A psicanálise é uma ciência?

Para Freud, sim. Ele deixa de lado a divisão entre ciências da natureza e ciências culturais —pois, para ele, só existem ciências da natureza— e afirma que a psicanálise é uma ciência. E a ciência, segundo a máxima de Galileu, está escrita em linguagem matemática; o paradigma é a física. A biologia vem em seguida, e Freud vê continuidade entre anatomia, fisiologia e psicanálise. Com efeito, no início de seu trabalho, tenta ancorar a psicanálise na neurologia, em seu Projeto para uma psicologia científica, mas, desiste, por não haver elementos para tanto, naquele momento. Não obstante, continua situando a psicanálise no campo da biologia, na esperança de que, um dia, a pretendida fundamentação seja feita.

Para Lacan, o campo da psicanálise não é o biológico, é o da linguagem, e ele muda a base de sustentação: da biologia para a linguística, numa época em que se acredita ser possível estabelecer bases matemáticas para ciências da cultura. Depois que tal pretensão se revela falha, Lacan insiste, ainda assim, em estabelecer uma ciência galileana, ao articular a psicanálise com a lógica-matemática, a partir de Frege, Russell e Goldstein, no que ele chama de matemas. A psicanálise, então, é ciência, embora não adote o método estatístico, pois não se faz estatística com singularidades; ela é ciência porque estabelece a lógica do caso clínico com rigor matemático. Há um ultimíssimo momento no ensino de Lacan, em que ele aparentemente se afasta da matemática, adere ao nó borromeano, não mais pensa a psicanálise como ciência, e a aproxima do esforço de poesia.

Existem, portanto, as ciências da natureza, cujo paradigma é a física, e as ciências da cultura, com várias tentativas de estabelecer sustentação matemática.

Há um novo paradigma, cujo exemplo mais claro é a genética, que trabalha não propriamente com a matemática, mas com notações gênicas por sequências de letras e heredogramas. E ninguém põe em dúvida a cientificidade da genética.

Se a psicanálise é ou não uma ciência, por conseguinte, vai depender da concepção de ciência que se adota. Se o paradigma é a física, o número de ciências será pequeno.

Uma coisa, porém, deve ficar claro. A psicanálise se inscreve na tradição racionalista do iluminismo. Ela não é mística, ela não é esotérica, ela não é ocultista. Por ser do campo racionalista, incomoda muito mais, na medida em que aborda temas que a ciência considera desprezíveis.

O mais curioso é constatar: quem mais questiona a psicanálise como ciência é a psiquiatria biológica, que carece inteiramente de embasamento biológico rigoroso para suas doenças. Os numerosos transtornos catalogados pelo DSM-V não têm nenhuma fundamentação biológica, são baseados exclusivamente na norma social, e os tratamentos são guiados por uma ideologia normalizadora. Repete-se, uma vez mais, o ditado: quem tem telhado de vidro é quem mais joga pedra.

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