Em Psicologia das massas (Massenpsychologie) Freud apresenta concepção clara e precisa de Totalitarismo. Toma como paradigmas dois grupos artificiais totalitários: a Igreja e o exército. A lógica coletiva que lhes concerne está centrada em um líder, o general, no caso do exército, ou numa ideia dominante, Cristo, no caso da Igreja, que se colocam no lugar do ideal do Eu. O fascínio pelo líder ou pela ideia dominante é da ordem de uma identificação, à qual corresponde a identificação dos membros entre si. O resultado final é o funcionamento do grupo como uma massa, como Um, e a servidão a um comando unificado. De modo esquemático, Freud assim se expressa: “Uma massa primária desse tipo é uma quantidade de indivíduos que puseram um único objeto no lugar de seu ideal do Eu e, em consequência, identificaram-se uns com os outros em seu Eu”.
O grupo totalitário apresenta poderosa coesão interna, que se opõe tenazmente a supostos inimigos. No caso do exército, são os inimigos da Pátria. E uma religião, mesmo que se considere religião do amor, tem que ser dura e inclemente para com aqueles que a ela não pertencem. A esse respeito, a maior tolerância que se observa em tempos recentes está relacionada a um afrouxamento da coesão entre os crentes.
Jacques-Alain-Miller, no texto de sua Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola, apresenta tese instigadora: a Escola (de Lacan) é um sujeito. Ou seja, a Escola, um grupo organizado, pode ser tratada como um sujeito, um sujeito barrado, e inclusive, pode ser psicanaliticamente interpretada. Tese que levanta a seguinte questão: em que medida um grupo organizado pode ser tratado como um sujeito? No caso de um grupo totalitário, tal como abordado por Freud, seria um sujeito imaginariamente não barrado, não dividido, completo, regido pela lógica do universal, pela lógica do todo.
Lacan afirma que “Freud articulou, em Massenpsychologie, nos primórdios dos anos vinte, uma coisa que, singularmente, revelou estar no princípio do fenômeno nazista”. Ou seja, a união e o fascínio da massa por um líder, sua servidão a ele, o que culmina na drástica perseguição, na segregação, e até mesmo no extermínio de inimigos presumidos. O bigode de Hitler como um detalhe crítico (Seminário 18), um traço unário, um significante aglutinador, capaz de unir a identificação coletiva de uma nação.
Concluindo, Freud trouxe elementos axiais para a elucidação do totalitarismo, o que inclui experiências históricas que lhe foram contemporâneas, e que constituem dois outros grandes paradigmas: o da direita, já mencionado, com Hitler e a Alemanha nazista, e o da esquerda, com Stalin e a União Soviética comunista. O Ocidente, que viveu as agruras do nazismo e do capitalismo, comumente se cega para as atrocidades do comunismo. Como exemplo do que acaba de ser dito, a militância pró-soviética de Sartre e de Merleau-Ponty, logo após o fim da Segunda Grande Guerra, fechando os olhos para os campos de concentração (gulags) e para as atrocidades do regime estalinista. Exemplo europeu.