo, uma lógica paradoxal, algo familiar à psicanálise, mas, estranho ao modo comum de pensar das pessoas. Cada nova renúncia pulsional, em vez de aplacar, aumenta a severidade do Supereu. Ele exige renúncia pulsional e essa, por sua vez, engorda o Supereu. É o que Lacan chama de gula do Supereu. Da agressividade que o sujeito retorna contra si mesmo provém tal ferocidade.
O Supereu, enquanto consciência moral, põe em ação contra o Eu a mesma agressividade rude que o Eu gostaria de dirigir a outrem. A tensão entre o severo Supereu e o Eu é denominada sentimento de culpa, ou necessidade de punição; mal-estar que cabe a cada um suportar, como fardo por viver numa civilização.
Convém assinalar que renúncia pulsional não é renúncia ao gozo. Se não há renúncia, o sujeito goza; se há renúncia, o sujeito goza de renunciar. Ou goza desde o Isso, ou goza desde o Supereu. Como brinca Miller: existe o prazer de comer marmelada e existe o prazer de não comer marmelada.
A lógica paradoxal do Supereu pode ser evidenciada em numerosas situações clínicas, e é possível apresentar algumas delas de modo sucinto. Em seu relato, um sujeito comenta.
—Devido a circunstâncias e pressões familiares, prestei ajuda a um parente, pessoa reconhecidamente problemática. Ajuda que precisei reproduzir numerosas vezes, em variados contextos. O parente não esboçou nenhum reconhecimento, longe dele alguma expressão de agradecimento. Pelo contrário, a cada vez em que era beneficiado, pouco adiante apresentava demandas maiores, algumas, em tom de reivindicação, como se fosse algo obrigatório para mim. Bastante exaurido, identifiquei a trama e resolvi dar fim drástico à situação. O que resultou foi uma ruptura da relação, acompanhada de grande hostilidade por parte do parente. Tudo se passou como se eu, depois de tanto dar, ainda estivesse devendo a ele!
Outro exemplo. Os dependentes químicos costumam tentar ficar livres da substância tóxica. É claro que surgem sensações de abstinência. Se o dependente químico, para obter alívio, cai na tentação de ingerir pequena dose, o que acontece? Cai facilmente na gula do Supereu! A máxima dos Alcoólicos Anônimos é sábia: Evite o primeiro gole.
A lógica do Supereu é a lógica da chantagem, e a polícia sabe muito bem dela. Ao negociar com um chantagista, o princípio básico é: não ceder. Pois, ceder, em vez de reduzir, aumenta a pedida.