Os arruinados pelo êxito

 

Eis o título de um artigo de Freud. Título que é uma interpretação! Apresenta o êxito como causa de ruína! Abordagem inovadora da psicanálise, que, no máximo, foi esboçada, antes dela, por grandes literatos (Shakespeare, Ibsen). Certas pessoas simplesmente não são capazes de tolerar a felicidade! Adoecem precisamente no momento em que um desejo, profundamente enraizado, alcança a realização.

Exemplo célebre, trazido em outro momento, é o do Presidente Schreber. Sua carreira como jurista evolui com êxito e brilhantismo, com várias honrarias e promoções, até ser nomeado, aos 51 anos, Presidente da Corte de Apelação de Dresden. Posto vitalício, ponto culminante de sua ascensão na conceituada Justiça alemã. Um desafio, pois, além de elevados encargos, seus subordinados são mais velhos e mais experientes do que ele. A partir daí, sobrevém o desencadeamento de grave psicose; inicialmente por dramática dissolução de seu imaginário, catástrofe subjetiva que ele designa como “fim do mundo”.

Para Lacan, a operação estruturante da psicose é a falta ou foraclusão de um significante fundamental, o Nome-do-Pai. O que cria uma cratera na rede significante, um buraco no simbólico. A promoção conferida a Schreber é forte apelo ao exercício de uma função paterna, experiência simbólica que invoca o lastro do significante do Nome-do-Pai, mas que, em seu lugar, encontra o vazio. A falta do Nome-do-Pai é a chave do desastre que se segue.

Freud cita outro exemplo. Um respeitável senhor, professor universitário, nutre há muito o desejo de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos estudos. Quando o mestre se aposenta, seus colegas lhe informam que fora escolhido para substitui-lo. Começa, então a hesitar, até cair em melancolia, que lhe deixa incapaz por vários anos.

Nesse caso, tudo se deve exatamente à presença do Nome-do-Pai, ou seja, ao que Freud chama de complexo paterno. O velho mestre no lugar do pai, como objeto de forte ambivalência: a um só tempo amado e alvo do desejo hostil de vê-lo superado. Quando surge a oportunidade de ocupar o seu lugar, o sentimento de culpa irrompe, e, em vez de ascensão ao poder, a melancolia prevalece, impedindo-o de galgar o posto almejado e interditado.

Desse modo, sim, desse modo, a psicanálise estabelece conexão que fere o senso comum, que subverte o princípio do prazer, ao situar o êxito como véspera da ruína, o sucesso como antessala do fracasso, e ao mostrar que felicidade não é fácil de viver, e que, pelo contrário, precisa ser suportada, ou mesmo, construída e mantida, pois, se não, após a vitória, sobrevém a inconsistência, ou a culpa, ou o declínio, ou a melancolia.

Autores pós-freudianos criam expressões marcantes para aludir o tema em questão: “O homem contra si mesmo” (Massermann), ou “Os sabotadores internos” (Fairbairn).

O que há de comum em tudo isso é o Supereu, e algo intimamente ligado a ele: as vicissitudes de um além do princípio do prazer.

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