Nos tempos atuais, qual o tema mais difícil de ser abordado por um psicanalista? Não há sombra de dúvida. Na civilização contemporânea, civilização do bem-estar, o tema mais espinhoso são as pulsões de morte. Motivo pelo qual às vezes são escolhidos temas adocicados, que prometem resultados aprazíveis. Mas, o psicanalista não deve recuar diante do desafio: é preciso tratar a questão das pulsões de morte.
Grande parte dos pós-freudianos evitam o problema, alegando que a tese das pulsões de morte é especulação filosófica. Nada disso. Melanie Klein e Lacan mostram algo inteiramente diverso: o Supereu, conceito de importância maior na clínica psicanalítica, é impensável sem as pulsões de morte. Como, então, concebê-las?
Dados da clínica são abundantes, mas, a Primeira Grande Guerra precipita a concepção. Freud leva às últimas consequências a fórmula de Hobbes, segundo a qual “o homem é o lobo do homem”. E em O mal-estar na civilização, traz uma síntese clara.
“O ser humano não é uma criatura branda, ávida de amor, que, no máximo, pode se defender, quando atacado. Mas, sim, ele deve incluir, entre seus dotes pulsionais, um forte quinhão de agressividade. Em consequência disso, para ele, o próximo não constitui apenas um possível colaborador e objeto sexual, mas, também, uma tentação para satisfazer a tendência à agressão, para explorar seu trabalho sem recompensá-lo, para dele se utilizar sexualmente contra sua vontade, para usurpar seu patrimônio, para humilhá-lo, para infligir-lhe dor, para torturá-lo e para matá-lo“.
Citação que mostra peremptoriamente que pulsões de morte nada têm a ver com especulação filosófica, mas com a dura realidade dos seres humanos. Freud tem plena consciência do incômodo causado por suas formalizações. Diz que “a psicanálise não traz a boa nova” e que ele faz parte daqueles que haviam perturbado o sono do mundo.
Lacan, com o conceito de gozo (satisfação da pulsão), reúne pulsões de vida e pulsões de morte, ou seja, o gozo é a satisfação da pulsão, tanto das pulsões de vida como das pulsões de morte. O que quer dizer muita coisa. Satisfação não é apenas algo ligado ao bem-estar. Com as pulsões de morte, há satisfação em causar dor no outro, ou prazer em destruir, e também em causar dor em si próprio. Ou seja, há situações em que o sujeito busca o próprio sofrimento como forma de satisfação.
A concepção de pulsões de morte tem grande alcance clínico, verificável na prática do dia a dia, mas sua importância vai muito além, pois abrange numerosas ocorrências que se constatam facilmente no cotidiano dos noticiários, e nas próprias suposições quanto ao futuro da humanidade. A complexidade do tema não permite otimismo ingênuo e aponta mais para um realismo prudente. Com as pulsões de morte, fica impróprio falar em cura, tanto no plano do sujeito como no plano coletivo, mas, a proposta psicanalítica, num ponto crucial, é clara: saber é melhor do que desconhecer, descobrir é melhor do que encobrir, reconhecer é melhor do que negar. O que a psicanálise pode? “Um analista não pode prometer mais do que substituir a miséria neurótica pela infelicidade comum do ser humano”.