A Escola de Lacan

 

“A Escola é um sujeito”.  Eis a tese proposta por Jacques-Alain Miller em seu texto sobre a Teoria de Turim sobre o sujeito da Escola.

Como introdução, Miller apresenta a formalização de Freud sobre o grupo, com base em Psicologia das Massas. “O coletivo, as formações coletivas, os grupos e igualmente uma Escola se analisam como uma multiplicidade de relações individuais com o Um do ideal do eu. Do ponto de vista freudiano, o ser do coletivo é apenas uma relação individual multiplicada”.

Em seguida, Miller passa a explicitar a ideia de grupo que Lacan preconiza para sua Escola. Na sua fundação, em 1964, está posto: “tão sozinho quanto sempre estive em minha relação com a causa psicanalítica”, ou seja, ele se apresenta “não como um sujeito que propõe a si mesmo como ideal, e sim como um sujeito que tem uma relação com o ideal, assim como aqueles que convida para se juntarem a ele em sua Escola”. Não há anulação do ideal na Escola, não há grau zero do ideal, mas Lacan reenvia cada um à sua solidão de sujeito, à relação com o significante mestre do ideal. Eis o paradoxo da Escola: uma formação coletiva que não pretende fazer desaparecer a solidão subjetiva.

A primeira palavra de Lacan ao fundar sua Escola é uma interpretação para dissociar o sujeito e o significante mestre, o sujeito e o gozo que daí decorre. A interpretação tem sempre um efeito desagregador, mas, sendo o ideal o mesmo para todos, a Escola aposta que a comunidade é capaz de se sustentar. Mesmo porque cada um é analisado ou está em análise. “A Escola não é uma coletividade sem ideal, e sim uma coletividade que sabe o que é o ideal e o que é a solidão subjetiva”. Outra maneira de formular o paradoxo, a Escola é uma multidão solitária.

A adição de solidões supõe o Um-a-mais. Trata-se, primeiro, da Causa Freudiana, e, em seguida, o nome próprio de Lacan.

Qual a diferença entre a Sociedade criada por Freud (IPA) e a Escola criada por Lacan? O desejo de Freud leva a uma comunidade cujo alicerce é a horda selvagem: um pai que é um significante vivo, de onde surge, após sua morte, um sindicato fraterno, uma máfia em torno de seu túmulo. O desejo de Freud se mantém na lógica edipiana, na lógica de grupo, na lógica do todo, no universal que se funda numa exceção. O desejo de Lacan vai além do Édipo, onde não há uma exceção única, e sim uma série de exceções, de solidões incomparáveis umas com as outras e habitadas pela extimidade de um mais-de-gozar particular a cada uma. Nesse sentido, a Escola é um conjunto de Russell (também chamado conjunto aberto), um conjunto nãotodo. Razão de estrutura que faz o movimento lacaniano se apresentar sob forma essencialmente dispersa. A Escola é, por conseguinte, um conjunto fundamentalmente antitotalitário.

Como solidões subjetivas podem constituir o sujeito Escola? “A democracia direta é o dispositivo significante necessário para subjetivar a Escola e fazer dela um sujeito suposto saber, tecido de nossas solidões”. E, de que modo a Escola é um sujeito dividido? Ela precisa servir a dois senhores; à lógica do todo, do Estado, e à lógica do nãotodo, da psicanálise.

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