O Evangelho segundo Judas Isacariotes

 

Fany Bullinger, de Zurique, herdeira de magnata da indústria farmacêutica suíça, fez de tudo o que gostaria de fazer na vida. Resta-lhe um sonho, ou, para ser mais preciso, uma verdadeira obsessão. Cristã fervorosa, busca melhores provas para demonstrar, historicamente, a existência de Jesus Cristo. Investiga, com zelo e afinco, os caminhos que podem levar a isso.

Um dos Evangelhos mais antigos que se conhece é o de Judas Iscariotes, documento considerado autêntico e datado do século II ou III. Fany Bullinger interessa-se por ele. Foi descoberto no Egito, onde existem muitos cristãos coptas, descendentes dos antigos egípcios que se converteram ao cristianismo no século I. Consideram o evangelista São Marcos o fundador de sua Igreja, e cultivam velhas tradições religiosas. Será que poderiam acrescentar algo sobre a existência histórica de Cristo?

Uma visita a uma de suas autoridades está nos planos. Depois de acionar contatos, Fany Bullinger escolhe, como sua prioridade, o bispo copta Kyrillo, na cidade de Sharm El- Sheikh, na península do Sinai. Um diálogo, então, tem lugar.

Bullinger —Senhor Bispo, dedico minha vida e meus recursos ao sonho de encontrar provas históricas da existência de Jesus Cristo. Se levarmos em conta que o povo copta se converteu ao cristianismo no primeiro século da era cristã, além de habitar região bem próxima ao que tudo aconteceu, creio não ser exagero da minha parte dirigir para cá a minha atenção.

Kyrillo —Minha Senhora, farei o que estiver ao meu alcance. Seu interesse tem fundamento. O Evangelho de Judas Iscariotes foi descoberto no deserto de El Minya, no sul do Egito, onde vivem muitos coptas. Além disso, o apóstolo mencionado não é para nós, como para vocês, um traidor; muito pelo contrário, é o discípulo mais fiel de Jesus. Sim, para nós é São Judas Iscariotes, que cumpriu o plano divino de salvação.  Isso faz parte de nossa visão gnóstica.

Bullinger —Sim, é uma visão diferente… e a simples existência desse Evangelho já é um dado. O documento encontrado, porém, está fragmentado, e tudo indica que algo se perdeu, que haveria uma parte perdida do Evangelho de Judas Iscariotes.

Kyrillo —É possível. Como lhe disse, nosso povo reverencia São Judas Iscariotes, ao contrário dos demais cristãos. E aqui no Egito, o contraste é muito maior, pois vivemos num país muçulmano, razão pela qual somos perseguidos, violentados, discriminados. Nossa religião nos torna um povo muito sofredor.

Nos dias seguintes, o bispo leva Fany Bullinger para conhecer igrejas e presenciar cultos. Conversam com vários fieis sobre experiências cotidianas de discriminação e de violência. No fim do dia, ao se despedirem, duas manifestações eloquentes.

Kyrillo —Os coptas chegam a quase um quinto da população, distribuídos por quase todo o país. Uma coisa a senhora pode concluir: a simples existência de nosso povo é uma demonstração de que, um dia, Jesus Cristo existiu!

Bullinger —Estou muito impressionada com o que vi e ouvi. E, de coração, gostaria de fazer uma doação financeira, um gesto que simboliza meu apoio à sobrevivência de vocês.

Kyrillo —Ficaremos sensibilizados. Comunicarei a nossas autoridades, em Alexandria.

Bullinger— Sim. E antes de ir-me embora, ainda nos veremos.

Ela mantém outros contatos, mas, nenhuma novidade importante. Chega, então, o dia do último encontro, que se faz com portas fechadas.

Kyrillo —Senhora Bullinger, nossas autoridades estão vivamente impressionadas com sua generosidade, e pediram-me que eu lhes contasse a história de sua visita. Relatei com os mínimos detalhes, e eles ficaram muito pensativos. No dia seguinte, chamaram-me para que eu lhe fizesse uma proposta.

Bullinger —Estou curiosa…

Kyrillo —Estamos dispostos a trazer-lhe um segredo nosso, um segredo que mantemos debaixo de sete chaves. Isso, porém, só acontecerá com uma condição: você deverá manter sigilo absoluto sobre o que ouvir aqui. Mediante juramento!

Bullinger —Juro por tudo o que há de mais sagrado!

Kyrillo —Então, vamos ao que interessa. Você mencionou a parte perdida do Evangelho de Judas Iscariotes. Devo informar-lhe que essa parte não está mais perdida, ela está escondida. Foi descoberta no deserto de Matay, perto de onde foi encontrada a primeira parte do Evangelho, e em estado de melhor conservação. Foi entregue a um Conselho de sete sábios de minha Igreja, do qual faço parte, que se empenhou em traduzi-lo, pois está escrito em copta primitivo. Concluida a tradução, ficamos extremamente preocupados! O que fazer? O motivo é este: Judas se refere a Jesus como casado com Maria Madalena!

Um silêncio longo e pesado caiu sobre a sala. Foi interrompido pelo bispo.

Kyrillo—Você deve antever porque esta parte do Evangelho está escondida. Sim, está num lugar secreto, em pleno deserto de Sinai, e só o Conselho de sábios tem conhecimento de sua existência. A primeira parte do Evangelho traz uma interpretação nova: Judas não é um traidor, mas o fiel cumpridor de um desígnio divino. Essa segunda parte, no entanto, traz um fato novo, e bastante perturbador!

Bullinger —Sim, há uma diferença. O fato novo e perturbador é que Jesus não era um celibatário.

Kyrillo —Veja o drama. Se o documento é considerado historicamente verídico, isso em nada vai mudar os mais de dois milênios de história do celibato no cristianismo. E tudo vai continuar exatamente como está. A segunda parte do Evangelho será tratada como falsa, ou como um manuscrito profanador. E os coptas, que descobriram e divulgaram o manuscrito, além de perseguidos pelos muçulmanos, passarão a ser perseguidos, também, pelos outros cristãos! O Conselho de Sábios não teve escolha: declarou que o documento encontrado era uma peça sem nenhuma importância histórica.

Bullinger —E ordenou escondê-lo debaixo de sete chaves.

Kyrillo —Exatamente.

Bullinger —Fica claro, desse modo, o seguinte ponto: a verdade histórica interessa à História, mas, não, à Religião. Porquanto, para a Religião, o que importa é a narrativa básica, ainda que não tenha fundamento histórico ou factual.

Kyrillo —Foi, também, a nossa conclusão. O alicerce da Religião, às vezes chamado de mito fundador, não tem base somente na história ou em fatos, nem se abala com descobertas científicas, e pode, inclusive, tentar invalidá-las. A divulgação da segunda parte do Evangelho de Judas Iscariotes não contribuiria em nada para nossa gnose mística, e ainda teria como consequência a fúria perseguidora dos outros cristãos sobre nós.

Bullinger —Ora, o deserto do Sinai é um destino nobre…

Fany Bullinger retorna a Zurique com novos planos em mente. Um outro sonho, ou uma outra obsessão, povoa sua vida: a defesa dos direitos dos cristãos coptas. Falece muito tempo depois, tendo cumprido rigorosamente seu juramento: o de nunca revelar o segredo que lhe foi confiado pelas autoridades coptas.

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