Segregação e loucura

 

Na região metropolitana de Belo Horizonte existem, hoje (2024), somente dois hospitais psiquiátricos: um público e um privado, ambos de médio porte. Há 50 anos, era diferente: três hospitais psiquiátricos públicos (dois de grande porte) e oito privados (sendo cinco de grande porte). O que é isso? A metrópole cresce exponencialmente… e os loucos chegam a seu fim?

A resposta mais simples aponta dois grandes fatores. O primeiro é a reforma psiquiátrica, com a introdução de novos dispositivos de atendimento, que constituem a rede de serviços de saúde mental. O segundo fator é a difusão de novos métodos de tratamento, como atenção individualizada, medicamentos psicotrópicos e meios socioterápicos.

O que é a rede de serviços da saúde mental? Os ambulatórios destinam-se a consultas, exames e tratamentos mais prolongados; geralmente são situados nos centros de saúde mais próximos dos domicílios dos pacientes. Os CERSAMs tratam os casos de urgência. As pequenas unidades de internação estão programadas para casos que exigem regime fechado. Os centros de convivência cuidam da socialização e habilitação profissional dos usuários. E as residências assistidas recebem pequenos números de usuários que perderam a condição de convívio sociofamiliar.

Apesar da precariedade atual do funcionamento desses serviços de saúde mental, é possível dizer, com segurança, que a reforma psiquiátrica não corre perigo de retrocesso. A razão da assertiva é de ordem estrutural. O manicômio é uma estrutura centralizada. Já a reforma psiquiátrica, como foi dito, tem estrutura de rede, o que, uma vez alcançado, torna-se avanço irreversível. As tentativas de retrocesso revelam-se pontuais e não chegam a afetar o essencial da evolução. Aprimorar os serviços, sim:  para garantir a qualidade da atenção aos usuários, e não para impedir uma volta ao passado.

A segregação dos loucos, porém, não é algo que se resolve com a derrubada dos muros do manicômio. Existe segregação sem muros. Muito mais ardilosa, muito mais cruel. Algo às vezes invisível, da ordem da discriminação. Exemplos extremos e visíveis são a população de rua e as cracolândias. Superar a segregação exige empenho permanente.

A segregação, na verdade, é algo estrutural, algo que está no âmago, nos aspectos mais ocultos da condição humana. O que quer dizer isso? Quer dizer que, em última análise, e no mais íntimo de cada um, todos nós somos narcisistas, todos nós somos homofóbicos (inclusive os gays), todos nós somos machistas (inclusive as mulheres), todos nós somos racistas (inclusive os negros), todos nós somos xenofóbicos, todos nós excluímos os loucos (inclusive os próprios loucos fazem isso). Quem não é homofóbico, que não é machista, quem não é racista, quem não é xenofóbico e quem não exclui os loucos, é porque operou uma subversão interna, uma transformação íntima, capaz de resultar em alguém diferente do que era antes. Eis a questão.

 

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