Laboratórios não vendem remédios, vendem doenças

 

O periódico Ser Médico, do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, publica, em 2014, entrevista com a pesquisadora norte-americana Adriane Fugh-Berman, do Georgetown University Center, em que ela afirma: a indústria farmacêutica é muito sagaz, pois não vende remédios, ela vende doenças. Como é isso?

A estratégia é bem elaborada. Laboratórios procuram convencer os médicos, e em seguida a opinião pública, da frequência com que surgem certas doenças. Depois, então, é que apresentam o remédio para tratá-las. A questão é que o número de doenças aumenta cada vez mais, na medida em que os remédios vão surgindo.

Fugh-Berman dá um exemplo fictício. Considere o que os médicos chamam de “borborigmo”: os ruídos ou burburinhos de um estômago vazio. Imagine que uma indústria farmacêutica pretenda desenvolver uma droga para combater tal desconforto. O primeiro passo é fazer as pessoas levarem a sério o estado de doença. Com a droga ainda em testes, são lançadas mensagens de marketing: “Não há motivo de preocupação enquanto o estômago roncar ocasionalmente, mas episódios regulares podem indicar a condição de barulhos altos repetidos do estômago (BARE)”. Depois de criada a sigla da doença: “Os acometidos por BARE podem ter que limitar viagens, atividades profissionais e de lazer, com certa estigmatização social”. Ou ainda: “O BARE pode levar à obesidade, pois a pessoa tende a comer para evitar o ronco do estômago”. A partir daí, médicos contratados são porta-vozes de mensagens em cursos de educação médica continuada, nos quais é destacado que o BARE não deve ser motivo de riso, mas, sim, condição comum, subdiagnosticada e com consequências potencialmente graves.

Fugh-Berman assinala que a estratégia de criar doenças prefere a área da psiquiatria, onde não existe embasamento estrutural anátomo-fisiológico rigoroso, como no restante da medicina. De fato, a cada edição do DSM —a classificação psiquiátrica dos transtornos mentais e do comportamento— maior é o número de doenças catalogadas.

Outro aspecto merece aqui destaque. O diagnóstico de autismo, por exemplo, existe desde 1943, quando o quadro foi descrito pelo psiquiatra Leo Kanner. Na atualidade, o diagnóstico foi muito ampliado, incluindo três tipos, no chamado Transtorno do Espectro Autista, que abrange vasta quantidade de pessoas. O mesmo ocorre com o Transtorno do Espectro Bipolar, e assim por diante. O resultado é que, cada um de nós, hoje, apresenta não apenas um, mas vários diagnósticos. Entre tantos: TDAH, autismo, bipolaridade, toc, síndrome do pânico, burnout, depressão, ansiedade, narcisismo, insônia, obesidade, dependência química, anorexia, bulimia, etc., etc., etc. Verdadeira epidemia de diagnósticos, que são dados, em primeira mão, por Dr. Google ou por Dra. IA. Sim, e não se trata de puro absurdo, pois existe lógica precisa em tudo isso: a lógica medicamentosa, que, por um lado, melhora depressa pacientes, e por outro, deixa a indústria farmacêutica feliz. Para um cacho de diagnósticos, um coquetel de psicotrópicos.

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