O inconsciente é a política

 

A política está na ordem do dia. No Brasil e no mundo. A psicanálise tem contribuições a dar. Uma delas: o inconsciente é a política. Dito assim, porém, ninguém entende nada. É um defeito dos psicanalistas. Só costumam usar linguagem inacessível aos demais. É preciso clarear, mesmo com certos riscos quanto ao rigor teórico.

Uma chave para elucidar é o termo identificação. Vamos lá. Tudo começa com um livro de Freud, Psicologia das massas. Ali, são estudados os grupos totalitários, tomando como paradigmas a Igreja e o Exército. Qual a estrutura desses grupos? É simples. Há um lugar principal, ocupado por um líder (o general, no caso do Exército) ou por um ideal (Jesus, no caso da Igreja). Todos os demais (os soldados, no caso do exército) ou os fiéis (no caso da Igreja) identificam-se com a figura central e entre si. Portanto, dupla identificação.

Lacan escreve que Freud teoriza sobre o nazismo muito antes dele acontecer. Os alemães identificam-se fortemente com Hitler e entre si: todo o país torna-se uma só massa. E é isso que a política busca: uma identificação com um líder ou com um ideal e a produção de uma massa obediente e apaixonada. Os exemplos são fáceis de somar: Mussolini, na Itália; Stalin, na União Soviética; Perón, na Argentina; Fidel Castro. em Cuba; Trump, nos EUA; Lula e Bolsonaro, no Brasil.

Nesse sentido, o que rege a política é a identificação. Identificação com um líder ou um ideal, por massa de indivíduos identificados entre si. Ora, o que se passa no plano coletivo não é diferente do que se passa no plano do sujeito. Quanto a esse aspecto, segundo Miller, “o ser do coletivo é apenas uma relação individual multiplicada”. Sim, a identificação que rege a política é algo que também ocorre no plano do sujeito.

Dizer: o inconsciente é a política, é algo análogo a dizer: o inconsciente é o sujeito. O que lembra a afirmação de Freud de que o Eu não é o senhor nem em sua própria casa. Conclusão nada lisonjeira, tanto para o sujeito como para a política.

Alguma luz será tentada. Política, por conseguinte, assim como inconsciente, é termo que se liga visceralmente a identificação. O que se liga à psicanálise é o contrário: desidentificação. Está aí um caminho. Não é, obviamente, um caminho político. Mas é a política de um caminho.

O que significa isso? Será bem-vindo tudo o que se possa fazer para que amarras identificatórias sejam rompidas dentro de cada um, assim como entre uns e outros. Identificações são enquadramentos, são tipificações, são conformismos. A ética da psicanálise aponta para o contrário, para a diferença, para a independência, para a singularidade. Aponta não para o um da massa, sim para o um de cada um. Não para uma política do todo, sim para uma política do nãotodo. Em vez de identificação como política, uma política sem identificação. Eis um programa artesanal, não aplicável a massas, tampouco, evidentemente, a eleições.

 

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