Placebo também cura!

 

O que é um placebo? Um dos produtos mais curiosos da ciência! Uma substância inerte ou inócua, do ponto de vista farmacológico, utilizada em ensaios clínicos, para testar e comparar novos medicamentos. Os comprimidos de placebo e do medicamento testado são idênticos na sua aparência, não sendo possível, visualmente, diferenciar um do outro. Os pacientes que participam da pesquisa não sabem se estão tomando placebo ou o remédio novo que está sendo testado. Os avaliadores dos resultados, também, não. Motivo pelo qual o método é nomeado duplo cego. Somente um outro pesquisador, que controla os trabalhos, sabe quem está tomando o quê.

Usam-se como placebo, por exemplo, comprimidos de amido. Já foram usados comprimidos de talco, sob a alegação de que saíam da mesma maneira que entravam. Foi descoberto, porém, que talco é cancerígeno; a preferência, então, recai sobre substâncias mais inertes ou inócuas.

A participação do placebo em testes clínicos traz resultados impressionantes, curiosíssimos. Um deles: o placebo provoca inúmeros efeitos colaterais, que devem ser, inclusive, computados estatisticamente. Outro deles, ainda mais curioso: o placebo também cura.

O norteamericano Stahl, autor de famoso compêndio de psicofarmacologia clínica, mostra que, em pacientes tratados com antidepressivos para depressão, cerca de 2/3 respondem após 8 semanas, com redução de no mínimo 50 % dos sintomas; e 1/3 não respondem. Nos pacientes que recebem placebo, cerca de 1/3 respondem em 8 semanas. O que se pode concluir, a partir desse autor e de vários outros, com dados aproximados?  Se o antidepressivo “cura” 2/3 dos casos, o placebo “cura” 1/3 dos casos.

Ora, qual o fundamento da ação do placebo? Pacientes melhoram, ou se “curam”, simplesmente por estarem sendo tratados. Ou seja, sendo cuidados, avaliados, considerados, escutados. Nesse caso, a substância química que ingerem, nada tem a ver com o resultado.

Para ser mais claro: do ponto de vista psicanalítico, o placebo é um dos nomes da transferência. Não da transferência no sentido estrito, tal como ocorre no tratamento psicanalítico, mas da transferência no sentido amplo, como ocorre em todo e qualquer tratamento. O placebo é uma estratégia para isolar os efeitos da transferência.

Duas conclusões se apresentam. A primeira: a eficácia clínica do antidepressivo, nos testes citados, deve-se à soma de sua ação farmacológica mais sua ação como placebo.

Segunda conclusão: todo tratamento, seja qual for, tem chance de curar seus pacientes, devido ao “efeito placebo”. Ou seja, quanto a isso, o que cura é o terapeuta, ou o que cura é a transferência, e não os pressupostos poderes do agente terapêutico. É o que explica porque tantos tratamentos sobrevivem, por tanto tempo, mesmo sem nenhum embasamento que os comprovem.

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